Enviado pelo amigo Joaquim Emidio:

Em Sertãozinho, um velho engenho se tornará museu

Usina fundada no começo do século 20, que conserva maquinário e galpões da época, passa por recuperação no interior do Estado

25 de agosto de 2013 | 2h 05

EDISON VEIGA , ENVIADO ESPECIAL , SERTÃOZINHO (SP) – O Estado de S.Paulo

Seja no prédio principal, seja em qualquer um dos sete pequenos galpões que o orbitam, entrar nas ruínas do Engenho Central de Sertãozinho é um privilégio de aguçar os olhos daqueles que gostam de História. Parece uma viagem no tempo, entre centrífugas escocesas do século 19 – importadas pela família de Santos Dumont -, telhas inglesas, velhas fornalhas, balanças, tonéis e um obsoleto maquinário que movimentou a indústria da cana de 1903 a 1974, período em que a usina funcionou.

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Tiago Queiroz/AE

Antigos galpões da usina, que produzia açúcar desde o início do século 20, foram preservados

Esse eldorado histórico-industrial paulista fica no coração da Fazenda Vassoural, entre Sertãozinho e Pontal, perto de Ribeirão Preto. Foi criado pelo coronel Francisco Schmidt, que nos primeiros anos do século 20 chegou a acumular um patrimônio de 62 fazendas. O Engenho Central era o motor de seus negócios: dali saíam as sacas de açúcar cristal – e os litros de cachaça. Diariamente, uma maria-fumaça adentrava a usina e de lá saía carregada – o ramal da Estrada de Ferro Mogiana foi puxado até a fazenda por força do próprio coronel.

Nos anos 1960, as terras foram compradas dos Schmidt pela família Biagi. Desde que a usina parou de funcionar, há quase 40 anos, os novos proprietários acalentavam o sonho de transformar tudo em museu. Por isso, o velho maquinário não foi vendido como sucata, a exemplo de tantas indústrias centenárias, e os velhos galpões não foram demolidos.

Nos últimos anos, o museu começou a sair do papel. Primeiro, com a criação de uma fundação – o Instituto Cultural Engenho Central. A instituição deve custar R$ 15 milhões. Pela Lei Rouanet, a fundação foi autorizada a captar R$ 10,5 milhões. Até agora, conseguiram R$ 3 milhões – o que seria suficiente para a primeira fase.

Representantes da fundação esperam que, a partir de dezembro, o espaço já tenha se convertido em um memorial – com possibilidade de visitas monitoradas de escolas e também de outros pequenos grupos. O Museu Nacional do Açúcar e do Álcool será a fase seguinte, a conclusão do projeto ainda não tem um prazo definido.

O trabalho já começou. Há dois meses, o instituto contratou os serviços do Estúdio Sarasá, de São Paulo, para implementar um projeto de zeladoria de patrimônio no local (leia mais abaixo). Foram selecionados 14 jovens da região, todos com ensino médio, e eles ganham cerca de R$ 900 por mês para aprender a lidar com um prédio histórico.

Os jovens chegam diariamente à fazenda em uma van contratada pelo projeto. Ali, eles têm aulas teóricas e práticas. Nas práticas, colocam a mão na massa e ajudam a recuperar o velho Engenho Central e os galpões anexos.

Aos poucos, a sujeira e o pó vão saindo e a história, brotando. “Em breve, deixaremos este local em condições de visitação”, explica o arquiteto Fabio Di Mauro, um dos orientadores dos aprendizes. “Algumas patologias do prédio vão ser estabilizadas, outras serão corrigidas. É preciso analisar caso a caso.” Enquanto isso, a historiadora Mirza Pellicciotta se detém na tarefa de compreender cada uma das peças antigas – ela está inventariando os milhares de itens encontrados dentro dos imóveis. “Os equipamentos serão protegidos para não deteriorar”, adianta.

Jovens. Ao mesmo tempo em que nasce um museu, 14 jovens descobrem uma vocação. “Eu estou achando muito legal trabalhar com isso, e agora quero me tornar engenheiro civil”, afirma Marlon Gomes da Silva, de 18 anos. O rapaz cursa o 3.º ano do ensino médio e, antes de ser contratado para estudar e trabalhar na zeladoria do Engenho Central, era office-boy em Sertãozinho.

“Quando entrei para o projeto, nem sabia o que estava fazendo aqui, o que iria encontrar”, admite Marcela Giovana Ferreira da Silva, de 19 anos, que antes era cabeleireira na cidade de Pontal. “Estou gostando tanto que, no futuro, quero me tornar arquiteta.”