Postagens de 28/03/2007 e 31/03/2007, de autoria de Altair José Estrada Júnior, nos esclarecem sobre “Ofício de Trevas” e “Procissão de Passos”, em Itu – SP.

Itu.com.br – Colunistas – Semana Santa em Itu – Ofício de Trevas

Embora sem ter pedido permissão ao autor Altair José Estrada Júnior, redigitei o texto sobre a Procissão de Passos, em Itu – SP, que o mesmo atualizou para 2012 – já publicado em jornal de Itu – SP – e que ofereceu à minha família.

A Procissão de Passos

Por Altair José Estrada Júnior

Quem participa das cerimônias da Semana Santa nota que há uma grande quantidade de participantes na liturgia desses dias. Isso acontece porque é o período mais importante do Ano Litúrgico, quando nos preparamos para a celebração da Páscoa da Ressurreição, que é o acontecimento maior do ano. E para que todos participem mais ativamente das cerimônias, é sempre bom que entendamos os significados.

Existem, na Igreja, celebrações “litúrgicas” e celebrações “paralitúrgicas”. Na Semana Santa, por exemplo, são litúrgicas as cerimônias oficiais, que se desenrolam nas diversas igrejas paroquiais e em algumas capelas, como a bênção dos ramos, a missa da quinta-feira santa, a solene ação litúrgica na sexta-feira santa, a vigília pascal no sábado. As celebrações paralitúrgicas são aquelas surgidas de acordo com os costumes locais, como as procissões, pregações etc.

Uma das principais cerimônias paralitúrgicas que temos em Itu é a Procissão de Passos, que há mais de 200 anos é promovida e preservada pelos Frades Carmelitas de Itu. Aliás, essa procissão é um privilégio muito antigo da Ordem do Carmo, sendo a versão carmelita da via-sacra. Isso mesmo: ao invés das 14 estações da via-sacra habitual, modelada por São Francisco de Assis, a via-sacra carmelita tem apenas sete estações – os passos – diferindo também um pouco nas passagens em que se medita. Neste ano de 2012, será realizada no dia 1.º de abril, às 19 horas. Como sempre, no Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor.

Quem acompanha a Procissão de Passos pode sair cheio de dúvidas quanto ao significado disso ou aquilo. Por isso, vamos a algumas explicações, para que todos aproveitem ao máximo essa oportunidade de bem iniciar a Semana Santa.

A procissão simboliza o caminho doloroso percorrido por Cristo até o Calvário, para a crucifixão. Por isso, é uma cerimônia muito tocante, que se reveste de um caráter triste. Não se tocam sinos e mesmo a banda de música acompanha o cortejo com melodias mais graves.

A procissão, ao sair da Igreja do Carmo, divide-se em duas. A primeira, conduzindo a imagem do Senhor dos Passos – Jesus com a cruz nas costas – desce pelas ruas centrais da cidade e a segunda, conduzindo a imagem de Nossa Senhora das Dores, desce por uma rua lateral. São imagens muito antigas, de madeira, especialmente esculpidas para as procissões da Semana Santa no Carmo. O povo carrega aqueles pesados andores nos ombros como que amenizando um pouco os sofrimentos que as duas imagens inspiram. No itinerário, há sete paradas da procissão – os “passos”, que representam alguns dos últimos acontecimentos da vida de Nosso Senhor.

Quem oficia a procissão é um frade carmelita, que carrega a relíquia do “Santo Lenho”, um fragmento bem pequeno da Cruz em que Cristo derramou o Seu Sangue naquela primeira sexta-feira santa da história. O oficiante acompanha a procissão debaixo do “pálio”,  que é uma cobertura de pano sustentada por seis varas, com a finalidade de proteger o que se carrega sob ele. A capa usada pelo oficiante chama-se “pluvial” ou “capa de asperges” e serve para destacar a dignidade do sacerdote ao levar a relíquia da Santa Cruz pelas ruas da cidade.

Chegando em cada passo, que é armado em residências de famílias e igrejas do itinerário, o padre entra, deposita a relíquia sobre o altar especialmente preparado e a incensa. O incenso tem a finalidade de purificação e de levar nossas orações ao céu, pela fumaça. Enquanto é incensada a relíquia, coro e orquestra executam os “motetes”, que são alusões àquilo que representa cada passo. Os cânticos são em latim, compostos no século XIX pelo maestro ituano José Mariano da Costa Lobo. Cada parada simboliza uma passagem: 1.º passo – “Agonia de Jesus no Horto”; 2.º passo – “Prisão de Jesus”; 3.º passo – “Flagelação de Jesus atado à coluna”; 4.º passo – “Coroação de Espinhos”; 5.º passo – “Apresentação de Jesus ao povo – Ecce Homo“; 6.º passo – “Caminho de Jesus ao Calvário”; 7.º passo “Crucifixão de Jesus”. Depois, há o comovente canto da Verônica, também em latim e de autoria do Pe. Jesuíno do Monte Carmelo, que o compôs no século XVIII. Embora seja cantado pela Verônica, que ao mesmo tempo desenrola e mostra ao povo a face de Cristo, a letra é tirada do livro do Profeta Jeremias e, na verdade, representa um apelo de Nossa Senhora a todos nós; “Ó vós todos que passais pelo caminho, atendei e vede se pode haver dor como a minha dor” – O vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte si est dolor sicut dolor meus.

Chegando ao 3.º passo, que é na Igreja Bom Jesus, um sacerdote daquela comunidade profere o “Sermão do Encontro”, enquanto as duas procissões se unem, encontrando-se as imagens de Jesus e de Nossa Senhora das Dores. Daí, as procissões seguem juntas até a Igreja do Carmo. E, na Igreja do Carmo, último passo, há o “Sermão do Calvário”, também proferido por um sacerdote e é dada a bênção com o Santo Lenho, encerrando-se o ato.

Como vemos, a Procissão dos Passos é uma tradição muito bela da Semana Santa ituana, que deve ser preservada e valorizada por todos nós. Mais do que uma tradição, é uma oportunidade de meditarmos os últimos episódios da vida do Senhor, quando ele derramou o Seu Sangue pela humanidade. Acompanhemos, atentos, a procissão e aproveitemos o quanto mais esses privilégios que a Santa Igreja nos dá para que nos aprofundemos nos sagrados mistérios da Paixão e Morte do Salvador.

14estacoes Paixão de Cristo

Fonte da imagem: Wikipédia, a enciclopédia livre. 

 

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