Já recebi várias vezes a mensagem, formatação Power Point sobre o fato de o brasileiro reclamar e de quê.

Excelente, mas preferi postar o texto original que deu origem a essa mensagem.

Contribuição de um leitor do jornal “O Globo”.

Agradeço à amiga Rosana Branco pela indicação do conteúdo.

Publicação: 26/02/2010.

Artigo do leitor [de “O Globo”] Ubiratan Ferrari Bonino

Certa vez, numa viagem a trabalho na Holanda, um colega de empresa que me recepcionava naquele país gentilmente foi ao hotel onde eu estava hospedado me pegar para me dar uma carona até a sede da empresa. Era cedo e estava bastante frio. Ao chegar ao pátio de estacionamento, ele parou o seu carro a uma distância de pelo menos uns cem metros da porta de entrada, e, como no local tinha poucos carros e havia vagas próximo da entrada, curiosamente perguntei-lhe: “por que havendo tantas vagas disponíveis próximo da entrada, você não parou mais perto?”. Ele, sem titubear, respondeu: “estamos chegando muito cedo e temos ainda bastante tempo, mas muitos colegas chegarão em cima da hora e provavelmente vão precisar dessas vagas para não se atrasarem na marcação do ponto!”.

Esse exemplo de cooperação foi tão marcante para mim que acho que não vou esquecê-lo nunca mais. Numa outra ocasião, também a trabalho, dessa vez na Suíça, eu e um colega resolvemos tomar um sorvete após o almoço e no caminho de volta ao escritório não encontramos nenhum cesto de lixo disponível. Ele, sem o menor acanhamento e querendo ter as mãos livres, embrulhou o papel do sorvete num guardanapo e o depositou no bolso do paletó; colocou a garrafa d’água vazia dentro da sua pasta de couro e ficou tudo resolvido até encontrar um cesto de lixo para se livrar daqueles objetos inconvenientes.

Recentemente, fiquei assustado quando vi um vídeo na internet em que um político americano, após confessar um crime de apropriação fraudulenta do dinheiro público, reuniu a imprensa para pedir desculpas e, surpreendentemente, tirou uma arma de um envelope, colocou no céu da boca e fez o disparo. Foi uma cena chocante, mas de uma representatividade singular.

Diante de tantos exemplos de civilidade e até mesmo de constrangimento e fraqueza, como no caso do político, e com lembranças de atitudes tão marcantes, não dá para não lembrar quando num dia desses, a caminho do cliente aqui em casa, no Rio, fui atropelado por uma latinha de refrigerante jogada da janela do ônibus em plena Avenida Rio Branco. Cinquenta metros mais adiante, aguardando a luz verde do sinal, uma senhora atravessando a rua com duas crianças despejava restos, em pleno asfalto, de um sanduíche mal embrulhado e nem se tocava.

Logo um filme veio a minha cabeça e, como brasileiro, me perguntei: você reclama de quê? Se nós trocamos voto por dentadura ou por um saco de areia? Se para chegar mais rápido, mesmo não precisando, saímos cortando pelo acostamento à direita? Se furamos fila de banco, de cinema e de tudo o que podemos furar? Se compramos atestado médico para faltar ao trabalho? Se mudamos a cor da pele para ingressar na faculdade pelo sistema de cotas? Se pedimos a nota fiscal do dobro do que pagamos para apresentar à empresa quando em viagem a serviço? Se dentro do ônibus sentamos na cadeira do idoso ou do deficiente e fingimos não vê-lo? Se tiramos cópia dos livros das crianças na fotocopiadora da empresa e achamos normal? Se usamos o vale-transporte, que é para ir ao trabalho e voltar dele, para ver o nosso time no Maracanã? Se usamos carteira de estudante falsificada para pagar meia entrada no cinema? Se tomamos iogurte no supermercado e disfarçamos a embalagem para não pagar? Se escondemos dinheiro de propina na meia ou na cueca para não sermos pegos no flagra? Se superfaturamos as obras do nosso governo para levar o nosso? Se batemos o ponto no trabalho e na “cara de pau” vamos imediatamente para o aeroporto pegar o avião e depois ainda recebemos pelo dia não trabalhado, e quando somos apanhados pela imprensa ainda tentamos justificar dizendo que estamos indo trabalhar na base? Se repassamos milhões de reais para o MST – Movimento dos sem terra – para eles invadirem propriedades particulares e produtivas e ainda criamos um projeto para não considerá-los criminosos? Se somos todos farinha do mesmo saco, e zoamos com a ética quando falamos bem alto que se lá estivéssemos iríamos nos “dar bem”?

Você tem dúvidas? Você urina na rua, dá a volta na sua empresa, sonega, suja as praças, dirige bêbado, vota em político corrupto e está reclamando do quê? Cada um tem o país que merece, com seus malandros, seus reis e seus bobos da corte.

‘O brasileiro reclama de quê?’ – O Globo

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