O verbete da Wikipédia é um pretexto para inserir um poema de Durce Gonçalves Sanches, Memorial de José Mariano, que tomei a liberdade de redigitar e cito a fonte.

Auguste de Saint-Hilaire passou pela cidade de Itu/SP e, na minha opinião, o poema seria a oportunidade para que os alunos se interessassem por ele, por meio do eu-lírico José Mariano.

Auguste de Saint-Hilaire – Wikipédia, a enciclopédia livre

Em 20/02/2010, a partir das 16h, no Auditório da Sede do Sincomércio – Itu/SP, a Academia Ituana de Letras promoveu a Sessão Solene comemorativa do Quarto Centenário da Cidade de Itu.

Lançou, então, o livro Itu, pelos ituanos, uma seleção de crônicas de autoria de ituanos natos ou por opção, em concurso promovido pela ACADIL.

Embora seja “uma seleção de crônicas”, a participação de ituanos natos ou por opção diversificou de tal modo que encontramos discursos, poemas, crônicas, ensaios…

Itu, pelos ituanos, Acadil – Textos de vários autores – Academia Ituana de Letras, Ottoni Editora, Itu-SP, 1.ª edição/2010, páginas 63 e 63:

De Durce Gonçalves Sanches

Memorial de José Mariano

(redigitado a partir do original)

Arrieiro de profissão, rês humana,

na carga, na prestação do ofício,

servi. E ao servir, calado, silente,

eu vi: as tralhas de tanto em tanto

ao meu espanto de cargueiro aguçou.

Homem de elegante passo, na medida.

De olhar a flora, as águas, a fauna,

botica ambulante de hervas curadeiras

a encher-se nos virgens campos dessas

fartas amostras nas bagagens guardadas,

eu vi: guainases de espia pelas aberturas

das taipas das casas, mulheres feito gentes

no jeito de rir, beber, cuspir, fumar

em longos canos de cachimbos, descuidadas

cabeças arredondadas, campeavam prosa

na venda, atrevidas, além ponte do arraial.

Maciços de árvores e arbustos, tufos d’orquídeas

ladeando pequeno rancho, casa de vigário,

à direita do rio, Nossa Senhora da Ponte,

capela,  se não fosse ela, ramos de flores purpurinas,

encanto ao olhar franco do estrangeiro.

Ajuntado de andorinhas em círculos

pela arcada de pedra, o Tietê em espuma,

espumarada, no ruído forte, ensurdecedor,

qual só eu ouvi, ouvi e sou aqui narrador.

Dos lombos dos burros as cargas pesadas

para os burgos lá em Itu descarreguei.

Cidade estreita essa, alongada, paralelas ruas

marginadas de jardins, em pedras compactas,

lisas às ruas à mercê e ao dom de calçar.

Outras vias de areia abertas aos transeuntes,

sem cuidados de afogar os pés no leito mal feito,

a dirigirem às casas baixas, rés do chão;

vastos quintais, jardins sempre floridos.

Pequenas praças, de uma, feita a principal,

em quadrilátero, ornada, limpa ao culto divino

d’outro lado: a capela mor da Candelária.

N’outro ângulo a câmera; a rés a candeia.

Enfim, casinhas de obscuras espécies

nas transversais, locadas a moedas de cobre.

Café, algodão, chá, trigo, feijão, açúcar,

riqueza das terras férteis à beira do Tietê.

Umas gentes  que nem ch, nem tch ou ts,

mas molemente falantes de uma mescla

que só eu pensei de indígenas e portugueses,

mas qual, não sei. Só sei que as vestes surradas

do então forasteiro aumentavam-se em sujeira

do suor; diminuíam as plantas, as aves,

e coisa e loisa, diziam que então partiria

à província de Castro de Mendonça,

cinco léguas de Itu, Araritaguaba chamada.

E eu, arrieiro de profissão, Mariano José,

seu criado e irmão, enfardei os passarinhos,

juntei tralhas de pastas de plantas e carreguei.

Despediu-se o tal, com nome de Saint Hilaire,

e eu pra outras jornadas, arrieiro, fiquei.

Fiquei nesta magna urbe de então, Ituguassu.

 

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