Acredito que tenha sido em 1981 que fiz minha primeira viagem às Cidades Históricas de Minas Gerais, mas, com certeza, foi por meio de uma agência de viagens de Campinas/SP.

Nossa guia turística se chama Conceição – espero que ainda se chame assim, se me entendem – e o que aprendi, nas cidades históricas visitadas, por causa da guia Conceição, continua, até hoje, em minha memória. O que vi, também, tanto que retornei mais duas vezes ao longo desses anos. Tenho fotos e outras lembranças.

Conceição tinha um modo de falar – nunca pareceu decorado – bem peculiar, para o meu entender na época, ou seja, “comia” todos os “esses” das palavras que deveriam estar no plural, o que, também na época e até recentemente, eu classificava como pertencente ao grupo que fala “nóis vai, nóis vem, nóis vorta”.

Voltei, porém, encantada com a viagem e com a Conceição. Quando a agência de viagens se comunicou comigo, por telefone, para saber do que tinha gostado, como transcorrera a viagem e outros assuntos pertinentes, comentei com a pessoa com quem falava do meu encanto em relação à guia Conceição, que ela “falava errado”, mas eu fiquei encantada com o conhecimento dela, com a simpatia etc e tal.

Ainda não era Professor (não existe feminino no cargo; muita gente faz, ainda, gozação, tanto que, na fala, eu usava Professora) Titular de Cargo Efetivo, o que só ocorreu em meados de 1984. Nesse mesmo ano, tive a felicidade de participar de encontros que discutiam os novos Parâmetros Curriculares (que ficou conhecido como “Verdão”), em São Paulo/SP, portanto, iniciei, junto com o Magistério Público, a aprendizagem de ser educadora, embora, naquele ano, meu cargo de Titular Efetivo fosse de Língua Estrangeira Moderna – Inglês. Juntamente com minha vivência e aprendizado na Cultura Inglesa de Campinas/SP, procurei praticar o que continuava a aprender na minha atuação no Magistério.

Em 1991, eu já havia me removido, por meio de concurso, para a cidade de Itu/SP, me exonerado do cargo de LEM – Inglês e, como havia prestado outros concursos públicos no Magistério, optei pelo cargo único de Português ou Língua Portuguesa, conforme a nomenclatura na Grade Curricular da época.

Quando aplicava avaliação de Interpretação de Texto, procurava, em outros livros didáticos de apoio que não aquele utilizado em sala de aula, os textos, as perguntas sobre a Interpretação de Texto e elaborava, para mim, um roteiro das respostas discursivas esperadas (sei ler, portanto, não tinham que ser exatamente da forma esperada), para a correção.

Conhecem As águias não sobem pela escada? Procurem, neste blog, em “Pesquisar” e o leiam: era eu mesma! Tudo criteriosamente elaborado, meticulosamente… bem, apesar de todo o aprendizado em cursos de aperfeiçoamento e da participação do início da elaboração dos Parâmetros Curriculares, que ficou conhecido como “Verdão”, as correções à Interpretação de Texto ficavam “contidas” nas respostas esperadas, destacando, com um círculo em vermelho, as palavras grafadas de modo incorreto.

Num dia de correção de Interpretação de Texto sobre o aniversário de “seu” Nonô, diante da pergunta “Por que todos cantaram parabéns?” um dos alunos de quinta série respondeu: “Porque é muito chato cantar sozinho”.

Felizmente, uma amiga estava junto comigo (não é professora) e ela adorou a resposta, riu muito (no bom sentido) e me impediu de colocar o sinal de errado. Digitei “no bom sentido”, porque nunca foi meu mau hábito “tirar sarro” de aluno ou juntar as respostas que eu considerasse absurdas para publicação de “olha como eu sou boa, mas eu sofro”. Nem foi esse o sentido da risada de minha amiga.

Refleti muito, depois, sobre a resposta daquele aluno de 5.ª série: ô pergunta boba, não? Por que todo mundo cantou parabéns? Porque era aniversário do “seu” Nonô (resposta esperada). Só que o garoto de 5.ª série, o único a responder “Porque é muito chato cantar sozinho” tinha entendido, sim, o texto, a pergunta é que era boba para o nível de conhecimento dele de  interpretação do texto. Ele foi além do que era esperado dele; não usou porque separado na resposta; não escreveu chato com “x” nem sozinho com “s”.

Passei a cuidar melhor das correções e, quando encontrava, em que série fosse, respostas que eram coerentes, no contexto do que os alunos tinham entendido como interpretação, além de verificar se não colocara errado para um aluno e certo para outro, considerava a resposta coerente e escrevia um elogio.

Mas, de fato, é muito chato cantar sozinha e percebi que era diferente dos demais e que, posteriormente, havia aqueles que faziam parte do círculo do Ensino, que esperavam “tudo pronto”, para assinar embaixo, sabe como é, trabalho de “equipenico”; que eu não sabia trabalhar em equipe e outros quetais.

Acredito que tenha sido em 1993 ou 1994 que, num encontro de professores de Língua Portuguesa, no “Regente Feijó”, a orientadora pedagógica nos proporcionou a oportunidade de conhecer João Wanderley Geraldi. Acrescentarei uma informação sem consultar a biografia de João Wanderley Geraldi: filho de pais agricultores, analfabetos, do RS, João Wanderley Geraldi tem diversos títulos acadêmicos, dentre eles “Doutor”. Leram a sentença judicial, postagem anterior? Sim, Geraldi percorreu todas as etapas da educação formal e muito mais.

Desse encontro, lembro-me de uma situação exposta: uma oração foi colocada para análise e nos foi perguntado sobre a análise sintática e sobre a análise morfológica dos termos. Choveram respostas corretas. João Wanderley Geraldi elogiou o conhecimento de Gramática dos participantes. Depois, ele nos colocou o seguinte, se me recordo: um cirurgião, numa sala de cirurgia, diante de um paciente com o abdômen aberto, que interesse há em que saiba qual é o sujeito da oração, se o sujeito é simples, composto? Uma de nós respondeu que, no momento de elaborar um relatório, se o cirurgião não souber escrever… Ah! Se o cirurgião não soubesse escrever, sim, mas não seria cobrado dele, no momento daquela cirurgia, se intestino é sujeito e qual sua classificação. Acrescento: o cirurgião aprendeu, ao longo de sua vida acadêmica, a ouvir, a ler, a escrever, portanto, saberá redigir o relatório.

Não estou comentando, neste ponto, sobre a decadência do Ensino, mas lembrando que um dos mais concorridos Vestibulares é Fuvest (para citar um), inteiramente voltado para a avaliação de habilidade de ler e escrever, visto que redação tem o peso maior, que, como o da Unicamp, tem questões que exigem respostas discursivas, que o “peso” de saber análise sintática, análise morfológica (saber que deve ser totalmente dominado por todos os professores não importa de que componente curricular seja) não reprova o candidato. Tem que saber ler e escrever, dominar o registro linguístico no português coloquial e no culto. Em vestibulares, por exemplo, o candidato tem temas e opta por dissertação, narração etc. É possível imaginar um vestibulando que opte por uma narrativa em que escreva diálogos e esses diálogos sejam escritos no mais puro português?

Então, concursos que são promovidos – que não os Vestibulares que seguem os PCNs – que “cobram” um domínio de Língua Portuguesa que seja obrigação de professores de Língua Portuguesa estão completamente fora de “órbita”.

Não corrigir mais o aluno? Balela! Isso nunca foi veiculado nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Como permitir ao aluno o domínio da língua materna e de língua estrangeira moderna? Há sugestões, mas os professores podem criar suas técnicas.

Agora, a denúncia é que não se corrige mais o português coloquial. Balela! Isso nunca foi nem será veiculado pelos Parâmetros Curriculares Nacionais ou por quaisquer livros didáticos de apoio adotados em escolas públicas municipais e estaduais. Atentar para a palavra “apoio”, após livro didático, porque essa é uma das recomendações dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais).

Ah, bom! Foi preciso ouvir João Wanderley Geraldi falar, naquele encontro, nos sacudir, balançar nossas tradições e comprei o livro:

 O texto na sala de aula

Fonte: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?isbn=8508101155&sid=87399917113523474632942139

Texto Na Sala De Aula, O

 
Organizador: GERALDI, JOAO WANDERLEY
Editora: ATICA
Assunto: PEDAGOGIA

João Wanderley Geraldi, professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), organizou essa coletânea inovadora, que vem fazendo sucesso desde seu lançamento, em 1984. Apresenta os aspectos pedagógicos e sociais do ensino da língua portuguesa com base na experiência dos professores em sala de aula. Especialistas das melhores universidades brasileiras assinam 12 artigos, em que revelam os fundamentos do ensino da língua, da literatura, da leitura e da produção de textos na escola. O texto na sala de aula é um convite à reflexão e uma oportunidade rara de atualização para professores e estudantes das áreas de Letras, Pedagogia e Lingüística.

Esse livro não contém “receitas”, mas sugestões de práticas pedagógicas para o ensino da Língua Portuguesa que fazem, parte, inclusive, dos Parâmetros Currilares Nacionais de 1997.

Tudo bem, eu estava só dez anos atrasada, mas tirei excelente proveito das lições.

Então, pedi aposentadoria, em 2003, e, dependendo do problemão levantado a respeito da péssima qualidade de Ensino Público, pergunto a mim mesma “Sinhá, cadê ‘seu’ Padre?” e não ouço, não falo e não vejo, a não ser em raras exceções.

Não é ninguém, não, é só a professora aposentada.

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