De fevereiro de 2010, “Atitude”, em Planeta Sustentável mostra a ação direta das mulheres, após a tragédia, em São Luiz do Paraitinga/SP, na passagem do ano 2009/2010.

 “As mulheres quando se juntam mudam qualquer realidade. Até a mais dura das catástrofes.”

As guardiãs de São Luiz do Paraitinga

A prefeitura, a Câmara dos Vereadores, a Justiça e a delegacia da pequena cidade paulista que foi devastada pelas águas em janeiro [2010] são comandadas por mulheres. Desde a tragédia que arruinou o centro histórico tombado e deixou metade da população desalojada, elas trabalham sem trégua, ajudadas por centenas de heroínas anônimas.

Patrícia Zaidan

“As mulheres quando se juntam mudam qualquer realidade. Até a mais dura das catástrofes”.  Renata Martins de Carvalho Alves, 48 anos, ocupante do único posto de juiz de São Luiz do Paraitinga, tem os olhos cheios de lágrimas enquanto conversa. “Estou chorando desde o dia em que vi esse cenário triste”, diz, desculpando-se. De luvas e botas de borracha azuis, ela está à frente da limpeza pesada no que restou do fórum local, à beira do rio Paraitinga. Ali as águas subiram 14 metros afogando computadores, móveis e os documentos da comarca, além dos registros do cartório eleitoral – muitos saíram boiando. A cidade hoje não tem processos criminais, de divórcio, de partilha de bens… “Está vendo este processo aqui?  Trata da desapropriação do Parque Estadual da Serra do Mar. Envolve milhões”, diz a juíza apontando para a pilha de papéis apodrecidos no chão. O presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Viana Santos, providenciou um espaço no fórum de Taubaté, cidade vizinha, para Renata despachar de lá. “Não quero ir”, disse ao superior. “Vou cuidar do meu fórum recuperando cada pasta. Prefiro que o senhor mande para cá o trailer do juizado itinerante até que o prédio possa ser usado de novo”.  A determinação de Renata é a mesma da prefeita, da presidente da Câmara Municipal e da delegada, que comandam as iniciativas para reerguer São Luiz do Paraitinga, a cidade das mulheres.
A pérola encravada no Vale do Paraíba, a 187 quilômetros da capital, dona do Carnaval de rua mais animado do estado e famosa pelo casario colorido que somava 437 imóveis do século 19, tombados, se transformou num grande entulho depois que o rio transbordou e produziu ondas que chicotearam casas, lojas e escolas no dia 1.º de janeiro. “A luz apagou, os telefones ficaram mudos, os carros rodaram, não havia água potável, metade da população se viu desabrigada, a matriz do padroeiro, São Luiz de Tolosa, desabou e deixou a sensação de total desamparo, de fim de mundo”, diz a prefeita Ana Lúcia Bilard Sicherle, 38 anos, para resumir o quadro, uma semana após a tragédia.

Pânico nas águas
Nas primeiras horas, num bote remado por jovens que praticam rafting, Ana Lúcia navegava até as janelas dos andares superiores dos casarões do centro histórico e convencia os moradores a abandoná-los antes que se desmanchassem – muitos têm estrutura de barro, em taipas de pilão. Um dos botes era capitaneado pela comerciante Paula Ferreira Rolo, 33 anos, ex-instrutora de rafting, que remou seis horas. Enquanto seus companheiros traziam velhos e crianças, ela segurava nos fios de alta-tensão, já sem energia elétrica, para o bote não descer com a água.
“Foi um trabalho de força física”, conta. “Bem tarde, me lembrei da minha filha, de 4 anos, e fui até o casarão da nossa família, onde ela estava. Eu a abracei, coloquei no bote e segui remando. No escuro, ouvi pessoas gritando, mas não entendi o que queriam me avisar. Logo percebi os estrondos e a poeira no alto: era a escola desabando bem em cima de nós. Aceleramos e ninguém ficou ferido”, afirma. Hoje Paula é tida na cidade como heroína. Assim como o time do rafting, que salvou mais de 700 pessoas.
Com o dia claro, a prefeita não sabia o que fazer primeiro: “Chorar, ligar para o governador ou atender o sobrecarregado telefone dos bombeiros”, recorda. Resolveu esquematizar o socorro. Em meio ao caos, a cidade, de 11 mil habitantes, vai se organizando: quase todos os moradores são voluntários, mesmo os que conseguiram voltar para casa uma semana depois. Eles usam máscara porque restos de alimentos, animais mortos, esgoto e lixo mofado deixam no ar um cheiro ácido insuportável. Cada um tem uma função nas cozinhas comunitárias ou na limpeza de ruas, retirada de entulho (foram 800 caminhões nos primeiros dias), distribuição de água mineral e no ginásio onde estão os sem-teto.
Do gabinete improvisado na praça, já que a prefeitura ruiu, Ana Lúcia mandou ofício para uma grande rede de roupas femininas pedindo doação de lingeries. “Nenhum prefeito se lembraria disso”, gaba-se. Ali, atende autoridades como o governador de São Paulo, José Serra, os ministros do presidente Lula e os técnicos do Instituto de Pesquisa Tecnológica e dos órgãos Condephaat e Iphan, que cuidam da preservação de prédios tombados. Será necessário muito dinheiro para reerguer a cidade. Os prejuízos, estima-se, ficam em torno de 100 milhões de reais, 70% dos prédios precisam de reparos e outros, como a matriz e a Igreja das Mercês, do século 18, devem ser reconstruídos.

Câmara aberta
O plenário da Câmara Municipal foi transformado pela presidente, Edilene Alves Pereira, a única vereadora do município, em posto de distribuição de produtos de limpeza, de higiene pessoal, leite em pó e alimentos secos. “É um trabalho braçal”, conta Edilene. Perdi vários quilos carregando caixas de doações”. Tudo organizadíssimo para que uma família não volte a se abastecer duas vezes no mesmo dia. Lá pelo sétimo, ela passou a se envolver com a vacinação visitando pessoas para informar sobre a importância da imunização no ambiente propenso a doenças. Ainda estava alojada no andar superior da Câmara, pois sua casa ficou no barro. “Saímos com a roupa do corpo. Minha filha passou no vestibular de medicina e nem tinha documentos para a matrícula”, diz. Para ela, que é petista, não há neste momento partido político: “Estamos juntas”, diz, referindo-se à prefeita, que é tucana. “Do contrário, a cidade não sai dos escombros.”
Também a pastora Genilsa Prado, 50 anos, não se preocupa com diferenças religiosas. Os 100 garotos que sua igreja, a Comunidade Evangélica Nova Geração, tirou das drogas entregam roupa e comida a gente de todos os credos. “A tragédia deixa as pessoas iguais. Os abonados perderam cheque, cartão de crédito e não puderam voltar para casa: vieram pedir donativos”, revela. Os cultos estão suspensos. “Agora, atacamos as necessidades materiais. Do espiritual, Deus já cuidou, não deixou que as águas afogassem os moradores”.  Duas semanas após a tragédia, um homem que permanecia desaparecido na zona rural foi encontrado morto.

Ordem no caos
No trânsito congestionado do lamaçal, entre caminhonetes do Exército, dos bombeiros, da Defesa Civil, da Cruz Vermelha e de ONGs humanitárias, como a SOS Global, passa a viatura da delegada Vânia Zácaro de Oliveira, 42 anos. Essa Land Rover foi o primeiro veículo potente a prestar ajuda ziguezagueando sobre as águas que invadiam a praça histórica, onde veículos comuns não corriam e os oficiais ainda não haviam chegado. Também foi da viatura que os policiais desceram para advertir um lojista que teria vendido um pacote de arroz por 30 reais e um litro de leite por 10. É crime contra a economia popular”, diz a delegada. Em parceria com a PM, ainda ficou de olho nas tentativas de saques a imóveis fechados – uma delas acabou em detenção de cinco rapazes. “Na verdade, o que fizemos foi trabalho de cidadão, não de policial”, garante. “Numa cidade pequena, a gente se envolve, conhece os moradores e os problemas sociais”. Vânia é delegada em São Luiz há cinco anos. “Aprendi a amar este lugar especial, que respeita as mulheres”. Um exemplo? Ela responde: “Da Lei Maria da Penha para cá, prendi apenas um homem por violência doméstica. Na vizinha Lagoinha, com a metade da população e onde também sou a delegada, já foram presos seis maridos”.
No sábado, 9 de janeiro, a juíza Renata Alves estava de volta ao seu fórum. Recebeu Raquel Orlando, representante do Patrimônio do Tribunal, que fotografou tudo e avisou-a de que defenderá o envio de móveis e computadores novos, porque é impossível recuperar os atuais. Renata comemorou. Também apareceu ali a especialista em conservação de bens culturais Fernanda Tozzo e se ofereceu como voluntária para ajudar na recuperação das pastas e dos processos danificados. A juíza pediu a Fernanda apoio ainda para a restauração das certidões e outros papéis dos cartórios de notas e protestos, de imóveis e de registro civil, dos quais é corregedora. Comentou que, nos três, os oficiais também são mulheres, “todas empenhadíssimas em devolver os documentos à população”. Renata lembrou que ao ser designada para São Luiz do Paraitinga, sete anos atrás, começou uma operação modernizadora. Capacitou servidores, incrementou o ritmo das tramitações e fez até uma horta, um pomar e um jardim. “Já tenho tempo e experiência para fóruns maiores, mas permaneci aqui por opção. Não será agora que vou deixar a Justiça parar”.

As guardiãs de São Luiz do Paraitinga – Planeta Sustentável

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