Estimulada pela foto do Hospital de Panelas, lembrei-me da Unidade 1, A Narrativa, Língua Portuguesa no Ensino Médio – Produção de Textos, Coleção Horizontes, Língua Portuguesa no Ensino Médio, Hermínio Sargentim, Atende aos Parâmetros Curriculares do Ensino Médio [Parâmetros Curriculares Nacionais, Ensino Médio, Brasília, 1998), IBEP – Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas, São Paulo – SP.

O texto foi escrito por Carmo R. E. da Silva, quando tinha 14 anos e foi publicado, primeiramente, in Folhinha, Folha de São Paulo.

A leitura integral do texto mostra por que a foto do Hospital da Panelas me lembrou esse texto que, abordado em sala de aula, provoca imensa curiosidade nos alunos.

Infelizmente, minha busca pela data da publicação original não trouxe respostas, mesmo com o acervo digital da Folha de São Paulo disponível para degustação, aparentemente, porque eu não soube pesquisar.

Então, para efeito de fontes:

In Folhinha, Folha de São Paulo (sem a data);

Apud Língua Portuguesa no Ensino Médio, Hermínio Sargentim, IBEP, 1999 ou 2000 (não anotado no livro didático), São Paulo.

Acordo atordoada, tonta, não me lembro de nada, me viro para lá, me viro para cá e não consigo sair daqui. A porta está fechada. Por mais que eu tente, não consigo abrir. Aqui dentro está uma bagunça de roupas esparramadas, um mau cheiro. Está mal ventilado, sinto até falta de ar. Aqueles homens me prenderam sem motivo algum.

Tento mais uma vez, não consigo abrir a porta, me trancaram, está escuro, não enxergo nem onde piso, esbarrando em tudo. Aqui, apesar de fazer muito frio, estou até corada de calor e aflição.

Este escuro me dá medo. Apesar de tudo, preferia estar lá fora. Só consigo ver luz em uma brecha da porta. Pouca coisa posso ver do outro lado, não sei o que estão fazendo com as minhas amigas. Não sei se estão fazendo ou já fizeram. Ai! não quero nem pensar.

Esses homens que me prenderam aqui dentro não têm coração, não nos respeitam, a nós que somos tão inofensivas e indefesas.

Fico em silêncio e ouço vozes masculinas confusas do lado de fora. Acho que estão discutindo o que farão comigo. Essas cordas estão me machucando. Não gosto nem de pensar o que me vai acontecer. Acho que me prenderam por eu ser a mais gordinha.

Meu medo aumentou, ouço passos em minha direção, não posso me esconder, não consigo nem me movimentar. Estão forçando a porta e têm a chave. Não sei o que fazer. Acho que chegou a minha vez, vieram me buscar, não posso mais escapar.

Abriram a porta. É um moreno magro e comprido, de cabelo grande, feio que Deus me livre. Vem com as mãos em minha direção e me agarra com força em seus braços, me desamarra, joga as cordas e me leva para fora num gesto brutal, me põe no chão para fechar novamente o local. Tento correr mas não consigo. Ele sorri, me leva para outro lugar. Vejo uma de minhas amigas, penso em pedir socorro, mas ela não pode me ajudar, pois ela está sendo vigiada por um careca ainda mais feio que o outro (o que o outro tem de cabelo, neste está em falta). Coitada! será que o destino dela será o mesmo que o meu?

Até que ele para comigo, mas não me coloca no chão (acho que de medo de eu fugir outra vez) e então é a hora, ele me bate, bate, bate no chão. Entra comigo no garrafão, pula comigo e faz a primeira cesta do jogo!

 

 

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