Quando, em 2008, postei este conto do folclore equatoriano, expliquei, apenas, que tinha sido uma contribuição de Inês Zennaro, professora de Itu, mas não sabia a fonte do texto. Em busca, encontrei a fonte dele: Contos de assombração, 4.ª edição. Co-edição Latino Americana. São Paulo. Ática, 1988.

Após reler este conto, do Blog da Cássia, leia, também, quem é o autor da versão escrita (em espanhol) e como o resgatou.

Grata, Cássia, pela oportunidade de esclarecer a fonte e estimular a compra desse livro, pois há uma fase do desenvolvimento pedagógico em que os educandos se sentem profundamente atraídos por contos de terror. Se a eles for oferecido o que faz parte da cultura nacional ou da estrangeira, do folclore, muito melhor do que os contos de horror modernos “fabricados” para esse fim. A vida real já nos oferece, no dia a dia, fatos de horror que não podem ser justificados como lenda, folclore…

MARIA ANGULA

sábado, 2 de outubro de 2010, 22:28:19 | noreply@blogger.com (By Cássia)

Maria Angula era uma menina alegre e viva, filha de um fazendeiro de Cayambe. Era louca por uma fofoca e vivia fazendo intriga com os amigos para jogá-los uns contra os outros. Por isso, tinha fama de leva-e-traz, linguaruda e era chamada de moleca fofoqueira.


Assim viveu Maria Angula até os dezesseis anos, dedicada a armar confusão entre os vizinhos, sem ter tempo para aprender a cuidar da casa e a preparar pratos saborosos.
Quando Maria Angula se casou, começaram os seus problemas. No primeiro dia, o marido pediu-lhe que fizesse uma sopa de pão com miúdos, mas ela não tinha a menor idéia de como prepará-la.
Queimando as mãos com uma mecha embebida em gordura, acendeu o carvão e levou ao fogo um caldeirão com água, sal e colorau, mas não conseguiu sair disso: não fazia idéia de como continuar.
Maria lembrou-se, então, de que na casa vizinha morava Dona Mercedes, cozinheira de mão cheia e, sem pensar duas vezes, correu para lá:
– Minha cara vizinha, por acaso a senhora sabe fazer sopa de pão de miúdos?
– Claro, Dona Maria. É assim: primeiro, coloca-se o pão de molho em uma xícara de leite, depois despeja-se este pão no caldo e, antes que ferva, acrescentam-se os miúdos.
– Só isso?
– Só, vizinha.
– Ah – disse Maria Angula – mas isso eu já sabia! – e voou para a sua cozinha a fim de não esquecer a receita.
No dia seguinte, como o marido lhe pediu que fizesse um ensopado de batatas com toicinho, a história se repetiu.
– Dona Mercedes, a senhora sabe como se faz o ensopado de batatas com toicinho?
E, como da outra vez, tão logo a sua boa amiga lhe deu todas as explicações, Maria Angula exclamou:
– Ah É só? Mas isso eu já sabia! – e correu imediatamente para casa, a fim de prepará-lo.
Como isso acontecia todas as manhãs, Dona Mercedes acabou se enfezando. Maria Angula vinha sempre com a mesma história: “Ah, é assim que se faz arroz com carneiro? Mas isso eu já sabia!! Ah, é assim que se prepara a dobradinha? Mas isso eu já sabia!!”. Por isso, a mulher decidiu dar-lhe uma lição e, no dia seguinte:
– Dona Mercedinha!
– O que deseja, Dona Maria?
– Nada, querida, só que o meu marido quer comer no jantar um caldo de tripas e bucho e eu…
– Ah, mas isso é fácil demais! – disse Dona Mercedes. E antes que Maria Angula a interrompesse, continuou:
– Veja, vá ao cemitério levando um facão bem afiado. Depois, espere chegar o último defunto do dia e, sem que ninguém a veja, retire as tripas e o estômago dele. Ao chegar, lave-os muito bem e cozinhe-os com água, sal e cebolas. Depois de ferver por uns dez minutos, acrescente alguns grãos de amendoim e está pronto. É o prato mais saboroso que existe.
– Ah! – disse, como sempre, Maria Angula – É só? Mas isso eu já sabia!
E, num piscar de olhos, estava ela no cemitério, esperando pela chegada do defunto mais fresquinho. Quando já não havia mais ninguém por perto, dirigiu-se, em silêncio, à tumba escolhida. Tirou a terra que cobria o caixão, levantou a tampa e… Ali estava o pavoroso semblante do defunto! Teve ímpetos de fugir, mas o próprio medo a deteve ali. Tremendo dos pés à cabeça, pegou o facão e cravou-o uma, duas, três vezes na barriga do finado e, com desespero, arrancou-lhe as tripas e o estômago. Então, voltou correndo para casa. Logo que conseguiu recuperar a calma, preparou o jantar macabro que, sem saber, o marido comeu, lambendo os beiços.
Nessa mesma noite, enquanto Maria Angula e o marido dormiam, escutaram-se uns gemidos nas redondezas. Ela acordou sobressaltada. O vento zumbia misteriosamente nas janelas, sacudindo-as e, de fora, vinham uns ruídos estranhos, de meter medo a qualquer um.
De súbito, Maria Angula começou a ouvir um rangido nas escadas. Eram os passos de alguém que subia em direção ao seu quarto, com um andar dificultoso e retumbante, e que se deteve diante da porta. Fez-se um minuto de eterno silêncio e, logo depois, Maria Angula viu o resplendor fosforescente de um fantasma. Um grito surdo e prolongado paralisou-a:
– Maria Angula, devolva as minhas tripas e o meu estômago que você roubou da minha santa sepultura!
Maria Angula sentou-se na cama horrorizada e, com os olhos esbugalhados de tanto medo, viu a porta se abrir, empurrada, lentamente, por essa figura luminosa e descarnada.
A mulher perdeu a fala. Ali, diante dela, estava o defunto, que avançava mostrando-lhe o semblante rígido e o ventre esvaziado.
– Maria Angula, devolva as minhas tripas e o meu estômago que você roubou da minha santa sepultura!
Aterrorizada, escondeu-se debaixo das cobertas para não vê-lo, mas imediatamente sentiu umas mãos frias e ossudas puxarem-na pelas pernas e arrastarem-na, gritando:
– Maria Angula, devolva as minhas tripas e o meu estômago que você roubou da minha santa sepultura!
Quando Manuel acordou, não encontrou mais a esposa. Muito embora tenha procurado por ela em toda parte, jamais soube do seu paradeiro.

“Maria Angula”

Extraído de: Contos de assombração, 4ª.ed. Co-edição Latino-Americana. São Paulo, Ática, 1988.“Maria Angula” é um conto da tradição oral equatoriana. Esta versão foi escrita por Jorge Renón de La Torre, a partir de um relato que lhe fez Maria Gomez, uma mulher de 70 anos, que vive no povoado de Otán. Jorge Renón de La Torre nasceu em Quito, em 1945, e já publicou contos, fábulas e obras de teatro infantil.

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