Uma história que vem do mar

Publicado por Redação em 23/01/2011 as 09:17

Arquivado em Cultura, Destaque, Dois

Dezessete de agosto de 1942, 10h50, litoral sul da Bahia. O navio Itagiba mercante é torpedeado pelo submarino alemão U-507. Em menos de dez minutos a embarcação vai a pique. A última sobrevivente resgatada é uma alagoana de apenas quatro anos de idade, a pequena Walderez Cavalcante, encontrada em alto mar numa frágil caixa de madeira. 36 pessoas morreram.

Doze de janeiro de 2011, Porto de Maceió, aproximadamente 10h da manhã. Walderez Cavalcante, agora com 73 anos, relembra o trágico episódio, enquanto contempla, emocionada, o horizonte do mesmo oceano atlântico que, em mares baianos, marcaria para sempre a sua história, levando-a para as capas das principais revistas da época, e forçando o Brasil a entrar de vez na Segunda Guerra Mundial.

A saga de Dona Walderez consta dos registros da Cinemateca Nacional, nos famosos filmes oficiais de guerra. Mas é neste relato pessoal, contado com exclusividade a O JORNAL pela própria “pequenina náufraga”, como a chamaram os jornais do período, que conhecemos a real dimensão desse drama, e desta personagem singular, verdadeiro documento vivo de um conflito que colocou Alagoas e o nordeste brasileiro em importantes páginas da história mundial.

Lançada ao mar

Seis embarcações torpedeadas no litoral nordestino e quase 500 mortes em apenas três dias. Essa foi a resposta dos nazistas, em 1942, ao apoio velado do Brasil aos Estados Unidos, que contava com a borracha brasileira para alimentar sua indústria bélica. O apelo popular para comover a nação e “justificar” o ingresso do Brasil na Segunda Guerra Mundial veio nas imagens da pequenina náufraga Walderez Cavalcante e de seu pai, Octávio de Barros Cavalcante. Vítimas do naufrágio do navio Itagiba, da Companhia Nacional de Navegação Costeira, pai e filha alagoanos eram o retrato do ultraje à família brasileira, atacada covardemente pelos alemães. Depois de escapar da explosão do navio, a pequena Walderez é levada pelo pai para uma das baleeiras, barcos utilizados como salva-vidas. Mas tragicamente o mastro da embarcação parte a baleeira ao meio. Desgarrada do pai, a garota fica duas horas em alto mar, até ser resgatada na praia da cidade de Valença, na Bahia, em uma caixa de madeira do famoso “leite moça”, da Nestlé.

Sessenta e oito anos após o naufrágio, Dona Walderez foi localizada pela reportagem de O JORNAL. Ainda vivendo em solo alagoano, ela contou detalhes de sua dramática aventura em alto mar, em uma visita ao Porto de Maceió. Um monólogo emocionado e nostálgico, mas também um registro oral da História do Brasil, e dessa notável alagoana.

“Eu sempre acompanhava meu pai nas viagens. Ele me deixava no Rio de Janeiro, na casa de minha madrinha, e quando voltava de Santos me pegava de volta. Desta vez saímos de Vitória do Espírito Santo com destino a Bahia no dia 15 de agosto. Na manhã do dia 17, o navio sofreu um estremecimento, após uma forte explosão, e alguém gritou: “Fomos torpedeados”. Eu era muito menina, mas lembro que eu estava com uma vassoura pequena, brincando de limpar o convés. E só vi quando meu pai desceu a escada correndo, me pegou pela cintura e subiu. Aí eu já vi muita fumaça e um apito. Fomos para a baleeira, mas o mastro do navio caiu em cima da baleeira, e ela se partiu ao meio. Foi aí que eu me separei do meu pai que ficou enganchado nos fios do telégrafo, com a bacia quebrada. Muito ferido. Mas alguém, uma alma bondosa, pressentindo o perigo, me colocou numa caixa de leite condensado da Nestlé, de madeira, que estava com os suprimentos da baleeira, segurou minhas mãos nas bordas da caixa e disse: ‘Segure’. É tudo o que eu lembro”, recorda dona Walderez.

“Pior ainda foi para os sobreviventes do Itagiba que foram resgatados pelo Arará, um navio que estava próximo. Pois o Arará foi torpedeado logo em seguida. Ou seja, os que escaparam foram náufragos duas vezes”, recorda.

“ME DEVOLVAM AO MAR”

Depois de uma pausa, pensativa, ela prossegue com seu relato. “Então avistaram alguma coisa muito distante, que eles presumiram ser alguém. Foram atrás e me resgataram. Eu fui a última sobrevivente a ser resgatada.  Mas eu era muito pequena, e aí você não avalia o risco que está correndo. É a sua sorte. Me levaram para um navio. Lembro que tinha cobertores pretos e botaram em mim, mas eu disse que não estava com frio” conta dona Walderez, com um olhar ainda perdido no horizonte às margens do Porto de Maceió.

Ela conta que ao ser hospitalizada, o seu pai ainda não sabia que destino teria levado sua pequena garota. “Meu pai conseguiu se livrar dos fios do telégrafo e foi resgatado. Foi levado ao Hospital Português da Bahia, e então ele disse que, se eu não vivesse, ele não queria viver, que o jogassem na água outra vez. Que o devolvessem ao mar. Mas eu estava sã e salva. Depois de socorrida fui levada para a casa da filha do prefeito da Cidade de Valença, Nilza Coutinho de Oliveira Queiroz, que eu nunca mais voltei a ver.

Leia matéria completa, de quatro páginas, e confira as fotos na edição deste domingo (23-01-2011) de O Jornal.

Gilson Monteiro – Repórter

Fonte: http://www.ojornalweb.com/2011/01/23/uma-historia-que-vem-do-mar/ = Observação: em 27-02-2014, não consegui mais acessar o “link” citado.

Na edição completa dessa entrevista, encontramos os endereços:

www.sobreviventeitagiba.blogspot.com (blog sobre a Sra. Walderez, iniciado pela neta)

O pai e Walderez se recuperam, após o naufrágio, no Hospital Português, Bahia, Brasil

O pai e Walderez se recuperam, após o naufrágio, no Hospital Português, Bahia, Brasil. Origem da foto = blogspot Sobrevivente Itagiba, link acima.

Walderez e o pai recebem pequena homenagem da Nestlé = origem da foto = www.sobreviventeitajiba.blogspot.com.br

Walderez e o pai recebem pequena homenagem da Nestlé = origem da foto = http://www.sobreviventeitagiba.blogspot.com

www.nestle.com.br aba “História”, link para “Linha do Tempo”: como a Nestle prestigiou o fato de que a Sra. Walderez foi resgatada, do mar, aos 4 anos, numa caixa de leite condensado.

Para saber mais sobre o navio, os torpedeamentos no litoral brasileiro e sobre a sobrevivência de Walderez Cavalcante =

Itagiba (navio), origem Wikipédia, a enciclopédia livre