Recebi de minha prima Maria Adelaide, o que me levou à inserção anterior (cuja explicação ficou sem sentido, mas não vou corrigir) e, claro, a esta inserção. Clique no link, lá embaixo, para reler o texto e ver as fotos maravilhosas que acompanham este texto.

Meu primeiro pensamento, enquanto lia o texto, acompanhado das fotos, foi a preocupação com a organização e preservação do acervo de Evandro Teixeira. Acredito que não sejam poucos os que entendem a falta de tempo para um fotógrafo dessa qualidade, desse talento, desse senso de cidadania para esse fim.

 

E Evandro apagou a luz

Com o fim da versão impressa do ‘Jornal do Brasil’, o fotógrafo do flagrante pede demissão

04 de setembro de 2010 | 13h 17

Márcia Vieira, de O Estado de S. Paulo

Não houve choro nem estardalhaço. Mas a pressão embalada em frases do tipo "Pensa bem, aqui você tem liberdade, melhor ficar" só serviram para alimentar a angústia. O sofrimento em decidir o futuro se manifestou de maneira devastadora no fotógrafo Evandro Teixeira, 73 anos. Uma dor de barriga o deixou nocauteado por uma semana. Só passou quando tomou a decisão mais difícil da carreira: pedir demissão do Jornal do Brasil depois de um "casamento feliz" de 47 anos. Desde que o empresário Nelson Tanure anunciou o fim da edição impressa do JB, sufocado em dívidas, uma pergunta martelava a cabeça de Evandro. "O que é que eu faço agora?" Nada contra a era digital – o JB tem agora apenas a versão online. Difícil era continuar vendo o jornal, que já foi um dos maiores do País, se esfarelando.

Mesmo para ele, testemunha da lenta agonia do Jornal do Brasil, os últimos dias na sede no Rio Comprido, na zona Norte, foram difíceis. Pairava na redação a ameaça de uma extensa lista de demissões que deixaria a equipe do jornal virtual reduzida a um quinto dos jornalistas da edição impressa. Na fotografia o corte foi radical. Dos 15 fotógrafos que lá trabalhavam, sobraram três. "Foi demitido até o Paulo Nicolella, um excelente fotógrafo que estava lá há 20 e tantos anos", lamenta Evandro. Dos quatro encarregados de transmitir fotos, restou um. "Foi uma semana dramática. É difícil acabar com um casamento tão longo, mas estava na hora. Tomei coragem e fiz a carta da demissão".

Na sexta, dia 27, Evandro deixou a redação carregando a última caixa com livros e fotos. A maior parte do seu arquivo ele havia transferido para o apartamento na Gávea, onde mora com a mulher, a paisagista Marli. Sua saída surpreendeu quem ficou. Em quase cinco décadas a história de Evandro e a do Jornal do Brasil se misturaram. Um não vivia sem o outro. "Evandro desistiu do JB", avisava um funcionário do jornal a quem procurava o fotógrafo na redação terça passada.

Na verdade, Evandro insistiu por anos. Desde a primeira grande crise do jornal, nos anos 90, quando salários atrasavam e já não havia dinheiro para grandes investimentos em reportagens, Evandro resistiu às investidas. "Recebi convites até para trabalhar fora do Brasil." Mas por que um fotógrafo que a empresa alemã Leica, fabricante de poderosas máquinas fotográficas, considerou um dos 45 mais importantes do mundo, ao lado de Cartier-Bresson, continuou num jornal em visível decadência? Por que um fotógrafo que é verbete na Enciclopédia Internacional de Fotografia, que tem fotos no acervo de museus como o Beauborg, em Paris, que expõe em Milão e Nova York, preferia publicar suas fotos num veículo sem prestígio?

"Porque eu adorava e adoro o JB. Porque sempre tive liberdade para viajar quando quisesse para fazer meus ensaios. E porque o clima de trabalho que eu tinha lá não havia em nenhum outro lugar. No JB a gente vivia uma esculhambação criativa", brinca.

No trem, com JK. A anarquia combina com Evandro. No pequeno apartamento da Gávea, ele se perde e se acha no meio de dezenas de livros, caixas com fotos e papéis espalhados por prateleiras. "Deixa eu te mostrar uma coisa que eu tinha perdido e encontrei esta semana", diz eufórico, tentando recuperar uma recordação da viagem que fez de trem, em 1959, com o presidente JK, partindo do Rio para o Planalto Central. Não encontrou. "Preciso contratar alguém para arrumar isso, caramba!"

A sala é repleta de lembranças das viagens que fez pelo país afora, a maioria para o Norte e o Nordeste. Nas paredes, fotos como a da histórica Passeata dos Cem Mil, no Centro do Rio, um grito contra a ditadura em 1968, se misturam às do belíssimo ensaio sobre 100 anos de Canudos.

As memórias de Evandro saem aos borbotões. Ele é capaz de pular das suas aventuras na cobertura do massacre do pastor fanático Jim Jones, quando 952 pessoas se suicidaram na Guiana em 1978, para a descrição das terríveis dores que anda sentindo no joelho. Durante a conversa, regada a biscoitos trazidos do interior da Bahia e sucos preparados por Marli, com quem está casado há 46 anos, volta e meia interrompe uma história para perguntar. "Onde é que eu estava mesmo?"

Estava no Chile, no enterro de Pablo Neruda. Em setembro de 1973, logo depois de o golpe militar derrubar Salvador Allende, Evandro desembarcou em Santiago, enviado pelo Jornal do Brasil. No auge da ditadura, os jornais brasileiros foram proibidos pela censura de dar manchete à queda de Allende. O JB obedeceu. Sua primeira página não tinha títulos em letras garrafais. Mas um enorme texto contando todos os detalhes do golpe ocupava a primeira página.

Em Santiago, os jornalistas eram submetidos ao toque de recolher. Das 6 da tarde às 6 da manhã não podiam deixar o Hotel Carrera. Tempo demais sem fazer nada para um fotógrafo intrépido. Evandro tinha fixação por encontrar Pablo Neruda, que, depois da morte de Allende, simbolizava o governo socialista massacrado por Pinochet. Evandro tinha documentado meses antes o passeio de Neruda à Bahia para visitar Jorge Amado.

No Hotel Carrera, ele virou amigo de infância de uma paulista, casada com um militar chileno. Por ela soube que Neruda, muito doente, tinha sido levado da sua casa na Isla Negra para o hospital Santa Maria. Procurou o diretor do lugar usando o nome da brasileira. "Ele não me deixou ver Neruda, mas me passava os boletins médicos. Às 10h da noite no dia 30 de setembro soube que Neruda estava morto. No dia seguinte, às 6h da manhã, eu me piquei para lá. Entrei por uma portinha lateral e vi o corpo do Neruda com Matilda, a mulher, ao lado". Evandro se apresentou como o fotógrafo que esteve na casa de Jorge Amado. "Meu filho, Jorge era nosso irmão. Seja bem-vindo", retribuiu a viúva. Evandro fotografou o corpo do poeta sendo arrumado para o velório e acompanhou o caixão até Isla Negra. De lá saiu com o cortejo até o cemitério. Era o único fotógrafo.

"O caixão saiu coberto pela bandeira do Chile. No caminho foi chegando gente. Todo mundo cantava a Internacional e o Exército cercava o cortejo para atacar. Mas os militares recuaram. Quando o caixão chegou ao cemitério, aquelas pessoas começaram a declamar os poemas de Neruda. Eu chorava e fotografava. Foi um dos momentos mais importantes da minha vida".

No Chile, fez fotos de presos políticos no porão do Estádio Nacional. "Eu usava uma Leica. Ela ficava dentro da camisa com uma lente angular pequena, que não chama atenção." Apesar dessas fotos históricas, Evandro gosta é de fotografar gente comum. Sua imagem predileta é o registro de um casamento em Paraty, em 1979. "Gosto do povo brasileiro. Principalmente do Nordeste. No Sul eu não fico muito à vontade".

Época de ouro. Evandro é baiano de Irajuba. Filho de fazendeiros, nunca subiu em um cavalo. Já na adolescência, seu negócio era fotografar. Estudou com Nestor Rocha, tio do cineasta Glauber Rocha, em Jequié (BA). Em Salvador, continuou estudando com José Medeiros, que por 15 anos foi fotógrafo da revista O Cruzeiro. Aos 18 anos foi para o Rio. Seis anos depois entrava para o Jornal do Brasil, onde trabalhava a elite da fotografia. "Era a época de ouro. Fretei avião para fazer matérias. Cobri mais de dez Copas do Mundo. Foi o ambiente do JB que me transformou no fotógrafo que sou".

Lamenta a sucessão de desacertos que levou o JB a um crise financeira que provocou o fim da edição impressa aos 119 anos. Na verdade, acha que o jornal deixou de ser o velho JB quando, em 2001, a marca foi arrendada para o empresário Tanure. A redação se mudou do prédio da Avenida Brasil 500 para o Rio Comprido. "Não era mais aquela coisa grandiosa. Mas a gente ainda tinha esperança de que o jornal voltasse a ser o que era".

Mas Evandro não é de se lamuriar. No final do mês lança um livro encomendado pela ONG Visão Mundial com fotos do Norte e Nordeste. Já tem farto material para outro, sobre moradias brasileiras. Tem corrido o País com palestras em universidades. Em outubro parte com o primeiro grupo para um workshop de fotografia em Canudos. "Minha vida é fotografar. Sem ser cabotino, acho que fiz um belo trabalho para a fotografia no Brasil". Para provar, encontra, depois de algum esforço, uma revista italiana. São 92 páginas com perfis de grandes brasileiros: Oscar Niemeyer, Ivo Pitanguy, Ayrton Senna, Pelé, Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Evandro Teixeira, "o maestro do fotojornalismo que mostra o esplendor e a mistura em preto e branco de um povo colorido".

E Evandro apagou a luz – suplementos – Estadao.com.br

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