Cresci testemunhando meus pais lendo jornais, livros e revistas. Não fui a única pessoa a ser incentivada à leitura por causa disso, mas foi bem saudável.

Observei, também, pessoas que frequentaram a escola por um tempo curto, mas desenvolveram uma capacidade impressionante para lidar com assuntos e soluções que exigiriam habilitação que apenas o ensino superior forneceria, porém, o antigo curso primário, completo ou incompleto, mostrou que essas pessoas se dedicaram à aprendizagem durante toda a vida.

Testemunhei, ao longo de minha formação profissional, doutores, de verdade, cujos pais eram analfabetos, mas se dedicaram ao ensino e transmitiam vivência e sugestões pedagógicas a aprendizes como eu. Tive professores que não defenderam teses de mestrado e de doutorado, mas cujo conhecimento e exercício profissional me causam admiração até hoje.

Desde os sete anos de idade, mais ou menos, portanto há 50 anos, tenho o privilégio de morar na mesma casa, no centro da cidade de Itu, e, pelo vão de construções do fundo de minha casa, ouço o badalar do relógio da Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária.

Silenciado, há cerca de três ou quatro meses, por problemas na máquina e pela falta de relojoeiros – uma das profissões que está se extinguindo – que pudessem contornar o desgaste dela, li, no jornal “A Federação”, que á máquina precisava ser substituída por uma mais moderna.

Como fez falta enfrentar o silêncio do relógio! Na sexta-feira, dia 23/07, por ter que ficar na lavanderia de casa durante muitas horas, antes do almoço e depois do almoço, comentei com minha irmã que havia perdido a hora para almoçar por causa da perda da noção das horas.

No sábado, dia 24/07/2010, ouvi o badalar das 23 horas! Não sei em que momento do sábado o relógio voltou a soar as horas, os quinze minutos, as meias horas, mas senti uma alegria infantil, não apenas por, agora, ter noção do tempo sem olhar para os relógios da casa, mas, principalmente, porque houve o resgate de um patrimônio da cidade de Itu e os responsáveis por isso merecem não apenas agradecimentos, merecem as orações pela saúde, pela paz.

Cito o nome do responsável, Monsenhor Durval Carneiro, que já deve ter agradecido, durante as missas, aos que colaboraram para que o relógio fosse consertado. No período da manhã, no sábado, dia 24, precisei sair de casa para resolver alguns assuntos e comprar os jornais locais. O relógio estava parado. Ao sair de casa, três carros de som de propaganda esgoelavam os decibéis de uma cidade cujas autoridades competentes não tomam providências com relação a esse abuso porque, em período pré eleitoral, os candidatos a cargos políticos utilizam-se desses serviços de carros de som. Inacreditável! Os três carros de som transitavam no mesmo quarteirão, separados por outros veículos. Na praça Padre Miguel, a praça da Matriz, uma bicicleta de som. E o relógio da Matriz estava parado.

Obrigada, Monsenhor Durval! Estenda os agradecimentos a todos os que colaboraram para o conserto do relógio da Matriz de Itu. Sua dedicação ao restauro da Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária – com a ajuda incansável dos que lhe dão apoio – é, de fato, a prova incontestável da evangelização para que esta cidade consiga solucionar problemas muito além do alcance espiritual. É claro que houve necessidade de dinheiro para esse conserto do relógio da Matriz, bem como há necessidade de muito dinheiro para o restauro dessa casa de oração, patrimônio de Itu. Continuaremos a colaborar com o dízimo, com nossa presença em quermesses e outras atividades que reúnam dinheiro para que as atividades religiosas de todas as igrejas de Itu continuem, porque, feliz ou infelizmente, tudo gira em torno de dinheiro. No entanto, quando há prestação de contas, como é o caso de todas as igrejas de Itu que arrecadam dinheiro de alguma forma, e quando podemos observar que esse dinheiro está sendo utilizado para os fins propostos, há um novo alento, como esse meu sentimento infantil de constatar que o relógio da Matriz foi consertado.

Tentei ligar para a secretaria da Igreja, por volta das 10 horas deste domingo, 25/07, mas era horário da “Missa das 10”, dedicada especialmente às crianças e o telefone tocou e não houve resposta. Era horário de missa. Espero que as crianças e os pais delas tenham se sentido como eu: feliz por algo que marcou minha infância, minha adolescência e continua a marcar a minha vida adulta: o badalar da horas do relógio da Matriz de Itu.

Embora os pensamentos tenham ficado dispersos, espero ter conseguido fazer a ligação entre a postagem anterior (as publicações impressas estão se restringindo à Internet) e esta (na qual iniciei comentando sobre a importância do exemplo da leitura de jornais e revistas desde a tenra infância). Se quem ler não conseguir encontrar a ligação, eu consegui, na minha cabeça.

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