Foi a pergunta de minha sobrinha, há alguns anos, que queria saber o que significava “mula respiradora”. O que ela queria saber, na verdade, era o significado de “musa inspiradora”, que entendeu mal. Foi uma graça, mas não rimos dela, rimos com ela. Tanto que jamais deixou de perguntar o que não sabe.

Somos, a todos os instantes, usados como “mulas respiradoras”, porque os impotentes sexuais e intelectuais precisam de nós para se autopromover, ficar com glórias de que não necessitamos, aproveitar-se de nós, porque não nos negamos a fornecer informações, mas, principalmente, usar outros (ingênuos ou velhacos, depende dos interesses pessoais) que têm acesso pessoal a nós. Perguntam-nos opiniões, enviam suas informações ou opiniões para, depois, usá-las como bem entendem.

Esse assunto está sendo tratado porque fiquei impressionada – ainda estou – ao ler, em lista de falecimentos de “A Federação”, sobre a morte de um professor da última escola em que exerci a função no Magistério Público, Titular de Cargo Efetivo, onde, inclusive, me aposentei, a meu pedido, e tratei da aposentadoria sozinha, não sem enfrentar enormes obstáculos. Esses obstáculos, tenho certeza, foram criados pelos que gostariam de ter ganho um “trocadinho” às minhas custas, pois, funcionária pública, acredito que esse assunto deva ser tratado pelo departamento competente do Estado e não com intervenção de “terceiros”.

Lamentei o falecimento desse professor, tão jovem, porque era uma pessoa dedicada, esforçada – não que isso tenha alguma importância para a “máquina” federal, estadual ou municipal, pois máquina não seleciona, apenas tritura. Divertidíssimo professor, dentro e fora de sala de aula, impôs-se pelo respeito próprio e nunca testemunhei algum aluno o desrespeitando.

Todavia, foi um dos agentes de uma tentativa de alguém me usar como mula respiradora. Quem estava por trás dessa tentativa, na minha opinião pessoal e intransferível, é um desses velhacos que se consideram escritores e não foi a primeira vez que o velhaco tentou se aproximar de mim, para me usar como trampolim para seus fins pessoais. Já havia emitido minha opinião sobre esse velhaco para uma orientadora pedagógica e o velhaco tentou, por outras vias, se aproximar de mim, com intuito de promover suas obras literárias – puras reproduções de livros paradidáticos que eu comprava e emprestava aos alunos sob minha responsabilidade para que lessem. Poxa, o cara já tinha publicado vários títulos – com ampla repercussão em jornal local – e precisava de entrar em minha sala de aula para apresentá-los e discutir o conteúdo de um deles com os alunos sob minha responsabilidade?

Muitas vezes, no ano de 1999, tive a sensação de que havia um concurso para “O professor do século”. Muitas vezes, procurava microfones e câmeras escondidas, tamanha a intensidade de provocações com intuito de criar situações de “pegadinhas” odiosas, sempre considerei “pegadinhas” atitudes de pessoas doentes. Posteriormente, fiquei com a sensação de que era usada como "mula respiradora", porque algum assediador (ou mais de um) caluniava, difamava e injuriava para, depois, se apresentar como aquele (ou aqueles) que me defenderia. Claro, eu teria que entregar o ouro, mostrar o mapa da mina (todo meu material pedagógico de consulta e o que eu tivesse elaborado) a esse "salvador". Como se pode observar, o parágrafo seguinte mostra como eu estava física e mentalmente louca de atar.

Descobri, finalmente, por diversos motivos, que a única doente era eu mesma, física e mentalmente. Do mesmo modo que em “O Alienista”, considerei que a anormal era eu mesma. Em "O Alienista", o psiquiatra "solta" do hospício todos os que considerou doentes, fecha a porta do hospício com apenas ele dentro. Providenciei a aposentadoria, peguei meu banquinho e sumi de fininho. Homenagens? Deixei para quem as merecia, eu não merecia homenagens. Cumpri meus deveres e fui além disso, sem invadir seara alheia.

Num dos aforismos de Friedrich Nietzsche, de Cantos de “Assim falava Zaratustra”, em Ler e escrever, um dos meus preferidos é: “Vós me dizeis: ‘A vida é uma carga pesada’. Mas para que vosso orgulho pela manhã e vossa submissão pela tarde? A vida é uma carga pesada; mas não vos ponhais tão compungidos. Todos somos asnos carregados”.

Portanto, sou, sim, uma mula respiradora. Quando permito e posso fazer algo por alguém ou por algum objetivo que considero válido, não meço esforços para ajudar. Quando percebo que estou sendo usada como asno carregado, esperneio, blasfemo, corto o mal pela raiz.

Provocação? Enjoei de ser provocada ou, como dizia outra professora contemporânea, também, desse professor que morreu – como não soube no dia do falecimento nem conheço os familiares, rezei pela paz dele – não suportava ter o ouvido usado como penico. Quantos diz-que-diz-que ouvi. Entrou por um ouvido, saiu pelo outro. Até hoje, recebo eventuais visitas que me contam algo nada abonador a respeito de tranqueiras com quem fui obrigada a conviver em escola. Que sejam muito felizes. Conto para minha irmã e deixo de lado. Continuo sendo provocada!

Para esclarecer, quando o recém falecido professor tentou enfiar “goela abaixo” o tal do escritor, devolvi o livro – com uma lanterna de bolso como presente, porque era época do “apagão” e esse professor não estava mais na mesma escola em que eu estava – e escrevi os motivos da devolução do livro, de modo polido (mas sabe-se lá: o que estava escrito pode não ter sido lido como escrevi) na certeza de que seria lido pelo pretenso escritor. Só muito tempo depois é que me lembrei da frase de Diógenes que, ao ser indagado por que carregava uma lanterna (claro que era um facho de luz; lanterna alimentada por combustível inflamável) respondeu que estava à procura de um homem (de verdade; não porque Diógenes fosse homossexual) e o meu presente pode ter sido mal interpretado.

Coisas da vida!

Então, fica assim: quando me disponho a colaborar, colaboro. Quando me disponho a doar, não há o que me faça a voltar atrás. Quando percebo que estou sendo usada como mula respiradora ou sob pretexto de musa inspiradora, não colaboro de livre e espontânea vontade. É a minha revelia que isso acontece.

Ah, também evito “esperar para ver no que vai dar”, em situações como essas, porque considero isso “pegadinha” e, como já digitei, para mim, “pegadinha” é coisa de gente doente, portadora de psicopatia. Então, como reajo, sou louca de atar. Mas ninguém me respeita por esse motivo. "Aquela? é louca coitada". Pelo contrário, os presunçosos continuam a provocar.

Fiz o que pude, desde o primeiro ano, para que os alunos sob minha responsabilidade conhecessem os objetivos do ENEM (muito mais uma oportunidade de retomada, da parte dos educadores, de revisão de conteúdos e de estratégias de ensino do que um recurso de vestibular ou de promoção de escolas particulares; quem não sabe que escola particular é melhor do que escola pública, dãããã?) e por essse motivo leio as manchetes dos resultados do Enem e não pergunto Sinhá, cadê “seu” Padre?, porque eu, sozinha, na época não pude fazer o trabalho de todos, ou seja, pegar cada professor pela orelha e mostrar que o Enem se baseia nos Parâmetros Curriculares de mil novecentos e bolinha e poucos estão a par dele. Leio as manchetes (não leio os textos) e passo para o assunto seguinte que me interesse. Nisso, de fato, “fechei a banquinha e fui embora para casa”, porque sou louca de atar.

Qualquer dia destes, insiro minha opinião a respeito de como "o amor é lindjo", por causa dos "rolos" e das tragédias que acontecem porque "o amor é lindjo".

 

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