Hackers sao bandidos, sim sexta-feira, fev 29 2008 

Sinhá, cadê “seu” padre? Para avisar que hackers são bandidos, sim!

            Inicio com uma série de frases feitas, de chavões, mas com informações também. Li o texto da Superinteressante com a maior boa vontade e imparcialidade possível e quero discutir idéias. Ao citar o nome da empresa de segurança em informática que contrata hackers para invadir o sistema dos clientes “na cara deles”, pretendo fazer o paralelo entre o real e o virtual: quem trabalha e é honesto vale menos do que delinqüentes que conseguem tudo, inclusive ótimos salários. Retomo portanto, os conceitos de trabalhadores versus aventureiros. Hackers são aventureiros, parasitas, psicopatas, corruptos e corruptíveis. Quem nos garante que, ao trabalhar em empresas de segurança em informática não se “leiloem” a quem pagar mais? Ah, vai ver são tão bem vigiados quanto os terceirizados que nos atendem para associar-nos e, quando queremos nos desassociar, cancelar assinaturas, salve-se quem puder! Todos são descomprometidos, como é a lei da selva, do capitalismo selvagem.

1)       Há cinco milhões de psicopatas no Brasil. Não adianta tentar “curá-los”, não têm cura. Psicopatas não têm simpatia, não conseguem ter empatia (capacidade de se colocar no lugar de outro ser vivo) e quando parecem ter, estão fingindo, para alcançar objetivos pessoais. Especialistas dizem que não adianta castigá-los, puni-los para que “endireitem” (apresentam os “sintomas” em tenra idade) e sejam como a maioria da sociedade, pois a psicopatia é parte integrante do ser psicopata, como se tivesse um gen defeituoso. Por esse motivo, são marginais, vivem à margem da sociedade. Na maioria absoluta das vezes, são “171” (artigo do Código Penal, estelionatários), praticam crimes denominados “contos do vigário”, passam a mão no dinheiro público com a maior cara lavada e se consideram “justiçados” ou “justiceiros”. São malandros, assim como são os malandros de “Auto da Compadecida”, que são perdoados por Nossa Senhora, Mãe de Jesus, porque se defendem (no raciocínio torto de corruptos), com suas malandragens, da injustiça, da opressão praticada por “coronéis”, os donos do poder econômico. Acreditam, piamente, que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, mas jamais se consideram ladrões (ficam ofendidos, “meu amor, não sou hacker”, vade retro, satanás), porque estão roubando dos ricos para dar aos pobres, no caso, os pobres são eles mesmos. E o amor é lindo!

2)       Pessoas de intelecto pouco desenvolvido (os piolhentos, os lesados pela corrupção de mais de 500 anos), psicopatas não conseguem distinguir realidade de ficção e, desse modo, utilizam o subterfúgio de ter “visto na Rede Globo” ou numa outra imbecil que quer fazer concorrência e, sem conseguir interpretar (piolhento não sabe ler no sentido pleno da palavra, foi lesado já no útero), utiliza-se de argumentos, sofismas e outros recursos, mesmo que não saiba o significado disso, para justificar o injustificável.

3)       Trambiqueiro, malandro ou “esperto” só conhece direitos. Sempre existiram, porém em menor número, cada cidade do país conhecia, muito bem, cada trambiqueiro, malandro ou “esperto”. O tempo passou, elaborou-se um estatuto de proteção ao menor e ao adolescente (ECA!) de primeiro mundo, mas se esqueceram da tal da justiça social (ou seja, para leis de primeiro mundo, é preciso que exista uma sociedade de primeiro mundo) para que esse estatuto pudesse ser posto em prática. Porém, foi colocado em prática, com interpretações, muitas vezes, de tal ignorância ou má fé que, agora, todos perguntam: “Sinhá, cadê ‘seu’ padre, que ninguém segura esses criminosos de menor idade?”. Como os legisladores são, na maioria absoluta das vezes, raposas velhas, sabiam, de antemão, que esse estatuto geraria lucro: o voto dos adolescentes delinqüentes que, podem até matar, mas por serem menores de idade, quando alcançam a maioridade, as “folhas corridas” zeram. Aliás, para proteção deles, nem “folha corrida” existe. Construíram instituições para reeducar esses jovens. Como tudo no país, não funcionaram, pois os vícios de uma sociedade apodrecida ali estavam, escancarados. Mudaram o nome da instituição, ou seja, mudaram as moscas. Por que será que hackers, cracker são tão jovens? Não confiam em ninguém com mais de trinta anos? Ora, faz décadas que os filhos de mães “independentes” sabem que quem os sustentará, para o resto da vida, é uma mulher! A sociedade criou cafetões com registro de nascimento, RG, CPF, endereço conhecido, mas a ética pública prevalece sobre a ética particular. “Menino, tenha respeito por aquela que o criou”. “Por quê? Ela não me dá o que quero, é obrigação dela me dar tudo o que quero!”. Há uma diferença enorme em adolescente saudável que quer tudo o que pode querer e psicopata que pensa só ter direitos. Um entende, na marra, que não pode ter, pois dinheiro não é capim. Outro jamais entenderá e se apossará do que não lhe pertence.

4)       Leu no texto “Como funciona a cabeça de um corrupto”, que o colonizador usufrui a mãe sem o interdito do pai? A mãe é a sociedade, o pai é o Estado e o psicopata, o corrupto (o colonizador) se locupleta às custas do dinheiro recolhido da sociedade, porque o Estado não gera dinheiro, não é uma empresa, portanto tem que tirar dinheiro da sociedade por meio de taxas, impostos, empresas terceirizadas, empresas públicas tornadas privadas etc e tal, sem que o pai (o Estado) imponha limites, punições e, obrigatoriamente, correção no comportamento. Estabelecida a bacanal, a libertinagem, não há como impor a liberdade, pois a liberdade pressupõe consciência de Ética, assim como a liberdade pressupõe o livre arbítrio (saravá, Prof. Marins) e o livre arbítrio pressupõe que, se a escolha foi errada, o “livre-arbitrador” terá que agüentar as conseqüências dessa escolha. Como o Estado não interdita aqueles que deveria interditar (não pune os que merecem punição, entope o sistema carcerário com os malandros representados em “Auto da Compadecida”, deixa para fora os que comandam a roubalheira e lhes dá novos períodos legislativos ou finge que não sabe que os verdadeiros “patrões” se escondem por trás de quem tem mandato legislativo, enfim, não tira a liberdade de quem precisa ser contido) a suruba está disseminada, de norte a sul, de leste a oeste e todas a subdivisões. Pensou que eu estava defendendo a ditadura, o nazismo? Não, você é que é ditador, nazista, fascista, xiita, fundamentalista, mas banca de “democrata”, apenas quando lhe interessa. Alegar que sou nazista, ditatorial é estratégia de estelionatário, aquele que acusa porque sabe ser criminoso.

5)       Muito bem explicado, o texto mencionado da Superinteressante nos relembra que não existe uma ética pública e uma ética privada, do mesmo modo que a mulher de César não tem apenas que parecer séria, mas tem que ser séria ou que não existe estar “um pouco” grávida. Ou é ou não é. Ou está ou não está. Simples leis da Física demonstram essas verdades.

6)       Estamos “carecas” de saber que informações obtidas por meio de “escutas” ilegais não condenam criminosos, mesmo que saibamos que são criminosos. A lei não funciona com o coração, funciona de acordo com um rígido entendimento de legal ou de ilegal, de justo ou injusto. É certo que os “casuísmos” transformam advogados em “feras” disputadas por aqueles que têm dinheiro para pagá-los.

7)       Como todos, sem exceção, querem se destacar em algo – sem exageros, isso é até sadio; porém quando a mentalidade é a de “pertencer” ou ser “exclusivo” já é caso de doença, de psicopatia – aquele que consegue se destacar é disputado com unhas e dentes, para que pertença ao “quadro” e traga mais dinheiro. Vichi, este item dá um livro.

8)       A sociedade tolerou os bicheiros, perdeu o controle sobre os bicheiros. A sociedade tolerou os menores infratores, perdeu o controle sobre os que se tornaram adultos e os que se tornarão adultos. A sociedade perdeu o controle sobre a paternidade responsável, sobre o exercício da sexualidade responsável (aquela que evita doenças sexualmente transmissíveis, desencoraja a promiscuidade, a gravidez indesejada) e, assim, a paternidade passou a ser responsabilidade de avós e, na ausência deles, dever do Estado – mas o número de abandonados cresceu – e criou-se um círculo vicioso, pois o Estado só participa daquilo que lhe dê lucro, não investe em sociedade organizada, espera que a sociedade organizada se resolva sozinha. A sociedade tolerou as roubalheiras do dinheiro público (cada um disputando o seu quinhão, quem denunciasse se tornaria réu) até que perdeu, de tal maneira, o controle que se tornou ético ser um ladrão; otário é quem vive de modo honesto. Típico comportamento e pensamento de psicopata, de corrupto.

Agora, querem me convencer que, quando o virtual reproduz o real – hacker é do bem? Que quem sempre invadiu meu micro ou me vigiou ou me ouviu até dentro de minha casa estava prestando um serviço? Que quem contava aos alunos sob minha responsabilidade tudo o que eu preparara no micro e copiara – às minhas custas – antes que eu apresentasse em sala de aula (quando não havia uma equipe qualquer de saúde bucal, por exemplo, que me impedia de executar o que passara o dia preparando para aquele dia de aula) estava me prestando um serviço, mostrando as falhas de segurança, mas não me prevenindo sobre isso? Que esses carros funerários que circulam ao meu redor, quando ando pelas ruas, estão me protegendo? Protegendo-me de quê? De uma promoção que não pedi? Querem me convencer de que o “mouse” que trava, a tela que trava, a demora para navegar são problemas do meu micro? Querem me convencer que os lobistas, mortos de fome, que precisam “enfiar goela abaixo” o que promovem, para sustentar seus impulsos distorcidos estão a meu serviço? Ei, nada é gratuito! Querem me convencer que sou musa inspiradora? Ou, como dizia minha sobrinha, na sua santa ingenuidade de cinco ou seis anos, mula respiradora? Querem me convencer que os constantes avisos de que a memória virtual está baixa não é interferência de hackers, crackers em busca de uma “boquinha” às minhas custas e às custas de meu prejuízo moral e financeiro, além de se exibir, de modo indecente, para que eu saiba que há um calhorda ali, mesmo que não haja conexão com cabo? Que o aviso que recebi, logo após renovar – paga em dinheiro – a proteção do micro, de que se esse canalha fosse mal intencionado teria invadido meu micro e esse aviso estava numa das pastas vitais de meu micro, que eu atentasse para falhas de segurança? Vá te catar e masturbe-se às custas de outra vítima, não de mim, canalha! Está à procura de “brecha”? Ache a da sua mãe, a da sua irmã. E querem me convencer que assediador é do bem? Assediador é criminoso com libido psicopata, que precisa de estímulos anormais para se excitar e chegar ao orgasmo. Isso é hacker, cracker e toda a quadrilha para mim: são escaladores, usam outros como corrimão, escada, trampolins, para conseguir os objetivos pessoais doentios que perseguem; do mesmo modo que os parasitas do mundo real fazem. São recalcados que sonham com bens materiais, fuçando, como suínos capados, micros de outras pessoas para que se tornem “visíveis” para empresas que os contratam de modo criminoso, pois contratam criminosos – muitos deles menores de idade – estimulando-os a permanecer como são: criminosos que, quando adultos, quando não forem mais úteis, assim como os suínos capados são abatidos, serão lançados à marginalidade. Técnicos em informática hackers, crackers? São lacaios do crime organizado, pois injetam veneno em nossos micros (precisam do crime para se excitar, lembram-se?) e são tão tontos e pobres de espírito que justificam tudo no estilo “o amor é lindo!”.

A ICTS – aprendi no texto da Superinteressante – é uma multinacional israelense de segurança de informação que presta serviços para várias empresas e está há dez anos no Brasil. Utiliza mão-de-obra hacker tanto do Brasil quanto de Israel, fazendo testes de invasão. Quantos dessa “mão-de-obra” são éticos pelos parâmetros da sociedade? Sabemos que não há crimes reais ou virtuais sem que haja “ajuda”, “colaboração” de funcionários, o famoso “trabalho interno”. Então, por que devo aceitar ser assediada (invasão de micro é assédio moral, prejuízo moral e financeiro), ter os arquivos do micro invadidos, minha vida pessoal vigiada e PAGAR por isso? Que diferença há entre os que fazem isso e os integrantes do crime organizado? Sempre avisei, com todas as letras e força pulmonar que não sou mulher de malandro, que apanha, ajoelha-se e pede mais, pois é doente. Nunca houve uma consulta pessoal ou por escrito para ter essa permissão de invasão de privacidade. Ao contrário dos calhordas, não pratico isso contra eles para me defender. Afinal, defender-se praticando crime é Lei de Talião, olho por olho, dente por dente e o Código de Hamurabi é base da Ética, mas não pode ser praticado pela legislação moderna. Eu li “1984” e não entendo como boçais queiram praticar o conteúdo do livro, como se vivêssemos no virtual o tempo todo, 24 horas por dia, a não ser que seja técnica de tortura psicológica de psicopata.

“Para mostrar que os hackers são necessários, empresas de segurança em informática invadem o sistema dos clientes na cara deles”. E eu sendo chamada de louca, com mania persecutória por afirmar que doentes mentais mexem e fuçam em meu micro desde o primeiro momento em que o conectei à Internet? E, naquela época, era tecnologia de fios telefônicos! Logo depois, passou a ser por meio de satélite. Meu toca CDs sendo danificado por um otário que o paralisava: “anjo, anjo, anjo…”. E, agora, vai trocar o leitor de CD ou vai me dar um novo? Claro, fiquei com o prejuízo. E eu pagando para ser invadida por um bando de dar ânsia de vômito por ter que considerá-los seres humanos? E ter a agressão, na cara, de ler um recado de que havia uma “brecha na segurança” do recém-renovado pacote de segurança, para que outras empresas de segurança em informática se autopromovam às minhas custas, com meu dinheiro suado e honesto, tendo que reformatar muitas vezes o micro antigo e o atual, por causa desses calhordas? Com calhordas “segurando” minha navegação a ponto de, em vez de inserir o endereço eletrônico, inserir a senha e ter que trocá-la, só para que eu recebesse, na cara, o entendimento de que, não importa quantas vezes troque a senha de acesso, sabem minha senha assim que a troco? E avisando ao UOL que já instalei e reinstalei o AntiSpam e o pacote de segurança alerta que bloqueou o Banking Infostealer (um cavalo de tróia que rouba senhas e informações bancárias) que está, certamente, atrelado ao “serviço terceirizado”  e funcionários, por escrito e por telefone, tentam me convencer que o problema é o pacote de segurança?

E eu sendo chamada de louca, com mania persecutória, porque percebo, claramente, que o destinatário de minhas mensagens eletrônicas não foi o autor da resposta, que o meu interlocutor, no Messenger, não é, de fato, com quem supostamente deveria estar conversando, com a imagem do interlocutor sendo repetida à exaustão, dia após dia, e não coincidindo com o que está falando ou com o momento em que está digitando? E por qual razão o meu diálogo não se concretiza por microfone, enquanto meu interlocutor me avisa que não tem problemas com outros? Dá licença, foi um técnico em informática que o formatou!

Quem são esses imbecis? Vivem à custa de adrenalina, endorfina ou de drogas ilícitas? E ainda têm a audácia de fazer com que lacaios, ao meu redor, demonstrem saber tudo o que digitei, falei, comi, interrompendo-me exatamente no momento em que não deveriam me interromper, apenas para demonstrar que sabem o que falo, o que como, onde estou, para onde vou, com quem vou, de que modo me locomoverei. Vade retro, satanás!

Quem contrata hackers, para variar, poderia fazer um grande favor? Que tal contratar profissionais honestos e valorizar os que merecem, de fato, ganhar os salários que esses cafajestes crackers, hackers menores de idade ou já distorcidos pelo “passado de experiência” e demais denominações odiosas ganham, duas vezes o salário de um educador, já no início, e, mais à frente, com a “experiência”, dez vezes, ou mais, o salário de um policial honesto? Que tal, então, preparar os educadores (que ganham uma miséria e são humilhados por ESTELIONATÁRIOS dentro de sala de aula) para que orientem esses ESTELIONATÁRIOS MENORES DE IDADE a não fazer o que fazem, visto que os pais perderam o controle sobre suas crias mal-criadas? Que tal investir esse conhecimento em pessoas bem formadas que exerçam a função de policiais, os que deveriam estar fazendo segurança, pois essas são suas atribuições, e não terceirizar as funções dos funcionários públicos, deixando-os, para variar, à margem da sociedade, humilhando-os, desacreditando-os?

“Mamãe, quando eu crescer, quero ser hacker”. Antigamente, era jogador de futebol. Logo, os hackers terão empresários que levam a maior parte da grana.  

Certo, todos têm um lugar ao sol, inclusive as empresas de segurança privada do real e do virtual, mas a concorrência poderia ser mais leal? O Estado não está nem aí e, comprovadamente, na minha atuação de EDUCADORA, é o maior gigolô de todos, tolerado há 500 anos e, agora, não há Sinhá, cadê ‘seu’ padre que solucione essa mentalidade do salve-se quem puder.

Como não há a quem recorrer, “Sinhá, cadê ‘seu’ padre?”.

Afinal, o raio-X foi um avanço extraordinário para o diagnóstico, mas provoca doenças e mata, por excesso de exposição e pelo componente que utiliza, o césio. A bomba atômica foi um avanço do raio-X, mas mata! Hackers e crackers são conseqüência do desenvolvimento da informática, mas matam, porque foram tolerados e, hoje, são utilizados para segurança em informática.

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Hackers do bem sexta-feira, fev 29 2008 

Hackers do bem

Fonte: Superinteressante, edição 249, fevereiro de 2008.

Texto: Paula Scarpin e Ivan Paganotti

Design: Jorge Oliveira

Foto: Manuel Nogueira

Edição: Marcos Nogueira

[As fotos foram retiradas]

Bandidos não. Os hackers encontraram um nicho na economia legal:

ajudam empresas e a polícia a combater o crime na internet. E faturam com isso.

Às 3 da manhã, a única luz acesa da casa é a do monitor. Os pais e a irmã de Rodrigo Rubira Branco já dormem há algumas horas. O computador é só dele agora. Na vida do rapaz, a máquina sempre teve um papel fundamental: ele escolheu o colégio técnico porque lá havia melhor conexão de internet e começou a trabalhar cedo dando aulas num curso de informática, claro para ganhar dinheiro e investir em equipamento. Comprou seu primeiro computador aos 16 anos.

Como vários garotos, Rodrigo foi um hacker. E, antes que você torça o nariz para o garoto, vamos tentar desrnistificar essa palavra. Hacker é aquele cara que manja muito de códigos de programação e sabe resolver qualquer problema que aparecer no computador. Tal conhecimento pode ser usado para o bem ou para o mal. O hacker que opta por servir o lado negro da força tem nome específico: cracker. Esse fulano invade sistemas, sabota e rouba dados. Não é o caso de Rodrigo, que se coloca no time dos hackers éticos: "É preciso seguir a lei, não importa o que você faça".

Não só existem hackers benignos como eles têm uma grande importância para o aprimoramento da informática. "Eles desenvolveram e desenvolvem tecnologias e técnicas importantes, apontam falhas de segurança, erros de programação dos computadores", afirma Adriano Cansjan, coordenador do Laboratório de Pesquisas de Segurança da Unesp em Ribeirão Preto.

 

Profissão: hacker

Rodrigo acabou estudando sistemas de informação em uma faculdade pequena em Pederneiras, interior de São Paulo, mas sua aposta foi sempre os estudos paralelos. Ligado em congressos e discussões online, não demorou muito para ser descoberto. Aos 23 anos, ele trabalha em uma grande empresa multinacional – cujo nome nós não podemos mencionar aqui – mas que você com certeza conhece. Assim como ele, outros tantos hackers são os maiores especialistas em suas áreas. E as grandes empresas precisam deles.

Domingo Montanaro, que divide o apartamento com Rodrigo, sempre teve esse objetivo em mente. "Desde o começo eu era fascinado em trabalhar para o governo, grandes corporações – esse negócio de serviço secreto que aparece nos filmes", diz. "Eu queria resolver os problemas. E também percebi que o mercado precisava dessa mão-de-obra, e que eu podia ganhar dinheiro com isso." Ele começou fazendo uma série de trabalhos independentes, montando sites, criando portais, planejando a infra-estrutura de provedores. Um dia, fez um trabalho bem-feito de segurança para um grande banco (cujo nome – surpresa! – não podemos mencionar), e acabou contratado. Coordena uma equipe que apura fraudes, faz testes de intrusão; avalia a segurança de sistemas e faz todo tipo de investigação eletrônica.

A maioria, entretanto, não pensa tanto no futuro. Um dos hackers mais famosos do mundo, o americano Kevin Mitnick, começou do jeito mais inconseqüente possível." Meu único objetivo, quando era um hacker, era ser o melhor hacker que existia", conta. "Se eu roubei softwares, não foi porque eu queria vendê-Ios." A gente entende, mas com a polícia não colou. Pego em 1995, Kevin passou 8 meses na solitária e ainda ficou proibido de usar qualquer computador por mais 3 anos.

Depois de cumprida a condicional, ele montou uma empresa de segurança, a Mitnick Security. Sem medo de ser feliz, Kevin não titubeou em pôr o próprio nome na empresa. "Os clientes conhecem meu passado e eles me procuram exatamente porque sabem que eu sou capaz de pensar como um hacker, porque eu já fui um." Ele é consciente de que algumas empresas não aceitam comprar o seu serviço porque desaprovam os seus erros no passado, mas ele acha que o seu nome está mais ligado à especialização do que ao crime. "É óbvio que eu fiz coisas bem idiotas, mas agora atuo no outro lado – e não quero voltar para a cadeia", afirma.

Mas será que dá pra confiar num excracker? Adriano Cansian é cético. "Minha opinião particular é: não. Nós temos acesso a relatórios do FBl sobre perfis de criminosos, e esses estudos apontam que a reincidência de crimes eletrônicos é muito grande", diz o pesquisador. "É o segundo maior índice de reincidência, só perde para pedofilia." Ele faz o paralelo de contratar um profissional com antecedentes de roubo pra tomar conta de um cofre. O advogado criminalista Alvino  Augusto de Sá discorda: "Acredito que é exatamente por não conseguir novos empregos que os criminosos podem voltar para o crime".

Mitnick, acusam seus antagonistas, se promoveu em cima dos crimes que cometeu. A contratação de seu serviço funcionaria como uma espécie de recompensa por ter agido fora da lei. Para o advogado Renato Ópice Blum, um ex-cracker pode até ser contratado para funções educativas, mas não para lidar justamente com um setor que costumava prejudicar. "Não podemos prestigiar um sujeito que praticou um crime. O conhecimento dele foi obtido de forma ilícita, invadindo sistemas e a privacidade de pessoas, partindo para o lado antiético", afirma. Mitnick, é claro, tem outra opinião. "Eu não estou faturando por causa do meu crime, estou faturando porque eu tenho muito conhecimento de segurança", diz.

Se quiser ganhar dinheiro com um trabalho honesto, o cracker precisa ir além da obsessão por achar falhas no sistema alheio. "É importante estar preocupado "em defender, não só em atacar, destruir", explica Maurício Fiss, um dos coordenadores da ICTS,uma multinacional israelense de segurança de informação que presta serviços para várias grandes empresas (cujos nomes não podemos revelar …). Há 10 anos no Brasil, a ICTS utiliza mão-deobra hacker tanto local, do Brasil, quanto de Israel, fazendo testes de invasão.

Companhias industriais, de telecomunicações, bancos de investimentos, empresas de serviço e outras consultorias buscam a ICTS para testar a segurança de seus sistemas. "Fazemos testes de invasão até o limite seguro, para não interromper os trabalhos da empresa. Nós invadimos, encontramos as brechas, chegamos até a acessar informações, ver e-mails, mas não sabotamos", diz Maurício. Eles então mostram ao cliente informações que só poderiam ser obtidas com o acesso ao sistema, para provar que há brechas na segurança – e se oferecem para eliminá-Ias. "Algumas vezes fazemos ataques durante uma palestra. Levamos hackers para mostrar como um ataque pode ser feito – e como pode ser fácil", conta Maurício.

 

Hackers policiais

Bandidos também usam computadores – e deixam rastros digitais difíceis de ser recuperados por leigos. Assim, a ajuda de um especialista – como Rodrigo Branco, o rapaz que estudou para ser hacker é bem-vinda na polícia. Ele já usou os conhecimentos de informática para dar cabo de um seqüestro. Com uma autorização judicial em mãos, examinou os e-mails trocados em um computador achado num cativeiro na região de Bauru. Neles, encontrou informações a respeito de um outro cativeiro, em que uma moça ainda estava presa. "Vários países estão investindo muito dinheiro na investigação de falhas de segurança, mas o Brasil tem pouco disso. A PF [Polícia Federal] e a Abin [Agência Brasileira de Inteligência] têm equipes de hackers, mas é pouco", lamenta.

 

Para mostrar que os hackers são necessários,

empresas de segurança em informática

invadem o sistema dos clientes na cara deles.

 

Por aqui, o detetive hacker que ganhou maior notoriedade foi Wanderley de Abreu Jr., que trabalhou com o Ministério Público do Rio de Janeiro para desmontar uma rede de pedofilia. Centenas de pessoas foram presas. Ainda assim, a pedofilia não é o maior campo de trabalho em investigações digitais. Segundo o advogado Renato Ópice Blum, há incidência ainda maior de crimes contra a honra – calúnia, injúria e difamação – e de fraudes. "Também ocorrem crimes de concorrência desleal, como roubo de segredos empresariais, e ameaças de extorsão: alguém invade e se apropria de dados e só os devolve mediante pagamento", diz o advogado. Domingo Montanaro já investigou vários tipos de delitos eletrônicos, tanto em empresas privadas como em repartições públicas. Ele entrega o jogo: "Nos 3 anos em que eu trabalhei nessa área, vi tráfico de drogas, espionagem industrial e até marido que traía a mulher em sala de bate-papo".

É muito difícil treinar uma equipe do zero para cuidar da segurança de sistemas. A mão-de-obra hacker, interessada e especializada, alia a juventude à experiência. É difícil competir. Contra os hackers, conta muitos pontos o preconceito. "Há um risco em divulgar que esse tipo de profissional   é

contratado para um banco, por exemplo. Os clientes podem perder a confiança", lembra o pesquisador Marcelo Lau, da Escola Politécnica da USP.  Assim fica fácil de entender por que não podemos divulgar onde trabalham Rodrigo e Domingo, ou para que empresas a ICTS presta serviço.

Grande parte dessa confusão se deve ao fato de não estar muito claro na cabeça das pessoas o conceito de crime virtual, qual é o limite do aceitável. Uma saída para essa falta de clareza é investir na formação de jovens hackers, para que sejam melhor estabelecidos os limites éticos da atividade. O professor Adriano Cansian cita a iniciativa do projeto HackerTeen (www.hackerteen.com.br), de São Paulo. Além de promover cursos para jovens de 12 a 17 anos, o projeto tenta informar melhor os pais sobre as possibilidades profissionais de quem é vidrado em informática.

Enquanto a formação dos hackers é feita na base da experimentação, o negócio é ter cuidado – mas não só com eles. "Qualquer pessoa pode cometer um crime", diz Marcelo. Para proteger seus sistemas de informação, as empresas devem manter os olhos abertos e seguir o conselho do pesquisador da Poli: "Quando bits e bytes representam dinheiro, isso pode ser uma tentação para alguém com má índole".

FEVEREIRO / 2008 SUPER – páginas 68 a 71.

 

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O CURRÍCULO DE UM HACKER

FORMAÇÂO = Faculdade e curso de informática não contam tantos pontos há hora da contratação se o hacker já tiver experiência nos teclados, mas depois de empregado as empresas cobram que ele continue os estudos em cursos mais formais.

EXPERIÊNCIAS ANTERIORES = Além das noites em claro fuçando em programas, são muito valorizados os hackers que abrem as próprias empresas ainda jovens. Publicar estudos sobre programas na Internet e participar de conferências dá bastante visibilidade. Colaborar com investigações policiais sobre crimes virtuais também abre portas.

OPORTUNIDADES DE EMPREGO = Existem vagas para avaliação de segurança (os testes de invasão simulada que mostram as fragilidades dos sistemas para as empresas), investigação de fraudes virtuais, além de pesquisa e desenvolvimento de novas táticas para barrar as invasões. Hackers com mais tempo de carreira já podem coordenar equipes.

EMPRESAS = Os futuros patrões estão no setor de informática (principalmente as empresas terceirizadas, que oferecem serviços de segurança de informação e testes de invasão às grandes companhias), nas empresas de telecomunicações e nos bancos.

SALÁRIO = Nas companhias que valorizam esse profissional,um analista júnior, em começo de carreira, ganha entre R$ 2.500 e R$ 3 mil. Hackers com grande experiência podem chegar ao patamar de R$ 8.500 em poucos anos.

 

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DICIONÁRIO HACKER

WHITEHAT = O hacker de “chapéu branco” é o hacker ético, que só procura  as falhas nos sistemas sem infringir a lei, seja por curiosidade, seja contratado por empresas para testar a segurança dos bloqueios contra invasores.

GRAYHAT = O “chapéu cinza” vive numa fronteira nebulosa. Apesar de ter boas intenções, às vezes pode invadir sistemas sem autorização, o que é ilegal. Para eles, desde que um crime “de verdade” não ocorra (como vandalismo, roubo ou fraude), tudo é válido.

BLACKHAT = O chapéu negro que oculta o “cracker”, o hacker que usa seus conhecimentos para invadir, destruir e roubar. Não estão preocupados com limites legais nem com a pesquisa sobre programação: o importante é invadir, não importa como.

NEWBIE = Novato, inexperiente, o jovem aprendiz de hacker.

SCRIPKIDDIE = O “garoto dos scripts” é um cracker inexperiente que não possui grandes conhecimentos de informática e, por isso, depende de programas alheios para encontrar brechas nas suas invasões. De modo geral, tem pouco interesse em tecnologia e está mais preocupado em ganhos materiais (roubo, fraude) ou fama (vandalismo).

PHREAKER = Hacker especialista em telecomunicações.

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Como funciona a cabeça de um corrupto domingo, fev 10 2008 

 

Como funciona a cabeça de um corrupto

Diversos especialistas procuram explicar por que certas pessoas não seguem os preceitos coletivos da ética.

É difícil compreender a psique de uma pessoa insensível à ética. A psicanálise, as ciências sociais e a filosofia ajudam a pesquisar o mistério.

 

Por Judith Patarra

 

Astucioso, egoísta, alerta às chances de burlar os cidadãos e o Estado, espantoso desrespeito pelo bem comum e pelas leis esta a imagem que se tem do corrupto, o mais notório personagem da realidade política atual, no Brasil e, pode-se dizer, no mundo. Mas quem, afinal, são os corruptos?, provoca o psicanalista Manoel Tosta Berlinck, de São Paulo. Aqueles que trabalham para o governo e se apropriam de bens públicos? Os profissionais liberais que não declaram integralmente seu imposto de renda? O chefe de compras que aceita propina para escolher o fornecedor da empresa onde trabalha? Toda a população, enfim, porque não exige nota fiscal ao fazer suas compras e facilita aos comerciantes lesar o fisco?

Um efeito dessa natureza ampla do fenômeno corrupção, que Berlinck enfatiza, é o da arquiteta Mathilde Caetano, de São Paulo. Em 1990, mal saída da faculdade, ela abriu um pequeno escritório e contratou um contador. Meses depois, apareceu um fiscal da prefeitura, que descobriu um imposto atrasado. Há grande espaço de avaliação nas perdas de prazo, sinalizou o funcionário, já de olho numa propina. A arquiteta devia entender que com um por fora a avaliação da dívida seria irrisória, mas preferiu pedir ao contador que esclarecesse a situação. Conseguiu, no máximo, aprender que os múltiplos impostos federais, estaduais e municipais, com datas e procedimentos diferentes para serem quitados, induzem à perda de prazos.

O advogado Marcelo Caserta Lemos aproveita para lembrar o conceito jurídico de corruptíssima república: Ele expressa que a abundância de leis torna corrompida a organização da coisa pública, explica. O episódio de Mathilde terminou com o contador recomendando o pagamento da propina. Do contrário, você fica na mira, alertou o profissional das contas. Daqui a dois meses aparece outro. Eles são muitos, você uma só. Tem gente de cabelo branco por causa disso. A arquiteta pagou os cerca de 100 dólares pedidos e, já desconfiada do próprio contador, organizou o que se chama caixa 2, para enfrentar futuras investidas.

O caso é exemplar, porque de um lado revela que a corruptíssima república favorece a impunidade; e de outro, compromete um fiscal, funcionário que se costuma considerar, de antemão, corrupto, salvo eloqüente prova em contrário. Devo expor a situação de nossa classe, contra-argumenta Mauro Decar, lotado em uma das administrações regionais da Prefeitura de São Paulo. Ninguém se preocupa se uma obra prejudica os vizinhos ou se o beiral podre está para cair na cabeça de alguém. Quando chegamos, somos sempre mal recebidos, querem logo dar um jeitinho. Explicamos a exigência da lei, pensam que insinuamos a extorsão. Ameaçam. Às vezes, o fiscal é mesmo corrupto, uma só das multas que deve aplicar representa dez, vinte vezes o que ele ganha por mês. Não temos carreira profissional, nem chefia própria.

Como se vê, a vida é dura em toda parte. Existem contextos culturais que ajudam a formar cabeças corruptas, informa o psicanalista lacaniano Contardo Calligaris, de Porto Alegre. O Brasil destaca-se nessa triste situação não só porque é forjado na cultura individualista, mas por sua História, sempre vulnerável à corrupção. Calligaris, presidente da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, insiste em que a história de um país explica muita coisa, pois é fruto de uma cultura específica: instituições, organização social, costumes, crenças, mitos. No exercício de sua profissão, detectou na fala e no inconsciente dos brasileiros a presença de duas figuras supostamente perdidas no passado: o colonizador e o colono. O colonizador abandonou a mãe-pátria, Portugal, por uma nova terra, que vai explorar. O que quer dizer explorar? Conhecer e também arrancar seus recursos. Ele veio impor sua língua e gozar a nova mãe sem o interdito do pai. O colono, ao contrário, não veio gozar a América; queria construir um nome, encontrar um novo pai. Ser sujeito.

Segue o raciocínio: O que é ser sujeito? É submeter-se à autoridade e tornar-se alguém. O que é autoridade? Implica respeito e amor portanto, valores simbólicos. Mas o colono vira um escravo branco da fazenda, o que gera uma decepção sem remédio. A saída é fugir ou morrer. O falso pai é um explorador, não o assume como filho nem lhe dá um nome. O colono termina medindo a função paterna pelo gozo ao qual dá acesso, inscrevendo em seu inconsciente um cinismo radical com relação à autoridade. Impressiona-me como uma família inteira, hoje, é capaz de desconsiderar um pai que não consegue enriquecer. Pouco vale o capital incrível de amigos, estima, valor de um nome respeitado.

Berlinck, o outro psicanalista, segue pela mesma trilha: A nossa sociedade exige que as pessoas sejam bem-sucedidas. Isso significa ser rico, poderoso, acumular propriedades. Saímos todos atrás disso, mais desembestados do que deixamos transparecer. O quadro, sem dúvida, piora quando pensamos nos políticos e nos funcionários do Estado, que representam a autoridade simbólica. Mas, em boa parte, são como o colonizador: falsos pais, norteados pela frase famosa é dando que se recebe. A dádiva, explica Calligaris, é que sustenta o poder do doador, impondo a quem recebe o dever de retribuir com dádiva semelhante, ou maior. E assim se abrem as portas do clientelismo, fenômeno social em que os políticos oferecem, em troca de apoio eleitoral, toda sorte de ajudas e favores. Monta-se uma rede de fidelidades pessoais que usa recursos públicos ou privados, sacos sem fundo de campanhas eleitorais, por exemplo.

Quem ficar fora de uma rede dessas que, como vimos recentemente, pode ir do doleiro ao presidente da República fatalmente vai ouvir em algum momento o retumbante você sabe com quem está falando?, à qual o antropólogo Roberto DaMatta, atualmente lecionando na Universidade de Notre Dame, em Indiana, Estados Unidos, dedicou um capítulo inteiro do seu livro Carnavais, malandros e heróis. Eunice Ribeiro Durhan, coordenadora do Núcleo de Pesquisas sobre Ensino Superior da Universidade de São Paulo, viveu uma amarga experiência nos dois anos em que serviu no Ministério da Educação, durante o governo José Sarney (1985-1990).

Diariamente, lembra, vinham deputados ao meu gabinete, pressionar. Eram quase sempre solicitações de bolsas de estudo, pedidos de verbas e insistência na transformação de faculdades em universidades. Tudo sem atender os critérios legais, claríssimos, por sinal. Em troca, propunham apoiar (ou dificultar) o andamento de projetos de lei do interesse do Ministério, vale dizer, do interesse do distinto público. Eunice deixou o Ministério junto com o ministro José Goldemberg, em 1992, já no governo Collor, ambos incapazes de adaptar-se ao comportamento considerado normal naquelas paragens.

Quem funciona contra essa cultura é considerado excêntrico, criador de caso, trouxa, babaca, explica outra antropóloga, Maria Lúcia Montes, da Universidade de São Paulo. Como fruto do clientelismo, a cabeça do brasileiro tende a buscar benefícios valendo-se da influência de alguém. Nesse caso, é bobagem reivindicar direitos pelo mérito. Tudo se torna legítimo, pois ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Roberto DaMatta acredita que a sociedade brasileira combina duas mitologias: uma se inspira na tradição moderna, da igualdade e da liberdade; a outra, na desigualdade. Ao adotar ambas, instituiu-se nossa "ética da ambigüidade", mãe de nossa familiar corrupção: o que não posso fazer como cidadão, faço como amigo do rei.

A malandragem chegou a tais níveis, que o brasileiro hoje clama por ética sem ambigüidade. Explica Renato Janine Ribeiro, professor de Filosofia Política da Universidade de São Paulo: As pessoas querem referências para saber o que é certo e errado. Isso é um equívoco. Ética significa agir de acordo com escolhas individuais, que se supõe voluntárias, muitas vezes racionais, baseadas em valores que nós julgamos certos ou errados. O filósofo usa a expressão supõe-se porque depois dos trabalhos de Sigmund Freud, o pai da Psicanálise (1856-1939), sabe-se que freqüentemente não temos muita clareza acerca de nossas motivações inconscientes. Além disso, os valores de certo e errado mudam com o tempo. Não há mais preceitos absolutos. Mesmo pessoas religiosas sabem que os mandamentos bíblicos não bastam para sustentar as escolhas éticas.

A situação parece mais complicada se lembrarmos que os valores da vida privada nem sempre servem para orientar a vida pública. A ética individual sugere: sou a favor de melhores salários, explica Maria Lúcia Montes. A ética da responsabilidade, esfera, entre outras, da política, acrescenta: mas não a ponto de piorar a situação do país. A lógica desse impasse tem um elemento natural, a negociação. Mas esta deve manter-se no nível do interesse público, senão afundamos na reles barganha. Por que, a meu ver, caiu o presidente Fernando Collor? Seus eleitores poderosos sabiam que viria roubalheira; julgavam-se capazes de controlá-lo. Mas ele, onipotente, não barganhou.

Para os psicanalistas, há diferenças substanciais entre gente como a arquiteta Mathilde Caetano e alguém que sistematicamente desvia dinheiro público. Acho que a cabeça do honesto é idêntica à do corrupto no que se refere à violência interna, contra a qual precisamos nos proteger, e a violência externa, que nos assalta, explica Berlinck. Depois, os seres humanos são voltados para o prazer e cometem desvarios. A civilização é essa tentativa, falha, de conter a violência, da qual somos todos sujeitos. E aqui entram as diferenças entre honesto e corrupto: O honesto, em sua criatividade originária da violência, cria vida, realizações; o corrupto, em sua criatividade igualmente originária da violência, é um parasita destruidor da vida. Chupa a vida dos outros, permanece um bebê que mama nas tetas do Estado. Faltou-lhe um pai que, exercendo as funções paternas, estipulasse os limites da lei. Por isso, quando o chamam de corrupto, fica indignado, sente-se injustiçado.

Colocado o Brasil no divã dos psicanalistas, vamos descobrir que, para mudar, realmente, será preciso que ele se torne uma nação real, descartando a identidade do colonizador que se fixou nos violões, nas praias, na bola de futebol, nos desfiles de carnaval em boa parte sustentados pela contravenção do jogo do bicho e do tráfico de drogas. Geralmente, um país torna-se uma nação depois de viver episódios históricos penosos, guerras de libertação, resistência a invasores, busca de independência. Cria-se a partir daí uma comunidade nacional, a partir de quase nada. Ao brasileiro parece faltar esse sentido de destino comum. Pouco lutamos nos episódios marcantes de nossa história, a Independência, a abolição da escravatura, a República. Nos primeiros anos depois da descoberta, chamavam-se brasileiros os comerciantes de pau-brasil. Rapinavam a terra (gozavam a mãe sem o interdito do pai, no linguajar da Psicanálise) e extinguiram a preciosa madeira que servia para fazer tinturas. Talvez seja necessário, tantos séculos mais tarde, marcando a diferença entre a cabeça destrutiva do corrupto, um malandro burocratizado, no dizer de Roberto DaMatta, e a cabeça construtiva do honesto, simbolicamente plantar uma muda de pau-brasil. É uma árvore majestosa, alta, belíssima: grosso tronco avermelhado, com muitas ramificações, generosa folhagem. Em se cultivando, dá.

[Faltam alguns boxes]

Superinteressante, edição 73, outubro de 1993. Copiado e colado de http://super.abril.com.br/superarquivo/1993/conteudo_113778.shtml