Os gafanhotos são nossa praga secular

(Arnaldo Jabor – O Estado de São Paulo, Caderno 2, D 6, 09/12/2003)

Estamos debaixo de uma chuva de gafanhotos. De cada buraco aberto enxameiam, as lacraias se esgueiram e escorpiões exibem seus ferrões. O caso de Roraima é exemplar[1], é uma aula de Brasil, porque ajuda a desmoralizar a velha idéia de que o crime contra a “coisa pública” é um pecado, um desvio de conduta. Não é. O ataque ao dinheiro público é uma prática normal, comum, um velho hábito brasileiro que vem à tona com essa praga de insetos de Roraima. Essa roubalheira é tão extensa, tão geral que revela o País “em negativo”, exibe o Poder Público ao avesso, com suas mesmas funções de gestão, só que é uma organização que, em vez de governar, rouba a população. Funciona muito bem para esfolar o povo, chega a nos dar uma sinistra admiração, um quase orgulho: “Como roubam bem, que eficiência!… Se governassem com essa presteza, o País estaria salvo”. Até o horror dos crimes violentos das favelas e periferias nos distrai do principal, pois o verdadeiro crime organizado é esse, “limpinho”, de gravata, feito pelas quadrilhas políticas que sugam o País de canudinho.

Muitas autoridades que prendem ou julgam os bandidos algemados, com cara enfiada na camisa, dão rombos no País maiores que os crimes dos pés-de-chinelo que nos horrorizam. Ser canalha é um modo de vida, um jeito brasileiro muito nosso de viver, com uma ética e uma estética próprias, com ideais, sonhos de consumo, metas existenciais. O canalha brasileiro não é uma exceção; é uma regra. Os canalhas, os espertalhões se torcem “pepinos”, a malandragem é uma “virtude” a ser conquistada. O sujeito se prepara desde jovem, lê os livros sobre guerra e vê a paisagem política como uma grande roça a ser devorada. Ficam indignados quando são chamados de marginais; eles sabem que estão na base do “Sistema”. Já vi canalha berrando: “A gente faz as coisas andarem. Sem grana, sem gorjeta não há progresso…”. A “República” é apenas um pretexto para o saque. E todo o sistema jurídico e institucional está montado para manter esse ideal vivo. Temos de traçar uma sociologia do canalha brasileiro, quase uma antropologia. A academia se aplica em estudar as injustiças sociais, mas devia estudar aqueles que a provocam. Estão a nos dever a história da escrotidão nacional.

O canalha brasileiro não se acha um canalha. Ele é antes de tudo um forte. Sabe se defender com muito mais garra que os honestos bobos que confiam no Bem. O canalha brasileiro se acha no direito de sê-lo. Há, atrás dele, 400 anos de leis e práticas patrimonialistas e oligárquicas que nossos portugueses nos trouxeram. O canalha tem tradição; eles se consideram mais “autênticos” que esses juízes jovens e sérios, essa “bossa nova” de procuradores da República discretos e competentes. No fundo do coração, ele acha que roubar o Estado é uma causa nobre, secular, um ato quase “revolucionário”, pois “se o dinheiro não é nosso, tudo bem… eu pilho e arrebento”. O canalha brasileiro é quase um orgulho nacional. O corrupto, o ladrão é olhado com fascínio nas churrascarias. O canalha entra triunfante entre picanhas e chuletas e os executivos sussurram: “Olha ali! Aquele é o maior gatuno, cara!”. E o outro: “É… ele rouba, mas é ‘espada’, é craque, dá nó em pingo d’água!…”. E o canalha flutua esfuziante entre os garçons, sob os olhos encantados das mulheres. Seu descaso luminoso nos extasia. Já o honesto não faz sucesso nem na casa dele. Já vi muita mulher dizer aos berros: “Você não é honesto, não… Você é burro…! Vamos acabar na ‘rua da amargura’ com essa sua mania de honestidade!”. E o pobre-diabo, humilhado, vai chorar atrás da porta.

O canalha é cordial, boa-praça, te bate na barriga, ri muito, te empresta dinheiro: “Toma… toma… leva… depois a gente acerta!”. O canalha sai na Caras, o honesto ninguém vê. O canalha alegra a nossa vida com a exibição de suas riquezas: os paletós de comodoro com escudinho, a Mercedes com “cascatinha artificial e filhote de jacaré”, com suas amantes de Vuitton falsificado. O honesto morre desconhecido. Ou é visto com certa desconfiança. “O que esse cara metido a ‘Caxias’ está querendo provar? Algum interesse ele tem…”.

Já o canalha nos fascina com sua “revolução ética”. Pensamos: “Meu Deus… em que maravilhosos mundos sórdidos esse homem teve a coragem de entrar… Como ele deve ser interessante sem nossos escrúpulos pequeno-burgueses”. O charme de Arsène Lupin ainda rola, o gentleman cambrioleur. O canalha adora a democracia, que ele considera uma espécie de geléia geral, uma zona. A democracia não oferece perigos, com seu emaranhado de leis malandras forjadas pelos nossos ancestrais.

Até mesmo os escândalos periódicos nos jornais e TV ajudam os ladrões “normais”; essas maracutaias descobertas nos animam com a “transparência” democrática, mas podem desviar nossa atenção das roubalheiras silenciosas, legais, legitimadas pelos códigos e regulamentos, essas sim, terríveis e eternas. Os escândalos nos dão a impressão de que algo está mudando, quando muda pouco, pois ninguém vai em cana no final. O grande caldo de cultura dos gafanhotos é a certeza da impunidade. É impossível coibir essa gente sem mudar as instituições. Não se trata de um caso de polícia; é um caso de reforma política urgente, urgentíssima reforma do Judiciário.

O gafanhoto brasileiro, o corrupto endêmico não tem partido político. Vive acima das ideologias. Nem de centro nem liberal, ele se orgulha de não ter sentimentos, essa coisa que só atrapalha os negócios. Nosso querido canalha nacional está aquém das classes sociais, nasceu muito antes das lutas políticas. Ele é feito de uma pasta essencial, um barro colonial primitivo e tem a grandeza da vista curta, a beleza dos interesses mesquinhos, tem a sabedoria dos porcos e das toupeiras. Por isso, é invencível.


[1] Visitar http://www.perguntascretinas.com.br/2007/09/13/lista-da-corrupcao-do-governo-nos-ultimos-35-anos/

e http://www.jornalorebate.com.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=1317&Itemid=47

e http://www.cir.org.br/noticias.php?id=362, de onde destaco:

Corrupção em Roraima

Várias lideranças em Maturuca questionaram a classe política de Roraima por usar o falso argumento de que a demarcação das terras indígenas é um empecilho ao desenvolvimento. O professor macuxi, Edinaldo André, apontou a corrupção como sendo a grande inimiga do desenvolvimento estadual e ressaltou que o discurso contra a homologação tem a intenção de desviar a atenção da prática dos corruptos.

A ouvidora geral da república, Dr. Eliana Pinto, informou que retornava de Roraima assustada com as denúncias de corrupção envolvendo os órgãos públicos. “O que impede o desenvolvimento de um ente da Federação é a corrupção. Combatê-la é o nosso desafio”, propôs. A ouvidora vai elaborar um relatório e encaminhar ao presidente Lula e aos Ministros José Dirceu, Márcio Thomaz Bastos e ao Ministro Controlador, Valdir Pires.

Dr. Darlan Dias, Procurador do Ministério Público Federal reforçou a preocupação com a onda de corrupção no estado de Roraima. “Estou em Roraima há uma semana, mas já é tempo suficiente para perceber que o que atrasa o desenvolvimento de Roraima não são as terras indígenas e sim a corrupção. É uma vergonha que chega a escandalizar, um estado tão pequeno com um nível de corrupção tamanha”. O Procurador lembrou que a corrupção não se resume a “Folha dos Gafanhotos”. “Infelizmente esse não é o único caso. As pessoas de bem tem que romper as barreiras burocráticas para combater a corrupção”, finaliza”.

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