A bênção, Dom Aloísio! Descanse em paz sábado, dez 29 2007 

Para esse PADRE, não adianta, mais, colocar a mão na cintura e pedir a presença dele, para nos ajudar a combater a miséria financeira e intelectual, bem como para combater a injustiça que essas misérias geram.
 
– Sinhá, cadê seu padre?
– Se você queria o D. Aloísio Lorscheider, lúcido e valente, terá que rezar pela alma dele.
 

MEMÓRIA

D. Aloísio Lorscheider, lúcido e valente

D. Aloísio foi um teólogo que entendeu a caminhada do povo de Deus e ficará como um marco numa Igreja que terá que se renovar e superar simplismos e medos de certos temas, para saber enfrentar os desafios deste século XXI.

Luiz Alberto Gómez de SouzaData: 24/12/2007

Eu trabalhava com D. Hélder, numa daquelas salas escuras do Palácio São Joaquim, quando ele nos anunciou: “quero apresentá-los o jovem bispo de Santo Ângelo, da zona missioneira do Rio Grande, importante teólogo, que será uma figura central na Igreja do Brasil”. Tínhamos diante de nós um bispo alto, fala com sotaque forte da região alemã e, por que não dizê-lo, um tom de voz meio estranho. Creio que foi no meio do Vaticano II. Logo se faria entender na Conferência dos Bispos, com intervenções lúcidas, a ponto de ser eleito secretário geral da CNBB. Tempos da ditadura e da repressão. Sua fala mansa escondia uma firmeza e uma precisão que deixavam os presidentes militares irritados. Outro gaúcho, este de poucas luzes, que não via além das cavalariças, Médici, o expulsou irritado de sua sala. D. Aloísio passou depois a presidente da CNBB, em dobradinha com seu primo, Ivo Lorscheiter, como novo secretário geral. Sobrenomes quase iguais, um com d, outro com t, eram da mesma família. Nunca foi tão apropriada essa combinação de parentesco, idéias e complementariedade. Ivo era mais explosivo, Aloísio falava manso. Entendiam-se sem precisar falar um com o outro. Dois valentes em tempos de chumbo.

Ivo recebeu o patriarca de Veneza, Albino Luciano, em sua casa em Santa Maria e quando morreu Paulo VI, este votou várias vezes, no conclave, no primo dele, Aloísio. Estava no ar seu nome para papa. Alegavam alguns, que pensavam em italianos, que tinha problemas de coração, passara por um enfarto. Queriam afastar a ele e ao Cardeal Arns , dois franciscanos, como possíveis e perigosos papas. Foi eleito o patriarca, que viveu 33 dias em Roma. Nova eleição e voltou o nome de Aloísio. Novamente levantaram o pretexto de saúde, agora agravado pela morte fulminante de João Paulo I. Preferiram um polonês jovem que era esquiador e que instalou-se no papado por mais de um quarto de século. Mas a verdade é que partiu antes de D. Aloísio e seu pontificado foi, como disse alguém, a volta à grande disciplina.

Os dois se encontraram na reunião dos bispos em Puebla, janeiro de 1979. O novo papa chegou falando duramente em seu discurso. Lembro como vários de nós, que estávamos ali, do lado de fora, assessorando oficiosamente bispos amigos, ficamos desalentados e pessimistas. Foi o grande teólogo Gustavo Gutiérrez quem deu ânimo. O texto do papa tinha três partes, duas negativas e a terceira abrindo caminhos. Nosso peruano, com a resistência índia diante de tantos anos de dominação, deu a chave: ler as duas primeiras partes à luz da terceira! Mas o grande momento estava por vir, no dia seguinte. D. Aloísio, nesse momento, era presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). Fez um discurso curto e claro, abrindo os trabalhos. Era hora, disse ele, de pensar com liberdade e ousadia os graves problemas de nossa região. Liberou a assembléia e entrou uma luz que abriu portas e janelas.

Alguns bispos mais conservadores, depois do discurso do papa, chegaram a dizer que agora bastava tomar seu texto e publicá-lo como documento da assembléia. O plenário não aceitou e Puebla, confirmando a reunião anterior de Medellín, denunciou o pecado social do continente, fez a opção pelos pobres. e anunciou as comunidades eclesiais de base como instrumentos de evangelização e de transformação. Graças em boa parte ao clima que D. Aloísio criou e a um grande bispo que iria ser seu sucessor na CNBB anos mais tarde, Luciano Mendes de Almeida, na comissão coordenadora dos debates.

Pela política vaticana, nunca foi nomeado para Rio ou São Paulo, mas ficou em Fortaleza, que pela primeira e talvez única vez teve um cardeal. Depois, o mandaram para Aparecida, diocese mais honorífica que importante. Seu primo também nunca chegou a arcebispo de Porto Alegre, preterido por bispos anodinos e morreu bispo em Santa Maria. As cúrias temem figuras fortes. D. Hélder , como mais tarde D. Luciano, não veio ao Rio, nem foi cardeal, ainda que, ao que parece, João XXIII o chamou uma vez de “il mio cardinalletto.”

Nos últimos anos, D. Aloísio partiu para o convento franciscano de Porto Alegre, onde morreu. Mereceria uma biografia, como algumas que foram surgindo, do Cardeal Arns, Hélder Câmara, Waldyr Calheiros e vários outros. Através delas podemos reconstituir uma época gloriosa da Igreja Católica brasileira. Não sou pessimista, achando que as grandes figuras ficaram no passado. Alguns se referem às nomeações de bispos conservadores. O que esquecem é que vários bispos, como D. Hélder ou D. Romero, vieram de posições tradicionais e o trabalho pastoral e o povo de Deus os converteram. Tenho feito reparos a uma posição política de D. Cappio, misturando Fé e posições de cidadania, valentes sem dúvida, ao mesmo tempo que insisto em seu carisma, junto com valentes bispos hoje aposentados e outros como Erwin Keutler, Demetrio Valentini ou Mocyr Grecchi, que aí estão para sinalizar posições significativas.

Mas o importante não são apenas bispos, o que seria uma visão de cima para baixo, mas a ação eclesial de pastorais, CEBs e movimentos, renovando e abrindo caminhos. Esse trabalho nas bases tem aberto os olhos de pastores e clero. D. Aloísio foi um teólogo que entendeu a caminhada do povo de Deus e ficará como um marco numa Igreja que terá que se renovar e superar simplismos e medos de certos temas (sacerdócio de mulheres e casados, sexualidade, reprodução, ecumenismo), mantendo a opção pelo pobre e excluído, para saber enfrentar os desafios deste século XXI. Isso sem misturar planos, mas aceitando que vivemos numa sociedade secular laica, onde a Igreja tem de renunciar a ressaibos de velhas cristandades e, humildemente, dar testemunho aos lado de tantos “homens e mulheres de boa vontade”, para usar a expressão de João XXIII, que também anunciou primaveras pela frente.

* Luis Alberto Gómez de Sousa, sociólogo e ex-funcionário das Nações Unidas, é diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes.

A Capelinha do Carreiro em Itu / SP sábado, dez 1 2007 

 

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Todas as fotos são da Capelinha do Carreiro, de janeiro de 1996, após Agenor Bernardini tê-la restaurado.

As fotos são do acervo da Família Bernardini e foram tiradas pela filha, Maria Regina Bernardini, a pedido do pai.

Posteriormente, três das fotos foram utilizadas para a confecção de postais que Agenor Bernardini enviou a amigos, parentes e deixou à disposição dos fregueses de seu estabelecimento comercial.

Infelizmente, a família Bernardini não tem, em seu acervo, um exemplar do jornal A Federação em que o texto enviado por Agenor Bernardini foi publicado, sob o pseudônimo de Spartacus, o pseudônimo com o qual combateu, por escrito, nos jornais de Itu, os descalabros, o autoritarismo da ditadura a partir de 1964. Agenor Bernardini foi um dos fundadores do MDB em Itu / SP.

 

Capelinha do Carreiro

(Spartacus)

            Ela está situada na Estrada do Jurumirim (atual Av. Brasil Bernardini), no Bairro do Pedregulho, em nosso Município, próximo à “Lagoa Água Podre”, que somente se forma nas épocas de muitas chuvas, atraindo aves silvestres de vida aquática, como acontecia desde épocas imemoriais, quando a região era coberta de mata.

            A tradição sempre confirmou que a capelinha foi erigida para abrigar a “Santa Cruz” fincada no local onde um “carreiro” (condutor de carro de bois) perdeu a vida, exercendo sua atividade; sem que conhecesse a data exata, sempre foi afirmado que o fato havia acontecido em fins do século passado, e ficou conhecida como “Capelinha do Carreiro”.

            Do alto do barranco que margeia a estrada, de construção simples, a Capelinha viu nascer o Século XX, assistiu à passagem de alegres cortejos de charretes, cabriolés e troles conduzindo participantes de casamentos, batizados e outros acontecimentos festivos, bem como de tristes e silenciosos desfiles de enterros. Hoje, presencia a passagem de veículos motorizados (carros, caminhonetes e motos) conduzindo proprietários de chácaras de recreio em que foram divididos os antigos sítios oriundos da divisão de grande Fazenda que ocupava toda a região, desde Itu até Salto e Indaiatuba, e também os freqüentadores do camping instalado na antiga Chácara Bordini.

            Perto de assistir à entrada do novo século [este texto foi produzido no ano de 1996], ela lá continua simples e modesta como sempre, mas sólida, como são as coisas autênticas, conservada pelo espírito religioso dos moradores da região, que sempre a reformam quando sua integridade parece perigar; deverá lá permanecer, até o final dos tempos, simbolizando o respeito à memória de um humilde carreiro, no mesmo local onde este perdeu a vida, isso numa época longinqua em que a vida humana ainda tinha valor.

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N. da R. – Pelo leitor que assina a crônica acima foi entregue ao arquivo deste jornal [A Federação] um recorte do “O Estado de São Paulo” do dia 09.06.1996, onde, na Seção “HÁ UM SÉCULO”, é transcrita a notícia de nossa cidade, dando conta, na edição de 09.06.1986, de um desastre que resultou a morte de Francisco Pinto de Camargo, de 32 anos, que conduzia um carro de bois, do qual caiu e foi atingido por uma das rodas, que passou sobre seu peito. Também juntou Atestado de Óbito, lavrado no Cartório de Registro de nossa cidade, assinado pelo Dr. Octaviano Pereira Mendes, em data de 29.05.1896, confirmando a mesma notícia publicada pelo jornal. Tudo confirma que a construção da “Capelinha do Carreiro” teve mesmo origem neste episódio noticiado, há um século, pelo jornal “O Estado de São Paulo”.