Este texto precisa ser atualizado, para incluir os piolhentos hackers, crackers, psicopatas que querem porque querem nos usar como escadas, corrimões, trampolins.

On-line ou off-line, tem piolhento desligando meu micro à distância.

A próxima desligada será a quarta!

Vade retro, piolhento!

 

 

 

Os piolhentos e nós

“Já vi criança queimada… queimada de cigarro… machucada com tiro no pé, que o pai deu… criança com piolho, aqui tem muito piolho…”

(Depoimento de uma mulher para o trabalho da Secretaria do Menor no Jardim São Luís, em São Paulo [que ex-governador piolhento pensa que é o responsável pelo trabalho honesto de outros, se apossa dos trabalhos e se autopromove às custas dos outros, como outros parlamentares contemporâneos, ou será a maioria dos parlamentares contemporâneos? C. R., deputado federal piolhento, suas ações sorrateiras estão prejudicando minha família, só porque tenho asco de você. Foi bom para você e para seus lacaios nativos, as ratazanas de esgoto? Está no meio da concessão? Não duvido, pois suas “fontes de renda” incluem prejudicar o restante da sociedade organizada e beneficiar o crime organizado])

 

De: Fernando Pacheco Jordão

            Logo nas primeiras páginas de seu livro De Beirute a Jerusalém, recém [março de 1991] lançado no Brasil, o jornalista americano Thomas Friedman descreve seu espanto ante a violência do seqüestro de um homem por um bando armado, em Beirute, à luz do dia, sem que ninguém esboçasse a menor reação. E registra o comportamento do motorista do táxi em que viajava. Mudo, retido num engarrafamento, limitou-se a acompanhar a cena pelo canto do olho. Não fez comentário algum. Friedman comenta que na convivência cotidiana com episódios como aquele, banais na guerra civil de Beirute, a pessoa aos poucos tece para si um colete emocional que lhe permite atravessar imune essa rotina de violência.

            Aqui, fazemos mais ou menos o mesmo. Tecemos nosso colete de indiferença, erguemos nossas cidadelas para morar e nos julgamos a salvo de uma guerra que imaginamos confinada ao terreno dos que queimam suas crianças com cigarros e chegam a lhes dar tiros nos pés.

            Até o dia em que invadem nossos muros, estupram nossa filha, e outros caem de pancada sobre nossa mulher, como costumam fazer com quem lhes pareça delinqüente. Só aí reagimos [Sinhá, cadê seu padre?], com a mais justa das indignações. E perguntamos: será preciso erguer mais os muros da cidadela? [instalar cerca elétrica; contratar segurança privada que, muitas vezes, têm funcionários piolhentos, quando os donos e sócios não são os piolhentos maiores, dão péssimos exemplos aos funcionários e ficam indignados porque os funcionários não sã honestos; instalar câmeras de vigilância com piolhentos vigiando as imagens, vendendo-as para a mídia piolhenta; quando nossos representantes eleitos, em todasas esferas, cometem crimes e se auto-protegem; quando o corporativismo é um trunfo para que nenhum criminoso seja punido?] Ou, quem sabe, mudá-la para mais longe? Na verdade, nunca fazemos a pergunta crucial: o que temos a ver com esta guerra?

            Os dois recentes casos de violência [fevereiro de 1991] que vitimaram em São Paulo pessoas de classe média – o assassinato da jovem estudante de Alphaville e a agressão policial à mãe de uma criança que buscava o filho na escola, na Avenida Higienópolis – convidam à reflexão sobre os perigos do individualismo suicida que cada vez mais nos contamina o tecido social.

            Não se trata de invocar injustiças sociais para justificar violências e pedir clemência para seus autores. Nada disso. Trata-se simplesmente de lembrar que, por mais que nos isolemos, por mais que nos escondamos atrás dos muros, não dá para fazer de conta que nosso universo tem a dimensão de nossos domínios particulares. Não dá para ficar espiando pelo canto do olho, como o motorista de Beirute, indiferente ao que se passa além-fronteiras da nossa cidadela. Não por caridade ou amor ao próximo, mas porque, em nosso cotidiano, dependemos a todo momento dos piolhentos que catalogamos como uma sociedade à parte.

            Podemos pagar escolas particulares. Por isso, que se dane o resto.

            Mas amanhã, um piolhento lesado por um ensino público falido vai ser nosso funcionário ineficiente. Sua irmã piolhenta e semi-analfabeta vai ser a babá de nossos filhos. Podemos pagar seguro-saúde privado. Que se dane o resto. Mas, amanhã, um piolhento desses será nosso enfermeiro de cuja formação precária vamos precisar num hospital. Assim como um piolhento se torna assassino e outro, fardado, esbanja truculência. Nosso individualismo burro condena os piolhentos a uma marginalidade social que, cada dia mais, se volta contra nós mesmos, em prejuízo de nosso próprio conforto material e de nossa qualidade de vida. É algo introjetado no caráter da classe média brasileira: não nos importamos com o social – o público – porque nos iludimos achando que garantimos nossa sociedade com o pagamento da fatura do privado. Ao contrário do que Thomas Friedman descobriu na guerra de Beirute, na nossa guerra não há colete emocional nem físico que resista. [E piolhento acredita, mesmo, por questão de lucro pessoal, que privatização é o que importa.] 

(Jornalista Fernando Pacheco Jordão. Publicado em O Estado de São Paulo, 22/03/1991, n.º 35.614, página 02.)