Um retrato da praça tem a sua graça

(Anônimo)

 

                O freguês escolhe a pose. Sozinho ou acompanhado. De pé ou sentado. Se quiser sorrir, sorri. Se não quiser, fica sério. E se precisar de um acessório, o seu Honorino dá um jeito.

– Quer tirar de gravata?

– Acho melhor. É para dar pra noiva.

– Toma lá.

                Seu Honorino tem uma gravata pronta para estas ocasiões. Ajuda o freguês a fazer o laço. O freguês quer se pentear? Seu Honorino empresta o pente e segura o espelho. Depois diz para o freguês não mexer e vai para trás de sua máquina. O freguês fica duro.

Sempre tem uma criança que pára de boca aberta para ver seu Honorino trabalhando. Ele prepara a chapa, insere a chapa na sua armação de madeira, destapa a lente, tapa outra vez, diz “Pronto” para o freguês, depois desaparece dentro do pano preto atrás da máquina.

Visto de uma certa distância, seu Honorino com a cabeça enfiada na máquina sobre o seu tripé parece um monstro de cinco patas. Um estranho centauro de praça, metade câmera fotográfica. As crianças se perguntam o que ele faz dentro do pano preto. Boa coisa não pode ser, pra fazer escondido.

– Ele está lambendo.

– Lambendo?

– É. É tudo feito com “guspe”. E ele aproveita para comer escondido, ali dentro. E come feio.

Mas seu Honorino, quando reaparece, não tem cara de quem andou fazendo coisa feia. A foto está pronta. Digna de um noivo. De gravata.

Tem vezes em que, depois de um batizado, o pessoal sai da igreja direto para a praça e posa para o seu Honorino. A madrinha segurando a fera, o padrinho do lado e o resto da família se espremendo para caber na chapa. Alguém grita: “Olha o passarinho!” e o seu Honorino sempre faz a mesma coisa: olha para o céu e finge que está procurando.

– Onde? Onde?

Quando a pose é de casamento, seu Honorino manda apertar de um lado, apertar do outro, e depois diz:

– Vamos, gente, que o noivo está com pressa.

E todos dão risada, e a noiva tapa a boca para rir também.

Seu Honorino ainda não fotografou nenhum rei, mas capitão, soldado e ladrão, já. Preto, branco, japonês, baixo. Alto, gordo, magro e manicure. Anões gêmeos, mulher com o cachorro no colo, uma feia que quando viu a foto quis bater no seu Honorino, namorados, família, solitários, certa vez até um macaco de chapéu.

E uma vez apareceu um velhinho pedindo:

– Me retrata.

– Sim senhor. Que tipo de moldura o senhor quer?

O freguês pode escolher vários tipos de moldura para a sua foto. Simples, com rendado, redonda… O velhinho escolheu uma moldura em forma de coração.

Quando seu Honorino destapou a lente, o velhinho sorriu. E na hora de entregar a foto pronta, seu Honorino brincou:

– É para uma namorada?

– Não, é para minha mãe…

Outra vez apareceu um homem carrancudo e perguntou se podia ser com moldura preta. Podia. Seu Honorino pediu para o homem não se mexer, foi para trás da sua máquina, preparou a chapa, e só quando ia destapar a lente viu que o homem estava botando a língua. Saiu a foto com moldura preta do homem botando a língua para Deus sabe que desafeto, porque seu Honorino não teve coragem de perguntar.

Seu Honorino lambe-lambe vai retratando todo mundo.

– Quer tirar de gravata?

– Não precisa. É para mim mesmo e eu já me conheço…

 

(In Estórias do povo brasileiroVeja, n.º 412, julho de 1976. Apud: A interpretação do texto e o pretexto – Agostinho Dias Carneiro e A. Farias, Volume 1, Guia do Professor, Ao Livro Técnico S/A, Rio de Janeiro, 1979. Ilustração: crédito para o livro A interpretação do texto e o pretexto.)

 

Observação: o autor (anônimo) empregou a forma “guspe”, em lugar de “cuspe”, para registrar a pronúncia natural das crianças.

 

 
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