Não é ninguém, é o padeiro!

 

            Estive à procura deste texto por muito tempo. Utilizei-o em uma avaliação escrita, quando ministrava aulas na escola “Convenção de Itu”. Encontrei-o – e tomei conhecimento dele – por causa da coleção de livros didáticos Descoberta & Construção, volume para 7.ª série, na época, do Ensino Fundamental. Do autor Tadeu Rossato Bisognin, Editora FTD, São Paulo, o ano da edição do Livro do Professor que possuo é de 1991.

 

            Na apresentação do pretexto para Estudo do Texto, Para fixar Palavras do Texto, Ditado Pega-Moscão, Produção de Texto, Dica 14 (sobre separação de sílabas se a palavra possuir ditongo, tritongo), Para complementar o Estudo da Língua do texto, cujo título original é “O padeiro”, de Rubem Braga, Apud: Ai de ti, Copacabana, Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1960, lê-se:

            “Todos têm seu valor, independentemente da atividade que exercem. Qual o trabalho mais importante, o do padeiro ou o do jornalista? Questões que parecem ofensivas podem ser consideradas normais, dependendo de como são encaradas?”

 

            Antes de iniciar a transcrição do texto, que vale como reflexão não apenas para a importância das profissões, seria interessante observar que, pelo menos na metrópole [ironia] em que resido, no centro da cidade, transformado em “área comercial” e, portanto, de pouco interesse para os políticos medíocres que ocupam cargos eletivos, pois é uma “área que não dá voto”, visto que os estabelecimentos comerciais concentram funcionários que não interessam receber atenções (não moram ali, certo? que os donos dos estabelecimentos se danem se os direitos não são respeitados, se as associações de classe, os sindicatos não cumprem as funções, não é mesmo? afinal, ninguém reclama, ninguém tem voz audível quando reclama, deixem os carros de som esbravejar, deixem os psicopatas, de megafone, berrarem suas filosofias baratas, porque “nóis carrega a cruiz com crasse”) não há mais padeiro entregando pão há muitos e muitos anos. Os armazéns e os mercadinhos foram engolidos por supermercados que se transformam em hipermercados que têm, inclusive, padaria e pão e por aí afora. Afinal, moramos numa província metida a metrópole.

            Só nessa colocação do parágrafo anterior já daria uma discussão acalorada, dentro e fora de sala de aula, sobre direitos, cidadania, conservação, preservação e “progresso” de profissões.

 

            Estabelecida, na apresentação do texto no livro didático de apoio, que a discussão será sobre o valor de atividades exercidas, neste caso comparadas as profissões de padeiro e de jornalista, o pretexto “O padeiro” serve para outras reflexões que permitiriam colunas e colunas de crônicas de quem tem leitura da palavra escrita e leitura do mundo.

           

Neste caso específico, a reflexão deve ser a de jamais ser permitido que alguém faça pouco de nós, porque somos alguém, porque não podemos calar diante de recalcados que nos usam para resolver seus recalques. Acima de tudo, sempre, agir como se não fosse melhor nem pior do que ninguém, como se não fosse mais nem menos do que ninguém. Apesar dos recalcados que insistem em nos menosprezar, nos diminuir, nos desrespeitar.

 

O padeiro

(Rubem Braga)

Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

– Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo? “Então você não é ninguém?”.

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “Não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim, ficara sabendo que não era ninguém…

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação do jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina – e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

Ah, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar: e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”. E assobiava pelas escadas.

Título original é “O padeiro”, de Rubem Braga, Apud: Ai de ti, Copacabana, Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1960, in Descoberta & Construção, volume para 7.ª série, autor Tadeu Rossato Bisognin, Editora FTD, São Paulo, 1991.

 

DADOS SOBRE O AUTOR: Rubem Braga, um dos maiores cronistas brasileiros, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim (ES) em 1931 e faleceu em 1991. Formado em Direito, dedicou-se ao jornalismo e à diplomacia. Dentre seus livros, destacam-se O conde e o Passarinho, Um Pé de Milho e A Cidade e a Roça.