Se as notas não forem lidas, torna-se impossível entender o que Iberê contou e interpretar o texto, refletir sobre o texto.
 
Eu, também, sou assim: deveria ter notas explicativas por todo o meu corpo, pois os imbecis me interpretam de acordo com suas limitações intelectuais e seus desvios morais.
 

Transformei este texto numa das avaliações escritas mais bem elaboradas de minha vida de Educadora. Tomadora de sorvete pela testa, ainda tenho esperança de não ter jogado pérolas aos porcos com relação aos alunos sob minha responsabilidade (não os que já eram lacaios do crime organizado). Joguei, sim, pérolas aos suínos capados, para os praticantes de politicalha assassina, aqueles que marginalizaram e marginalizam a possibilidade de que TODOS recebam informações, como no caso do “Entulho precioso”, em que a informação ficou restrita aos que praticam politicalha assassina, aos que esperam ser os que ganharão com o entulho precioso e prejudicarão, como sempre, os que precisam ter acesso a moradia.

No entanto, foi um dos retornos mais decepcionantes, da parte dos alunos de Ensino Médio, no sentido de defasagem de leitura e de entendimento de texto (supostamente, estavam na escola há dez anos ou mais), apesar de toda a estratégia de leitura do texto PARA os alunos, COM os alunos e leitura silenciosa dos alunos, antes de interpretar, por escrito, o texto “Cartão de Natal”. Quanta miséria, Deus, provocada pela politicalha assassina que marginaliza os alunos e permite que os que praticam politicalha assassina ganhem votos e dinheiro público!

Não reproduzirei a interpretação de texto, porque cópias do que elaborei foram distribuídas a impotentes intelectuais, lacaios do crime organizado, que usaram essa minha atividade pedagógica para apresentar como de suas autorias.

 

Cartão de Natal

(Iberê Camargo)

“Um muro se ergue à minha frente, na curva do caminho…”

Pierre Teilhard de Chardin

            Sexta-Feira, 5 de dezembro de 1980.1 Tenho o hábito arraigado de andar pelas mesmas ruas, de freqüentar os mesmos lugares, como se deles não pudesse me afastar. Mas, nesta sexta-feira do mês natalino, decidi, para abreviar o caminho, percorrer uma rua pela qual não costumava transitar.

            ¾ Hoje, faremos um caminho diferente ¾ disse à minha auxiliar.

            Não imaginava que, ao mudar o rumo de meus passos, mudaria, também, o de minha vida.

            Vou ao encontro do destino, de coração alegre, conduzido pelas mãos inocentes de crianças pobres que pintam cartões de Natal para vender.

            Parece que o instante está prefixado no tempo, “na curva do caminho” de que fala Chardin.

            Sigo despreocupado, pensando nos amigos que à noite viriam jantar conosco. Pretendia regressar a casa mais cedo para recebê-los. Caminho, pois, com meus pensamentos, surdo ao tumulto permanente da rua. Levo a paz no coração, o silêncio na alma.

            O céu está claro, luminoso, azul. Nenhum sinal de borrasca, nenhuma nuvem no céu que esconda o sol e ensombreça a terra. Na rua, nenhum prenúncio do que se avizinha célere, do que está para acontecer, como no cenário das tragédias que vaticinam o drama. Meu drama não foi escrito pela mão do homem.

            A violência que se desencadeou alhures2 aproxima-se sem que eu a veja.

            Ela se oculta atrás dos muros, como fazem os salteadores. Caminho com meus pensamentos, com meus sonhos.

            São três horas da tarde.

            Eis que, de imprevisto, saído não sei de onde, como se rompesse uma barreira, desaba sobre mim um formidável vendaval de força física, um impacto que me aterra, que me arrasta no vórtice3 de uma fúria, que me arremessa ao chão, que me dilacera e me enche os olhos de espanto e medo.

            Ergo-me. Acossado, recuo. Hesito, vacilo, sem nada compreender. Ando com passos titubeantes. Ressoam dois tiros no ar morno daquela tarde que se imobiliza para sempre na memória.

            O homem, atingido, estremece, ergue-se no ar como se impulsionado por uma onda invisível. Um urro inumano reboa e antecede a sua queda.

            Agora, o homem seminu procura erguer-se. Com esforço, põe-se de joelhos, inclina-se para a frente, apoiando-se nos braços. As mãos tateiam o asfalto. A cabeça lhe pende. A respiração é curta, difícil, ofegante. Seus esforços são vãos. Fogem-lhe as forças. Do amplo dorso brotam, sem parar, sutis filetes de sangue – uma vertente, a fonte da vida que se esvai. Eu permaneço petrificado, mudo, como se uma catapulta me houvesse projetado para fora do tempo.

            Deixo-me levar. A provação chegou. Agora, o cansaço, uma lassidão me invade.

            Doravante, sou arrastado no caudal dos acontecimentos, na voragem do noticiário, no frio formalismo da Justiça. Provo, então, o amor e o ódio, a compreensão e a incompreensão, o insulto, a infâmia. A verdade e a mentira da notícia misturam-se na versão que adultera o fato.

            Presto depoimento na delegacia do bairro. As testemunhas se omitem, mentem pelo silêncio. A imprensa, cruel e insaciável. Alguns cronistas vomitam um ódio até então insuspeitado.

            Perseguido por repórteres, sou conduzido ao Ponto Zero, um velho casarão em Benfica.

            À entrada do túnel, o carro que me conduz sofre uma pane no motor. O advogado que me assiste põe-se a rezar o terço, coisa inusitada para mim.

            Finalmente, chego ao velho casarão. Para alcançar a cela, que ocupa um amplo espaço no terceiro andar, galga-se uma escadaria de pedra. A cela compõe-se de várias dependências, separadas do vasto salão de entrada, onde permanece a guarda, por uma grade de ferro que toca o teto. Nesse recinto, ocupado por quatro ou cinco presos, arma-se um leito, que me é destinado.

            Minha mulher e meus amigos que me acompanharam retiram-se com palavras de carinho. Agora, estou só entre estranhos. Exausto, deito-me de costas e cerro os olhos para evitar a luz da lâmpada, que permanece acesa, como uma lâmpada votiva, em vigília. O sono não vem.

            A noite é longa. Eu a atravesso insone, mergulhado na minha escuridão interior.

            Tenho fixa, na retina, uma cena que repete, sem cessar, que passa e repassa interminavelmente. Uma imagem obsessiva, cruel, que reverte a marcha do tempo: um corpo enorme que se ergue e se abate com o vagar da árvore que tomba. Mostra um dorso flagelado, mãos enormes que se aproximam, ameaçam, suplicam. Essa cena se repete ao infinito, incrustada, indelével, no meu cérebro.

            O dia chega devagar. A luz, a princípio tênue, penetra sorrateira e ilumina as paredes sujas do cárcere, nelas projetando a sombra das grades que guarnecem as janelas, no alto do muro. Os desconhecidos companheiros ainda dormem em seus beliches. O calor é intenso. Recende um fétido cheiro de lixo acumulado de vários dias e um insuportável fedor de latrina.

            Experimento uma profunda solidão. Fora, o mundo deixou de existir.

            Após permanecer dois dias no Ponto Zero, sou transferido para o Regimento Marechal Caetano de Farias4, antiga fortaleza, hoje transformada em quartel. Conduzem-me para a cela X-2, onde estiveram presos, antes, alguns políticos notórios.

            Encontro aí, dois reclusos – um jovem e um preto de setenta e um anos, que se entretém em dar migalhas de pão aos pombos. Às vezes, rompe o silêncio, murmurando frases místicas, em que aprecem o nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.

            A cela é espaçosa, permanentemente iluminada pelo sol e convenientemente mobiliada com mesas, cadeias, geladeira e televisão.

            Sobre uma bancada, junto da pia, um fogareiro elétrico onde se esquenta o café. Nas prateleiras de madeira, xícaras, pratos, utensílios de cozinha. Percebo, ao chegar, que a televisão está ligada em alto volume.

            Para atender – soube-o depois – a um pedido do sentinela, que, distante, queria ouvir os programas.

            O pátio que se estende em frente à cela é limitado pelas quatro fachadas internas do prédio, formando um espaçoso retângulo, que serve para exercícios dos soldados. Pela manhã, os pelotões marcham entoando hinos, de cujas letras posso apenas distinguir: “Essa é uma corrida mixuruca”.

            Quando cheguei, achava-se de visita ao quartel um jovem capitão da PM, que, de imediato, com avidez, quis saber como tudo tinha acontecido.

            Tentei relatar o ocorrido, sem contudo conseguir: ele sempre me interrompia com novas perguntas, mostrando-se surpreso com o tipo de arma, que assumia, a seus olhos, desmesurada importância. Cansado de recomeçar a narrativa que apenas iniciara, disse-lhe de chofre:

            ¾ Cada um tem seu modo peculiar de narrar. Certamente, capitão, o senhor já leu alguns livros e sabe, portanto, que escritores há que escrevem longos prólogos, outros são menos prolixos e outros ainda mais breves. Outros apenas fazem uma dedicatória à mãe.

 

(Fonte: http://www.uol.com.br//iberecamargo/pensamento/p5.htm)

Atualizado em 27/11/2011, porque o “link”, acima, não funciona mais:

http://iberecamargo.org.br/content/artista/pensamentos_05.asp

Imensamente grata a quem acessou, pois me alertou para o problema com o link antigo.


 


1 Na tarde de 5 de dezembro de 1980, por volta das três horas da tarde, Iberê Camargo, acompanhado de sua secretária, Sueli Santos da Silva, 27, deixa seu atelier, na Rua das Palmeiras, pega a Rua Sorocaba, quase na esquina da Voluntários da Pátria, em Botafogo, à procura de cartões de Natal. Pouco depois, surge o engenheiro projetista do setor de mineração e metalurgia da IESA, Sérgio Alexandre Esteves Areal, 32, que, trajando apenas um short, interpela Iberê: “O que você está olhando?”. Ao que este respondeu: “Não estou olhando nada”. Depois de empurrar Sueli, Sérgio avança contra Iberê e o derruba no chão. Este, recomposto, pega a arma na capanga e ameaça: “Não vem que eu atiro”. O engenheiro investe, novamente, contra o pintor que dispara duas vezes um Smith-Wesson 357, do tipo Magnum, calibre 38. O pintor possuía porte de arma. Defendido pelos advogados Evandro e Técio Lins e Silva, foi absolvido, liminarmente, em sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça, pois prevaleceu a tese de que agira em legítima defesa.

2ALHURES  adv. Em outro lugar.

3 VÓRTICE s. m. 1. Redemoinho, remoinho, voragem: “Ébrios de prazer, alheados da realidade ambiente, ei-los que, envolvidos no vórtice das fascinações de momento, se julgam no melhor dos mundos.” (Sílvio Romero, Provocações e Debates, pág. 170.). 2. Sentido figurativo: furacão. “Como o calor força o ar a subir, em vez de descer, o vento pára e o vórtice se desfaz”. (GUERRA DOS VENTOS, “Como cozinhar um tornado no microondas”, Superinteressante, pág. 28, outubro/2000, ano 14, n.º 10.)

4 Em maio de 1981, Iberê expõe na Galeria do Acervo, Rio de Janeiro, 28 trabalhos feitos durante o mês em que esteve preso no Regimento Marechal Caetano de Farias: 21 desenhos registram cenas do pátio interno da prisão. Dois deles intitulados “Tranca Rua”, apelido de um prisioneiro, condenado por ter assassinado mendigos. Um óleo, “Hup”, assim batizado por captar os gritos dos soldados em exercício militar.

 
 
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