De acordo com o editorial "Nossos colunistas", de Época, 27/03/2006, o autor do texto "A armadilha socialdemocrata" é economista, coerente, liberal, um dos responsáveis pela escola de negócios IBMEC.
O texto está sendo inserido em meu blog, principalmente, porque discute IDÉIAS, sem citar nomes.
Na minha opinião, como não há interesse algum em mudar as regras eleitorais, melhor digitando, "eleitoreiras", é trágico não poder votar NA PESSOA de um determinado partido, porque, como leiga no assunto e por não dominar a linguagem "ténica", exponho o que muitos sabem expor e têm exposto na imprensa: ao escolhermos determinado candidato, seja de que partido for, o pobre coitado, muitas vezes, não é eleito e nosso voto se soma para eleger o mais trambiqueiro, o mais traficante de influência, o mais apoiado pelos criminosos do colarinho branco do partido a que pertence o pobre coitado que era nosso candidato.
 
SEU PAÍS

A armadilha socialdemocrata

PAULO GUEDES

O BRASIL É PRISIONEIRO DA ARMADILHA SOCIALDEMOCRATA de baixo crescimento. O aumento de 2,3% no PIB do ano passado praticamente reproduz a média anual de crescimento das últimas duas décadas e meia, do crepúsculo do regime militar aos dias de hoje. O baixo crescimento é resultado da escalada de gastos públicos que atravessou o regime militar e as três versões eleitoralmente relevantes da socialdemocracia brasileira: a populista/fisiológica do PMDB, a ideológica/programática do PSDB e a popular/sindicalista do PT. O Brasil vergou sob o peso do Estado.

A contínua expansão dos gastos públicos produziu esquizofrenia financeira, corrupção sistêmica e estagnação econômica. A esquizofrenia financeira manifestou-se sucessivamente sob a forma de inflação indexada, moratória externa, crises cambiais, juros astronômicos, escalada tributária e endividamento interno em bola-de-neve. A corrupção sistêmica manchou todo o espectro político brasileiro, dos militares e partidos fisiológicos de ‘direita’ aos partidos de ‘esquerda’ que se revezam no poder. E a dinâmica de crescimento da economia brasileira foi derrubada por impostos excessivos, juros elevados, câmbio deprimido e baixas taxas de investimento, resultantes do excesso de gastos públicos.

A esfinge dos gastos excessivos devorou a classe política brasileira, causando a degeneração das coligações partidárias e impedindo o surgimento do saudável antagonismo entre a liberaldemocracia e a socialdemocracia, pilares da Grande Sociedade Aberta. As eleições tornaram-se feroz disputa pelo comando de gastos públicos que atingem 40% do PIB brasileiro, recorrendo-se a quaisquer alianças que tornem possível a tomada do poder.

O Princípio de Gause, na biologia evolucionária, prevê feroz disputa ambiental entre espécies semelhantes. Nosso ancestral, o Homo erectus, descendente do Australopithecus africanus, teria sido responsável pela extinção do Australopithecus robustus. Com melhores instrumentos e maiores cérebros, e também se alimentando de carne e vegetais, teria empurrado seu semelhante, que não pôde mais competir, para o desaparecimento, caçando-o para se alimentar. Da mesma forma, num episódio mais recente, o Homem de Cro-Magnon usou sua tecnologia, sua habilidade lingüística e seu cérebro para provocar a extinção abrupta do Homem de Neanderthal.

O fato de que o PSDB, uma dissidência ética do PMDB, e o PT, da bandeira da ética e da transparência, desfiram acusações mútuas de corrupção (privatização e reeleição contra os tucanos, mensalão contra os petistas) indica não terem percebido a associação entre a expansão de gastos públicos que ambos promoveram e a infecção que contraíram. A guerra entre duas espécies semelhantes será de extermínio enquanto não compreenderem que corrupção e estagnação são apenas duas faces da hipertrofia do Estado.

Como se revezam no poder diferentes versões de uma socialdemocracia hegemônica, temos dificuldades políticas para efetivar a correção dos gastos públicos excessivos (reforma do Estado), a descentralização de recursos para Estados e municípios (reforma fiscal), a redução do número de impostos e de suas alíquotas (reforma tributária), a revisão de uma legislação trabalhista obsoleta (reforma trabalhista) e a redução dos encargos sociais (reforma da Previdência). Prisioneira das próprias crenças, a socialdemocracia não enfrenta as reformas que produziriam a recuperação da dinâmica interna de crescimento.

A sangrenta batalha das eleições presidenciais que se avizinham é apenas um sintoma do mal maior. A hipertrofia do Estado é o molde ao qual se adaptaram os partidos políticos de uma democracia emergente. A degeneração das práticas partidárias resulta daí, e não da democracia em si. Aculturando-se gradualmente pelo clássico método de tentativa e erro, a socialdemocracia tucana ampliou substancialmente o espaço de modernização econômica da ‘esquerda’. Legou o recém-adquirido capital institucional à socialdemocracia petista (responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flexível), mas deixou também a colossal dívida interna (herança maldita). O governo atual deu continuidade à política econômica, mas hesitou igualmente no aprofundamento da reforma do Estado.

Sem as reformas, a socialdemocracia brasileira ainda não passou no verdadeiro teste de qualidade de uma classe política nacional: promover a eficácia e a competitividade das políticas públicas. A competição global é não só uma disputa de eficiência entre as empresas, mas também uma questão de qualidade dos governos.

 

Publicado na página 24, revista Época, 27/03/2006, n.º 410.

De brinde, meu protesto: sou assinante da revista, NÃO PRECISO DE RECEBER BOLETINS, MUITO MENOS CRIAR UMA SENHA PARA ENVIAR OS TEXTOS JORNALÍSTICOS QUE CONSIDERO INTERESSANTE. O texto acima foi copiado da revista www.epoca.com.br, mas duvido que, na próxima edição, eu consiga fazer isso.