Agenor Bernardini era meu pai. Assim como todas as pessoas da família, lado materno e paterno, mesmo que não tenham depoimento verbal ou escrito, no devido tempo, terão uma entrada especial.
O Sobradão
(depoimento por escrito, estilo conservado, de 10/03/1999)
 

A construção da sede da Fazenda Paraíso [Paraizo], situada na Estância Turística de Itu [SP], data da época bandeirista, mais provavelmente do século XVIII, quando a zona rural de nosso município atravessou períodos de grande prosperidade, com as culturas da cana, do café e do algodão, nas quais Itu se destacou como grande produtor e até exportador.

Naquele período, os fazendeiros erigiram os chamados “sobrados”, alguns dos quais ainda perduram, tanto nas fazendas como na cidade, servindo de moradia para as famílias, com cômodos reservados à criadagem (inclusive aos escravos) e, também, aos hóspedes, que sempre eram recebidos com toda cerimônia.

Os sobradões da cidade, tombados pelo CONDEPHAAT (órgão do Governo encarregado de preservar os monumentos históricos) estão em bom ou regular estado, embora alguns tenham sido destruídos por incêncios ou demolidos para atender à necessidade de reformas urbanas. Os das fazendas, igualmente, permancem bem conservados – como o da Chácara do Rosário, chamado “Casa do Bandeirante” – mas outros estão quase em ruínas e, nesta situação, se inclui o da Fazenda Paraíso [Paraizo] que, embora exteriormente apresente bom aspecto, interiomente está sendo devorado pelos cupins e a “taipa de pilão”, da qual foi construído, está comprometida pelas infiltrações de chuva e pela umidade.

Este sobradão tem para mim, que praticamente nasci na Fazenda Paraíso – fui para lá com meus pais, com menos de dois anos de idade – um significado especial. Ao tomar consciência de minha existência, já vivia lá, na época na “colônia” da Fazenda, ou seja, onde residiam os trabalhadores, numa das casas construídas em grupos de duas, enfileiradas, situadas obliquamente ao “quadrado” (outro grupo de casas unidas umas às outras, dispostas em forma de quadrado) e que, antigamente, fechavam o quintal onde os escravos eram reunidos.

Alguns anos depois, meu pai, que até então era feitor, foi promovido a administrador da Fazenda – cargo que ocupou por mais de trinta anos – e passamos a residir numa casa vizinha ao “sobradão”, em cuja frente havia o sino que, todas as manhãs, acordava os colonos para o trabalho.

Na época, o ambiente da Fazenda era alegre, pois havia trabalho para todos e os colonos, embora com padrão de vida modesto, desfrutavam fartura de alimentos, conseqüência de disporem de terras para plantar e espaço para criação de aves e animais.

Passamos, então, meus irmãos e minha irmãs, a ter um contato mais próximo do sobrado e mesmo a penetrar em seu interior, para algum  recado ou pequenos serviços e, também, para cuidar das aves no galinheiro que os proprietários da Fazenda possuíam em seu quintal – pomar – cujo acesso era pelo interior do prédio.

Minha existência no local durou até a data em que deixei a casa dos meus pais, em 1939, para ir trabalhar na Capital, mas continuei a freqüentar a Fazenda sempre que vinha a Itu rever a família, até mesmo depois de retornar a Itu, já casado, em 1949. Após o falecimento dos proprietários, e mesmo antes, quando meus pais deixaram a Fazenda, minhas visitas ao local diminuíram bastante.

Recentemente, tive ocasião de ir até lá e me entristeceu bastante o aspecto de abandono geral, inclusive do sobradão, que está se desintegrando, pois até a Capela do seu interior foi desativada e o altar, com a imagem do padroeiro, foi transferida para antiquários.

Permanecem em minha memória as recordações da época de minha infância e adolescência, quando tudo era vida e trabalho. Hoje, só resta a lembrança, guardada no fundo do coração, das coisas e das pessoas com quem convivemos na Fazenda, das quais o sobradão é um marco muito significativo.

 
 
 
 
 
 
 
 
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