Mensagem ao homem do povo (Abraham Lincoln) quinta-feira, mar 30 2006 

Mensagem que, até hoje, permanece sob o vidro da escrivaninha de meu pai.
 
Em “Mensagens ao homem do povo e aos homens que dirigem o povo”, de Abraham Lincoln, homem do povo, alfabetizou-se quando tinha mais de dezessete anos, se não me falha a memória. Foi eleito presidente dos Estados Unidos da América, quando esse país ainda respeitava a história de vida das pessoas comuns, que podiam ser eleitas pelo que eram, não pelos que os apoiavam ou “fabricavam” eleitos.
 
O Brasil, como todos os países do mundo, também se deu ao direito de imitar exatamente o que deveria evitar. O país inteiro se deixa enganar, porque é mais cômodo, e elege quem os “ditadores de exclusividade” enfiam, golea abaixo e, quando os eleitos não correspondem às suas “ordens”, desbancam-nos, para colocar, em seus lugares, os marionetes que devem muito e precisam de fazer papéis de exclusivos.
 
É impressionante observar como a sociedade brasileira defende os “fracos e oprimidos” que lhes interessa.
 
NÃO criarás a prosperidade se desestimulares a poupança.
NÃO fortalecerás os fracos por enfraqueceres os fortes.
NÃO ajudarás o assalariado se arruinares aquele que o paga.
NÃO estimularás a fraternidade humana, se alimentares o ódio de classe.
NÃO ajudarás os pobres se eliminares os ricos.
NÃO poderás criar estabilidade permanente baseada em dinheiro emprestado.
NÃO evitarás dificuldades, se gastares mais do que ganha.
NÃO fortalecerás a dignidade e o ânimo, se subtraíres ao homem a iniciativa e a liberdade.
NÃO poderás ajudar aos homens de maneira permanente, se fizeres por eles aquilo que podem e devem fazer por si próprios.
 
Nenhuma dessas colocações pode ser usada por criminosos, em defesa própria ou em defesa de seus lacaios.
Essas colocações estão, terminantemente, proibidas de serem usadas como alegações daqueles que cometem, cometeram e cometerão crimes contra o povo.
 
Abraham Lincoln não contava com a globalização da falta de caráter, porque a “exclusividade” que determinadas pessoas, determinados grupos político-partidários, determinadas empresas pequenas, médias, grandes, nacionais ou estrageiras desejam de outras pessoas, porque essas pessoas serão “fachadas” para seus “investimentos” ou objetivos escusos, transformou-se, pelo menos na sociedade brasileira, numa busca pela futilidade da fama e da riqueza: tudo o que jamais poderá ser levado no caixão ou para cremação.
Os fúteis, os pobres-de-espírito se esquecem, completamente, que a História é muito mais poderosa do que qualquer “fachada”.
Enquanto isso, apesar de como diz Clodovil Hernandes, quem vive de fachada é igrejinha de Cidade Histórica, os que vivem de “fachada” nos desgraçam, para que mantenham suas regalias fúteis e com tempo limitado de duração. Além, claro, de manterem seus crimes escondidos, porque os dependentes de “fachada” os ajudam a encobri-los.
Que lástima! Decidi, na vida, pelos bons exemplos de família, não ser exclusiva de ninguém, de nenhuma empresa, de nenhum partido político. Que lástima! A vida é muito mais difícil para mim. Os obstáculos são intransponíveis. Até inserir esta entrada é um obstáculo!
Continuo no firme propósito de não ser “exlcusiva” de ninguém, de nenhuma empresa, de nenhum partido político. Não quero ser “fachada” que desgrace as vidas de outras pessoas, apenas para garantir “minha parte”, enquanto os que não têm alma pequena sofrem as conseqüências dos atos e omissões de quem tem alma pequena.
Tenho luz própria, auto-estima elevada, não dependo de criminosos nem de ser reconhecida como celebridade. Não preciso de estender faixas publicitárias para anunciar como sou ótima, porque sou ótima, sem objetivos escusos para isso, mas para me diferenciar de pobres-de-espírito, dos que têm alma pequena.
Pronto! Defendi idéias, sem atacar pessoas, portanto, os ofendidos são os que vestirem a carapuça. Quem vestir a carapuça, faça-me um grande favor: sabe aqueles cadarços que deveriam acompanhar todas as carapuças? Apertem-nos, até que vocês se asfixiem. Não é pensamento nazista, não. É uma limpeza para a sociedade.

A armadilha socialdemocrata quarta-feira, mar 29 2006 

De acordo com o editorial "Nossos colunistas", de Época, 27/03/2006, o autor do texto "A armadilha socialdemocrata" é economista, coerente, liberal, um dos responsáveis pela escola de negócios IBMEC.
O texto está sendo inserido em meu blog, principalmente, porque discute IDÉIAS, sem citar nomes.
Na minha opinião, como não há interesse algum em mudar as regras eleitorais, melhor digitando, "eleitoreiras", é trágico não poder votar NA PESSOA de um determinado partido, porque, como leiga no assunto e por não dominar a linguagem "ténica", exponho o que muitos sabem expor e têm exposto na imprensa: ao escolhermos determinado candidato, seja de que partido for, o pobre coitado, muitas vezes, não é eleito e nosso voto se soma para eleger o mais trambiqueiro, o mais traficante de influência, o mais apoiado pelos criminosos do colarinho branco do partido a que pertence o pobre coitado que era nosso candidato.
 
SEU PAÍS

A armadilha socialdemocrata

PAULO GUEDES

O BRASIL É PRISIONEIRO DA ARMADILHA SOCIALDEMOCRATA de baixo crescimento. O aumento de 2,3% no PIB do ano passado praticamente reproduz a média anual de crescimento das últimas duas décadas e meia, do crepúsculo do regime militar aos dias de hoje. O baixo crescimento é resultado da escalada de gastos públicos que atravessou o regime militar e as três versões eleitoralmente relevantes da socialdemocracia brasileira: a populista/fisiológica do PMDB, a ideológica/programática do PSDB e a popular/sindicalista do PT. O Brasil vergou sob o peso do Estado.

A contínua expansão dos gastos públicos produziu esquizofrenia financeira, corrupção sistêmica e estagnação econômica. A esquizofrenia financeira manifestou-se sucessivamente sob a forma de inflação indexada, moratória externa, crises cambiais, juros astronômicos, escalada tributária e endividamento interno em bola-de-neve. A corrupção sistêmica manchou todo o espectro político brasileiro, dos militares e partidos fisiológicos de ‘direita’ aos partidos de ‘esquerda’ que se revezam no poder. E a dinâmica de crescimento da economia brasileira foi derrubada por impostos excessivos, juros elevados, câmbio deprimido e baixas taxas de investimento, resultantes do excesso de gastos públicos.

A esfinge dos gastos excessivos devorou a classe política brasileira, causando a degeneração das coligações partidárias e impedindo o surgimento do saudável antagonismo entre a liberaldemocracia e a socialdemocracia, pilares da Grande Sociedade Aberta. As eleições tornaram-se feroz disputa pelo comando de gastos públicos que atingem 40% do PIB brasileiro, recorrendo-se a quaisquer alianças que tornem possível a tomada do poder.

O Princípio de Gause, na biologia evolucionária, prevê feroz disputa ambiental entre espécies semelhantes. Nosso ancestral, o Homo erectus, descendente do Australopithecus africanus, teria sido responsável pela extinção do Australopithecus robustus. Com melhores instrumentos e maiores cérebros, e também se alimentando de carne e vegetais, teria empurrado seu semelhante, que não pôde mais competir, para o desaparecimento, caçando-o para se alimentar. Da mesma forma, num episódio mais recente, o Homem de Cro-Magnon usou sua tecnologia, sua habilidade lingüística e seu cérebro para provocar a extinção abrupta do Homem de Neanderthal.

O fato de que o PSDB, uma dissidência ética do PMDB, e o PT, da bandeira da ética e da transparência, desfiram acusações mútuas de corrupção (privatização e reeleição contra os tucanos, mensalão contra os petistas) indica não terem percebido a associação entre a expansão de gastos públicos que ambos promoveram e a infecção que contraíram. A guerra entre duas espécies semelhantes será de extermínio enquanto não compreenderem que corrupção e estagnação são apenas duas faces da hipertrofia do Estado.

Como se revezam no poder diferentes versões de uma socialdemocracia hegemônica, temos dificuldades políticas para efetivar a correção dos gastos públicos excessivos (reforma do Estado), a descentralização de recursos para Estados e municípios (reforma fiscal), a redução do número de impostos e de suas alíquotas (reforma tributária), a revisão de uma legislação trabalhista obsoleta (reforma trabalhista) e a redução dos encargos sociais (reforma da Previdência). Prisioneira das próprias crenças, a socialdemocracia não enfrenta as reformas que produziriam a recuperação da dinâmica interna de crescimento.

A sangrenta batalha das eleições presidenciais que se avizinham é apenas um sintoma do mal maior. A hipertrofia do Estado é o molde ao qual se adaptaram os partidos políticos de uma democracia emergente. A degeneração das práticas partidárias resulta daí, e não da democracia em si. Aculturando-se gradualmente pelo clássico método de tentativa e erro, a socialdemocracia tucana ampliou substancialmente o espaço de modernização econômica da ‘esquerda’. Legou o recém-adquirido capital institucional à socialdemocracia petista (responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flexível), mas deixou também a colossal dívida interna (herança maldita). O governo atual deu continuidade à política econômica, mas hesitou igualmente no aprofundamento da reforma do Estado.

Sem as reformas, a socialdemocracia brasileira ainda não passou no verdadeiro teste de qualidade de uma classe política nacional: promover a eficácia e a competitividade das políticas públicas. A competição global é não só uma disputa de eficiência entre as empresas, mas também uma questão de qualidade dos governos.

 

Publicado na página 24, revista Época, 27/03/2006, n.º 410.

De brinde, meu protesto: sou assinante da revista, NÃO PRECISO DE RECEBER BOLETINS, MUITO MENOS CRIAR UMA SENHA PARA ENVIAR OS TEXTOS JORNALÍSTICOS QUE CONSIDERO INTERESSANTE. O texto acima foi copiado da revista www.epoca.com.br, mas duvido que, na próxima edição, eu consiga fazer isso.

 

 

A Capelinha do Carreiro quarta-feira, mar 29 2006 

Dentre os costumes antigos mais emocionantes estão os marcos, à beira de estradas principalmente, tais como cruzes, oradas ou capelas, para marcar uma perda humana, uma tragédia.
Meu pai, quando criança, percorria as terras da Fazenda Paraíso, onde meu avô, Brazil Bernardini, foi administrador por mais de trinta anos.
Ao passar por um declive da estrada, em direção à Fazenda Jurumirim, havia uma capelinha sobre a qual ouvia contar que fora erigida, no século "passado" [XIX], em memória de um condutor de carro de bois que, naquele local, perdera a vida em um acidente. Contavam que o carro de boi passara sobre seu peito!
O tempo passou, meu pai comprou um lote do tamanho de uma chácara e observava, encantado, que a capelinha era conservada. Chegaram a colocar, na entrada, um portão de grade e o telhado foi trocado mais de uma vez.
Após a perda trágica de nossa irmã, Maria Ignez, meu pai, que sempre cuidou da chácara aos sábados, à tarde, e aos domingos, no período da manhã, preocupado com o matagal que quase impedia a visão da capela, tempo de seca, decidiu limpar em volta e restaurá-la. Já sem o portão de grade de ferro, com o telhado quase todo sem as telhas, a capelinha foi restaurada com a ajuda do caseiro da chácara. Antes de contar mais detalhes, considero muito importante declarar que, à medida que meu pai restaurava a capelinha, moradores da área, a caminho de suas propriedades, paravam para observar e muitos deles se ofereceram para ajudar, ofertando material ou, se fosse necessário, dar uma ajuda.
Não foi necessário material ou mais ajuda, porque meu pai se propusera a reconstruir algo que lhe era muito valioso, uma memória de infância que continuava a representar uma homenagem, mas que ninguém sabia, de fato, a quem.
Essas ofertas de ajuda significam e significaram muito, a meu ver, naquele momento, como uma ou duas pessoas que dão início a uma benfeitoria em prol de uma comunidade, num país em que, infelizmente, por razões muito diferentes, as pessoas se voltam para seus próprios problemas ou, mais grave, ainda, não querem se comprometer, demonstrando a falta de respeito, de solidariedade, características básicas do exercício da cidadania responsável.
 

Histórico da Capelinha do Carreiro

(por Maria Lúcia Bernardini)

Em 26 de outubro de 1991, no jornal de Itu / SP, “A Federação”, C. R. Gírio publicou, na página 09, um texto sobre a Capela do Carreiro. Na página inicial do mesmo jornal, uma de suas produções artísticas, a bico de pena, datada, também, de 1991, em que retrata a Capela do Carreiro. O texto foi guardado por meu pai, colado em folha de papel sulfite, juntamente com o desenho a bico de pena.

Em 1996, no jornal “O Estado de São Paulo”, no dia 09/06, no caderno “Cidades”, C2, na seção “Há um século”, saiu esta nota, entre outras: “Itu – Em um dos últimos dias da semana próxima finda deu-se um desastre que resultou a morte de Francisco Pinto de Camargo, de 32 annos. Conduzindo um carro tirado por bois, e que se achava carregado, Camargo um tanto alcoolisado, assentou-se sobre o cabeçalho de onde pouco depois cahiu passando-lhe por cima uma das rodas do vehiculo, e após alguns momentos falleceu”. Esse texto, bem como as páginas do jornal em que foi publicado, sem encontram arquivados numa pasta com o título “Capelinha do Carreiro”, que me permitiu fazer este levantamento.

            Agenor Bernardini, meu pai, assinante e assíduo leitor do jornal “O Estado de São Paulo”, entre outros jornais locais, ao tomar conhecimento dessa nota, procurou, no Cartório de Registro Civil de Itu, Praça Padre Anchieta, 64, no Registro Civil das Pessoas Naturais, escrivão Francisco Fernando Ramalho De Vecchi, Substituta Ana Paula Tarchiani de Vecchi Tira, a Certidão de Óbito, pela data de 09/06/1896, há um século, portanto. A Certidão de Óbito de Francisco Pinto de Camargo era uma das que já estavam entre as que passaram a fazer parte do acervo por meio da informatização e, desse modo, passou por uma “busca”.

Sob o número 257, folhas 63, do livro C09, o falecimento de Francisco Pinto de Camargo, em 28 de maio de 1896, às três horas, em Jurumirim (que meu pai acreditava ter sido transcrito para o computador como “Jaymoinho” pela dificuldade de entender a letra “rebuscada” de quem registrou a certidão a mão), com trinta e dois anos, solteiro, filiação não constante, natural de Sorocaba, a causa da morte “victima de um carro de boi, que passou por cima do peito”, teve o atestado firmado “pelo Dr. Octaviano Pereira Mendes”; não consta o local do sepultamento. Em observações: “assento lavrado aos 29-05-1896”.

De posse de uma cópia da Certidão de Óbito, além de uma cópia da página do jornal “O Estado de São Paulo”, fui [Maria Lúcia Bernardini] ao Museu Republicano “Convenção de Itu” e as entreguei a uma das pessoas responsáveis, pois era uma parte da história de Itu que se confirmava por meio de uma nota de jornal, intimamente ligado à história de Itu, por meio dos participantes da “Convenção Republicana” e do princípio desse jornal, no início “A Província de São Paulo”, parte essa comprovada por uma Certidão de Óbito de um homem de 32 anos (conforme consta na Certidão), do sexo masculino, de cor “não consta”, de profissão “não consta”, residente “não consta”, estado civil solteiro, mas cuja morte foi declarada por Guilherme Martins.

Em janeiro de 1996, meu pai pedira à minha irmã Maria Regina para que fotografasse a Capela do Carreiro (ele a havia restaurado, de meados até o final de 1995, nos fins de semana, com a ajuda do caseiro da chácara, melhorou o acesso à Capela, que fica no alto de um barranco, colocou corrimão, plantou árvores e mudas de vegetação) e de uma das fotos, mandou confeccionar um cartão postal, em uma gráfica de Itu, postais esses que enviou aos familiares e os distribuiu na loja de sua propriedade. No verso do cartão, lê-se: “Capelinha do Carreiro – É o nome pelo qual é conhecida a pequena capela situada na Estrada do Jurumirim (atual Avenida Brasil Bernardini), no Bairro do Pedregulho, na cidade de Itu-SP. Reza a tradição que foi erigida em memória de um condutor de carro de bois (carreiro), que morreu no local quando o veículo por ele dirigido tombou e atingiu o seu corpo. A data precisa da construção não é conhecida, sendo que, pelo depoimento dos mais antigos moradores da região, deve ter ocorrido em fins do século passado [XIX], princípios do atual [XX]. Constitui verdadeiro patrimônio religioso e espiritual dos moradores do Bairro, que se incumbem de preservá-la, fazendo as reformas sempre que necessárias. Itu, janeiro de 1996”.

Ao jornal “A Federação”, papai escreveu um texto descritivo da localização, com um histórico de outros marcos, e enviou uma cópia do recorte de “O Estado de São Paulo” sobre o acidente do carreiro, bem como uma cópia da Certidão de Óbito, comprovando que o motivo de ter sido erigida uma capela, em maio de 1996, era centenário, isto é, a capela fora, de fato, erigida no ano de 1896 ou no ano seguinte, século XIX. Texto digitado e inserido abaixo.

Texto completo de Agenor Bernardini, enviado para o Jornal “A Federação”, sob o pseudônimo de “Spartcaus”, cuja cópia com carbono foi guardada na pasta “Capelinha do Carreiro”. Não temos cópia da edição do jornal em que essas informações foram publicadas.

Capelinha do Carreiro

(Spartacus)

Ela está situada na Estrada do Jurumirim (atual Av. Brasil Bernardini), no Bairro do Pedregulho, em nosso Município, próximo à “Lagoa Água Podre”, que somente se forma nas épocas de muitas chuvas, atraindo aves silvestres de vida aquática, como acontecia desde épocas imemoriais, quando a região era coberta de mata.

A tradição sempre confirmou que a capelinha foi erigida para abrigar a “Santa Cruz”, fincada no local onde um “carreiro” (condutor de carro de bois) perdeu a vida, exercendo sua atividade; sem que se conhecesse a data exata, sempre foi afirmado que o fato havia acontecido em fins do século passado [XIX], e ficou conhecida como “Capelinha do Carreiro”.

Do alto do barranco que margeia a estrada, de construção simples, a Capelinha viu nascer o século XX e assistiu à passagem de alegres cortejos de charretes, cabriolés e troleys, conduzindo participantes de casamentos, batizados e outros acontecimentos festivos, bem como de tristes e silenciosos desfiles de enterros. Hoje, presencia a passagem de veículos motorizados (carros, caminhonetes e motos), conduzindo proprietários de chácaras de recreio em que foram divididos os antigos Sítios oriundos da divisão da grande fazenda que ocupava toda a região, desde Itu até Salto e Indaiatuba, e também os freqüentadores do Camping instalado na antiga Chácara Bordini.

Perto de assistir à entrada do novo século [XXI], ela lá continua, simples e modesta como sempre, mas sólida, como são as coisas autênticas, conservada pelo espírito religioso dos moradores da região, que sempre a reformaram quando sua integridade parece perigar; deverá lá permanecer, até o final dos tempos, simbolizando o respeito à memória de um humilde carreiro, no mesmo local onde este perdeu a vida, isso numa época longínqua, em que a vida humana ainda tinha valor.

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N. da R. Pelo leitor que assina a crônica acima foi entregue ao arquivo deste Jornal um recorte do “O Estado de São Paulo”, do dia 09.06.1996, onde, na Secção “HÁ UM SÉCULO”, é transcrita a notícia de nossa cidade, dando conta, na edição de 09.06.1896, de um desastre que resultou a morte de Francisco Pinto de Camargo, de 32 anos, que conduzia um carro de bois, do qual caiu e foi atingido por uma das rodas, que passou sobre seu peito. Também juntou Atestado de Óbito, lavrado no Cartório de Registro de nossa cidade, assinado pelo Dr. Octavianno Pereira Mendes, em data de 29.05.1896, confirmando a mesma notícia publicada pelo Jornal. Tudo confirma que a construção da “Capelinha do Carreiro” teve mesmo origem neste episódio noticiado, há um século, pelo Jornal “O Estado de São Paulo”.

 

 
 
 

Inoportuna, inadequada, inconveniente = sou eu terça-feira, mar 21 2006 

Este é mais um exemplo de atividade pedagógica … falida.
 
Peço desculpas aos nomes citados, mas foi impresso assim, distribuído aos demais professores assim  e arquivado em disquete assim.
 
Inoportuna, inadequada e inconveniente, sempre acreditei – e desse modo agi – que jamais ensinaria algo, mesmo que os alunos estivem prontos (prontidão de aprendizagem, vontade de aprender) para aprender, se eu, como educadora não dominasse o assunto.
 
A proposta abaixo, como tema transversal – uma conversa para boi dormir, quando apenas um professor ou uma professora é capaz de desenvolver o tema e os demais pegam carona, rabeira, ficam com as glórias, e o tomador de sorvete pela testa com o serviço – era excelente. Como se pode despertar a cidadania se o cidadão é inconveniente, inadequado e inoportuno? Quais os significados dessas palavras DENTRO DO CONTEXTO cidadania? Não, não estou gritando ou você ouviu a minha voz? Pareço estar gritando? Estou dando destaques, por meio de um recurso denominado letras maiúsculas. Antes de dar início ao planejamento da atividade, todos nós sabíamos as definições, para contextualizá-las? Eu não saberia definir sem auxílio de dicionário. Definição geral.
 
Dããããã, fiz a proposta, por escrito, e, aparentemente meu TOM prevaleceu, pois o único a agradecer a sugestão foi o Prof. Cornélio, no próximo HTPC, mas ou não foi adiante ou esta inoportuna, inconveniente e inadequada foi marginalizada e se tornou um PROJETO que foi desenvolvido sem meu conhecimento. Quem sabe desenvolvido em outra escola que não naquela de que eu, supostamente, fazia parte do corpo docente? Dãããããã. 
 
Quem sabe os endereçados NÃO TENHAM RECEBIDO cópias e o conteúdo tenha sido passado de modo distorcido?
 
Alternativa correta: ninguém entendeu nada do que escrevi, portanto, sou meio "anarfabeta".
 

Aos professores: Maria Lúcia Guitte e Cornélio

De: Maria Lúcia Bernardini, 08/04/2002.

Com cópias para a Diretora Sônia e à Coordenadora Pedagógica Marilene.

            Esta é minha colaboração inicial ao tema transversal Cidadania, “O cidadão no contexto social”, com o título INOPORTUNO, INADEQUADO, INCONSEQÜENTE: a definição e a discussão dos significados dessas palavras, para começar. Depois, sim, quando todos os professores, funcionários e direção tivessem discutido esses significados, além de termos feito autocrítica (=autocrítica . [De aut(o)-1 + crítica.] S. f. 1. Crítica feita por alguém a si mesmo ou a suas próprias obras. 2. Capacidade de exercer autocrítica (1): Medíocre, considera-se um gênio: não tem autocrítica.), poderíamos pensar em elaborar um projeto, exigindo o que quiséssemos dos alunos. [Confesso que não retirei esse exemplo de propósito. Portanto, meu TOM ficou evidente.]

 

inoportuno . [Do lat. tard. inopportunu.] Adj. 1. Que não é oportuno; intempestivo. 2. Que vem, se faz ou sucede fora de tempo ou de ocasião conveniente. [Sin. ger.: desoportuno.]

oportuno . [Do lat. opportunu.] Adj. 1. Que vem a tempo, a propósito, ou quando convém; apropriado. 2. Cômodo, favorável.

 

inadequado . [De in-2 + adequado.] Adj. 1. Não adequado; impróprio.

adequado . [Part. de adequar.] Adj. 1. Apropriado, próprio, conveniente: "À intensa religiosidade do homem medieval correspondeu também uma literatura religiosa adequada." (Feliciano Ramos, História da Literatura Portuguesa, p. 43.) 2. Acomodado, ajustado, adaptado. 3. Conveniente, oportuno. 4. Filos. Diz-se de uma representação que tem exata correspondência ou conformidade com o seu objeto. ~V. conhecimento –.

próprio . [Do lat. propriu.] Adj. 1. Que pertence a; pertencente: Reside em casa própria. [Equivalente ao possessivo: meu, teu, seu, nosso, vosso.] 2. Peculiar, particular, natural: "O orgulho é próprio dos homens, a vaidade das mulheres." (Marquês de Maricá, Máximas, Pensamentos e Reflexões, p. 31.) 3. Adequado, apropriado: Gosto de estudar no livro próprio. 4. Oportuno, conveniente: Chegou em hora própria. 5. Idêntico, exato. 6. Exato, certo; preciso: Chegaram na própria hora combinada. 7. Textual (3): Repeti suas próprias palavras. 8. Verdadeiro, autêntico: Nem o próprio Deus me demoveria. 9. Não figurado; primitivo: Usei a palavra em seu sentido próprio. [Superl. abs. sint.: propriíssimo.] ~ V. divisor –, freqüência -a, função -a, mão -a, movimento –, nome –, oscilação -a, peso –, substantivo –, tempo – e valor –. • S. m. 10. Qualidade ou feição especial. 11. Portador ou mensageiro: "Nesse mesmo dia Joaquim Ribeiro despachou um próprio com um bilhete a Roberto" (Bernardo Guimarães, História e Tradições da Província de Minas Gerais, p. 122) 12. Lit. Obsol. Até o Concílio Vaticano II (1962-1965), cada uma das partes variáveis da missa (1) [intróito, gradual, aleluia, trato (eventualmente, seqüência), ofertório, comunhão], cujos textos lidos, recitados ou cantados, mudam de acordo com as sucessivas divisões do ano litúrgico ou com as festas dos santos. [V. ano litúrgico.] 13. Lóg. Um dos predicáveis (q. v.): característica que não faz parte da essência de uma coisa mas só a ela pode ser atribuída. Ex.: ser geômetra, com relação a homem. Próprios nacionais. 1. Bens próprios da nação ou do Estado.

 

inconseqüente . [Do lat. inconsequente.] Adj. 2 g. 1. Em que há inconseqüência. 2. Inconsiderado, imprudente. 3. Contraditório. • S. 2 g. 4. Pessoa inconseqüente.

conseqüente Adj. 2 g. 1. Que segue naturalmente: o conseqüente resultado de uma imprudência. 2. Que se infere, que se deduz. 3. Que procede coerentemente; que raciocina bem; coerente, lógico, racional: O educador deve ser conseqüente em seus atos e suas palavras. • S. m. 4. E. Ling. A oração subordinada. 5. E. Ling. Unidade lingüística que se refere a outra anteriormente apresentada na sentença. [Por ex., o pronome relativo que na frase: Esse é o homem que eu vi.] [Cf., nesta acepç., antecedente (4).] 6. Lóg. Em relação de implicação, o termo que é implicado. [Opõe-se a antecedente (5).] 7. Mat. Denominador de uma razão. 8. Mat. Numa seqüência ordenada, termo que sucede imediatamente a outro. 9. Mús. V. imitação (2).

 

Fonte: http://www.uol.com.br/aurelio/

 

O valor da auto-estima (imperdível) terça-feira, mar 21 2006 

Tentei, de todos os modos, inserir este texto ontem, dia 20/03/2006, mas, parece-me, alguém ou mais de um alguém, não consegue espaço, entende?, e precisa de mostrar que tratará do assunto antes de mim em outro local da mídia. Desse modo, também, os "altores" nativos discutem o assunto em suas crônicas e, se tiverem que citar fonte, terá sido um texto de jornal, de revista ou assunto de televisão. Que seja! Ao abrir o disquete em que o texto estava arquivado, foi um "fuá". Até salvar, novamente, cópia de segurança, foi salvo. Chiquetésimo!
 
Bem, o assunto não foi tratado por mim, senão por meio da autora do texto, na revista Família Cristã e, lógico, passei para os alunos por meio de cópias, emprestadas a eles, e lemos, em sala de aula. Não posso esquecer de mencionar, dãããã, que, como "tomadora de sorvete pela testa", ofertei cópias aos demais professores e, para variar, fui mal interpretada por quem vestiu a carapuça ou não sabe ler nem escrever. Parece-me estar ouvindo o que sempre diziam de mim: "Quem ela pensa que é?". A coordenadora pedagógica dos péríodos da manhã e da tarde me disse, certa vez, que era o "tom" com que eu falava que ofendia. Tá boa, santa! Eu não consigo perder tempo com mal formado e mal informado e do jeito que eu falo, falei. Nunca preguei pregos na tal da cerca e quem se ofendia, certamente, já estava previnido contra mim, há muito tempo, pelos que sempre quiseram escamotear a verdade sobre a situação do Ensino Público e ajudar a esconder os desvios de dinheiro que seria destinado à Educação Pública, para não prestar atenção AO que eu dizia e sim ao TOM com que eu o dizia. Ademais, eu escrevia, na maioria das vezes, para não perder tempo (a defasagem de aprendizado dos alunos era muito grande, não dava para perder tempo, pedindo licença a todas as EXCELÊNCIAS, e TOM, em escrita, lembra a piada do pai que se ofendeu com o telegrama do filho: "Pai vg mande dinheiro". Para o pai, o tom era imperioso, era uma ordem, um desrespeito. Para a mãe, era carinhoso: Paaaaaaaaai, mande dinheiro?
 
 

O valor da auto-estima

Reforçar a auto-estima das crianças é fundamental pra criar adultos mais equilibrados

            Psicólogos são unânimes em afirmar que a baixa auto-estima faz as crianças desenvolverem sérios problemas comportamentais no decorrer da vida. Uma de suas conseqüências é o retraimento excessivo, que leva a dificuldades no relacionamento social, até mesmo com a família, e a problemas de aprendizado.

            A auto-estima, ou seja, a capacidade que cada um tem de acreditar que vai conseguir conquistar seu espaço no mundo, é indispensável para uma vida sadia e plena. Essa, contudo, não é uma capacidade inata. Seus alicerces são solidificados na infância, a partir da interação das crianças, desde a mais tenra idade, com seus pais. Seguras, elas estarão preparadas para enfrentar dificuldades. Pais com auto-estima baixa influenciam negativamente as crianças, cuja personalidade também se desenvolve por meio da observação das ações dos outros.

            A auto-estima não é matemática única: é parte do desenvolvimento. A ela devem ser somadas MOTIVAÇÃO e DISCIPLINA[1]. O cognitivo (capacidade de aquisição de um conhecimento) depende do afetivo. Ninguém nasce se auto-estimulando.

·         É no olhar carinhoso do pai e da mãe, nos incentivos às suas ações, que as crianças constróem sentimentos positivos em relação a si mesmas. Sentindo-se valorizadas, elas serão seguras.

·         Importante destacar, porém, que o elogio permanente não é benéfico[2]. Ele irá apenas solidificar uma auto-estima artificial, que impede os indivíduos de lidarem com frustrações. A saturação de reforços não permite à criança discriminar o certo do errado. É preciso saber dosar para não estimular a sensação de onipotência.

·         Reforço social (elogios) ou material (dinheiro, presentes, passeios) deve ser utilizado com bom senso. As crianças precisam, ainda, aprender que nenhum ser humano é hábil para todas as coisas.

A escola é outro espaço de fortalecimento desse sentimento, que tem um paralelo muito próximo com a motivação. Os problemas de relacionamento no ambiente escolar vão ganhar maior ou menor vulto, dependendo do quanto a criança atingida por eventuais agressões já desenvolveu sua auto-estima. Se esta estiver fortalecida, a criança aprenderá  a se defender e a conquistar seu próprio espaço.

Como, porém, ajudar a criança no desenvolvimento de sua auto-estima se o convívio dos pais com seus filhos é cada vez menor? O caminho não passa por reforçar o sentimento de culpa de pais que necessitam trabalhar. Por mais que o tempo dedicado às crianças seja limitado, o que importa é a qualidade desse relacionamento, e isso inclui a participação em brincadeiras e o esforço em reservar alguns minutos diários para uma conversa com as crianças, ouvindo o que elas têm a dizer. Esse contato é indispensável ao desenvolvimento sadio da auto-estima dos filhos. E um largo passo para a garantia de um futuro mais feliz.

 

Fonte: Alessandra Sapoznik Holcberg, psicóloga da Unifesp, Universidade Federal de São Paulo, in revista “Família Cristã”, ano 67, n.º 784, abril de 2002, página 14. 


[1] Destaque, em maiúsculas, de Maria Lúcia Bernardini

[2] Idem para o destaque em negrito.

 
 
 

Eu & Ela, Clodovil Hernandes terça-feira, mar 14 2006 

EU & ELA
De Clodovil Hernandes, com Clodovil Hernandes
Recomendação absolutamente suspeita, pois é tendenciosa.
 
Não fui, no dia 11/03/2006, assistir à peça Eu & Ela.
Fui assistir ao CLODOVIL e fui brindada com apresentações maravilhosas, de alguém que amo de paixão e que se propôs a apresentar AS MULHERES, como devem ser na concepção dele.
O teatro é o Brigadeiro, na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio (tudo bem, eu também só me lembro de "Brigadeiro", a parte pelo todo), 884, Bela Vista, São Paulo / SP, telefone 0XX-11-31075774.
Se eu não gostasse de Clodovil OU não admitisse ouvir tudo o que se propõe a falar e tentar ensinar, não como um Deus, mas por ter vivido e querer transmitir esses conhecimentos de vida (como ele sempre diz: não sou dono da verdade), lógico que não teria pago pela entrada. Paguei e recebi muito mais pelo que paguei.
Na entrada do teatro, precisei, claro, utilizar o toalete. No "Ela", um pôster das pernas de Clodovil, de meia "arrastão" e sandálias salto "30" (cruzes, tudo lindo). No "Ele", um pôster de Clodovil da cintura para cima, com trajes masculinos.
No início do espetáculo (que espetáculo!), a entrada de Clodovil, vindo da parte de trás da platéia, cantando Mercedes Sosa, "Gracias a la vida" (se faltou algum acento, minha ignorância). Fiquei com lágrimas nos olhos.
Conversou com a platéia, enquanto cantava, olhando cada espectador nos olhos. Todos! Sentiu as auras, sentiu tudo.
Quando a cortina se abriu, "montou" um vestido e explicou o que se propunha a apresentar. Comenta cada falha, cada ruído inconveniente dos próprios atores na coxia. Critica, em cena aberta, o que está errado e elogia o que está certo. Por que será que as pessoas não percebem que, além de uma sala de aula, o teatro é magia?
No desenrolar do espetáculo, … vá assistir.
No final, de Billie Holliday, transforma-se num "rapper".
Haja saúde! Que tenha muita saúde!
Haja amor e verdade no que faz. Que esses sentimentos prevaleçam num país de salafrários, travestidos de seres humanos, que sugam até a aura da gente!
Seja candidato a cargo político em Brasília, Clodovil, pois precisamos destituir os corruptos, inclusive os apoiados por poderosos patrões do crime organizado.
Certamente, todos os criticados por Clodovil, no espetáculo e fora dele, serão promovidos. Assim aconteceu, sempre, comigo, em sala de aula ou fora dela. Os elogiados por mim e os criticados por mim sempre conseguiram uma "boquinha". Por isso, os atores que acompanham Clodovil que não se revoltem, pois herdarão… o reino dos famosos.
 
Um beijo muito grande!
E. T. Se minha pesquisa tivesse permitido, conseguiria uma foto de Clodovil para anexar a fotos. Não consegui. Tudo bem!
 
 
 

Por falar em vampiros… terça-feira, mar 14 2006 

Todo cuidado é pouco, quando se trata de leitura de contemporâneos.
Talvez, essa seja uma justificativa simplória, mas livros clássicos deveriam ser acompanhados dos seguintes dizeres: tudo o que lerá, DEPOIS DESTE LIVRO, já terá sido tratado neste; dependerá do estilo do escritor que o livro contemporâneo não seja um mero plágio.
 
Por falar em vampiros…
 
Educador, de verdade, não recomenda leitura de escritores que PLAGIAM autores já editados, porque conhece as obras anteriores e, se recomendá-los, deverá, no mínimo, dar créditos àqueles em quem os plagiadores se inspiraram.
Os vampiros da Literatura se apresentam na forma de estelionatários que, como os que aplicam golpes de contos-do-vigário, apóiam-se na certeza da ignorância (ups!), da má formação (ups!), da falta de tempo e de dinheiro da população para certificar-se de que não está lendo um livro plagiado. Nós, brasileiros, não lemos nem UM livro por ano, portanto, precisamos ter muito cuidado para não lermos obras plagiadas.
Em minha experiência de EDUCADORA, fui alvo de "pegadinhas" (gostaria de ter o poder de acabar com "pegadinhas", mas teria que colocar mal amados e mal resolvidos num paredão!) ou de má-fé de muitos "escritoUres", que, como cronistas (?), jornalistas (?) ou "whatever" (e esse "whatever" incluiu, até, supostamente, um funcionário público que passou a editar e distribuir seus livros para bibliotecas, com grande destaque pela imprensa nativa, o que, para mim, nunca passou de lavagem de dinheiro público desviado de seu destino, ou seja, era para ser para a EDUCAÇÃO) e se impunham, diante dos meus olhos, em jornais nativos, ou querendo entrar em minhas salas de aula para promover "seus" livros. Usaram e abusaram de alunos sob minha responsabilidade para isso. Inclusive, usaram professores, coordenadores pedagógicos e técnico de Oficina Pedagógica incautos. Gente incauta provoca cada tragédia…! 
Não estou generalizando, não, estou apontando, por meio da sugestão de leitura dos livros abaixo descritos, muito cuidado ao indicar livros de autores "nativos". Podemos estar "vendendo" aos alunos gato por lebre.
 
Dos recomendados abaixo, não consegui comprar vários. Emprestava-os aos alunos, na escola "Convenção de Itu" e, depois, na escola "Pinheiro Júnior", alunos do ENSINO MÉDIO entregaram em troca não sei de quê, com certeza, para autores vampiros, o exemplar de Maria Gomes. Foi o único livro que perdi, do meu acervo de Ricardo Azevedo, mas meus sobrinhos aproveitarão os que restaram.
Longa vida aos vampiros, rufiões, impotentes intelectuais, pois herdarão o reino… dos estelionatários. Que dó eu sinto dos herdeiros deles em virtude dos péssimos exemplos que têm! Que pobreza de espírito!

De Ricardo Azevedo:

 

Livros da Série VIAGEM:

Aquilo

Viagem estrelada

De como enganei o Sol

Estão batendo na porta

(Editora Melhoramentos)

 

Livros da série CONTOS, QUADRAS, ADIVINHAS E MITOS POPULARES:

Monstrengos de nossa terra

Gaspar, eu caio!

Fui pro mar colher laranja

O macaco e a velha

Moça formosa, pai carrancudo

(Editora FTD)

 

Livros da coleção DISPARATE

Tá vendo uma velhota de óculos, chinelo e vestido azul com bolinha branca no portão daquela casa?

Disparate

(Editora FTD)

 

Coleção GIRASSOL

O rei das pulgas

(Editora Moderna)

 

Coleção SEGUNDAS HISTÓRIAS

Vaidade no terreiro

A fonte luminosa

Atrás do pirata papa-tudo

O mágico errado

Os telecaramujos

Lambe o dedo e vira a página

O tesouro perdido do gigante Gigantesco

De repente, toda a história novamente

O tapa

Chico Palito

Quem meteu o dedo no bolo da Cuca

Um rei e seu cavalo de pau

Dona Quitéria trutruzeira

Um casório bem finório

Histórias e lorotas da vovó

A teia de Penélope Aranha

O mapa do tesouro

Por que não servem pizzas no Natal?

O sapo encantado

Alguma coisa

(Editora FTD)

 

Coleção CÉU DA BOCA

Amar enquanto há mar

Às vezes me sinto sem cinto

Parte sempre a mesma parte

Ela nada no nada, eu invento no vento

(Editora Melhoramentos)

 

Série VENTO AZUL

Um vento azul

Davi acordou cinza

O peixe que podia cantar

O bandolim

Papai motorista

Araújo ama Ofélia

(Editora Melhoramentos)

 

Coleção DÓ-RÉ-MI-FÁ

Marinheiro rasgado

(Editora Scipione)

 

Série HISTÓRIAS DE ENCANTAMENTO

A moça de Bambuluá

João de Calais

Roberto do Diabo

Maria Gomes

(Editora FTD)

 

 
 

Vampiros existem, sim! segunda-feira, mar 13 2006 

Se não acredita, eu acredito.

Não tenho medo de pessoas mortas. Tenho medo de pessoas vivas (no sentido oposto a mortas), mas, infelizmente, há muitas com desvios de personalidade incuráveis… 


20/05/2001 – Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO. 

Vampiros existem (Mais próximos do que você imagina)

Namorados, amigos, parentes, colegas e até chefes sugam energias de suas vítimas

LÍGIA FORMENTI

A empresária Gisela Prochaska, de 39 anos, não gosta de lembrar de uma fase de sua vida profissional. Foi quando montou uma empresa em sociedade com um colega, de início muito simpático e inteligente. "Com o passar do tempo, dei-me conta de que todas as vitórias eram atribuídas a ele. Para mim, ficava apenas o trabalho duro", recorda. Depois de passar um tempo em crise, Gisela desfez a sociedade.

Com o fim da parceria, a empresária recuperou o ânimo. "Ele sugava minhas energias, minha autoconfiança, minha capacidade de trabalho." Além do sócio, Gisela já encontrou em sua vida outras pessoas que, de formas diferentes, conseguiam minar seu bem-estar. "Hoje, reconheço que, com alguns namorados, amigos e colegas de trabalho acabava agindo exatamente como eles queriam."

A experiência de Gisela não é incomum. "Encontramos com muita facilidade relações em que não há troca. Um sempre recebe, outro sempre dá. Exatamente como ocorre na história do vampiro e sua vítima", afirma a professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Magdalena Ramos.

Essas relações são tão freqüentes que inspiraram o psicólogo Albert Bernstein a escrever um livro sobre o assunto. Em Vampiros Emocionais, recentemente lançado no País, o autor descreve os vários tipos de vampiros e suas estratégias para dominar as vítimas.

Sedução – Os recursos usados são muitos. E são empregados com tanta perfeição que muitas vezes passam despercebidos durante anos. Foi o que ocorreu, por exemplo, com Alice (nome fictício), proprietária de uma loja de roupas e uma amiga, que mais tarde se tornou sua funcionária, Roberta. "Era como se ela colocasse uma capa sobre mim, imobilizando meus movimentos e pensamentos. Fazia exatamente tudo o que ela queria", recorda.

Quando montou a loja, Alice convidou Roberta para ser sua gerente. Passados alguns anos, veio a primeira decepção. Roberta mudou de emprego e, na saída, roubou informações sigilosas, que lhe seriam úteis no outro trabalho. Há seis anos, elas se reencontraram casualmente. Roberta estava casada, com uma filha doente e sem dinheiro. "Fiquei penalizada, passei uma borracha em tudo e a convidei para trabalhar novamente comigo", diz Alice.

Não foi preciso esperar muito para os problemas recomeçarem. "Percebi que Roberta estava sempre tentando me imitar: usava roupas parecidas, adotava o mesmo corte de cabelo e vivia dizendo que sem ela a loja não iria para frente." Com a justificativa de ser uma boa funcionária, Roberta passou a pegar todos os produtos da loja que queria. Fazia o próprio horário, faltava quando queria. "No fim, era ela quem dizia o que eu tinha de fazer, controlava meus horários e reclamava quando eu não podia cobrir suas faltas", afirma Alice.

Além de dizer que era indispensável, Roberta procurava sempre mostrar a Alice que tudo o que era seu era mais importante. "Seus problemas eram maiores, suas conquistas, mais relevantes." Mesmo depois de perceber o problema, Alice teve dificuldades em se afastar de Roberta. "Somente nos separamos quando ela mudou de cidade", diz. "Não sei por que houve tanta dificuldade. Mas hoje vejo que a loja sem ela vai muito melhor e, além disso, meu astral hoje é outro."

A professora Magdalena acredita que, muitas vezes, os vampiros não agem de forma premeditada. "Eles precisam se rodear de pessoas que satisfaçam todas as suas necessidades." Para isso, seduzem, tentam despertar o sentimento de culpa e até mesmo o medo. "Quando uma pessoa é vítima de uma relação com essas características, deve ficar atenta. Talvez ela apresente também uma personalidade que seja um campo fértil para os vampiros."

Madaglena afirma que as vítimas geralmente também têm uma necessidade grande de agradar aos outros e um acentuado sentimento de culpa. "Para não voltar a desempenhar o mesmo papel, é preciso mudar o comportamento." A empresária Gisela, por exemplo, garante ficar atenta ao menor sinal de que alguém quer hipnotizá-la. "Não há como evitar os vampiros emocionais. O melhor é aprender a conviver com eles e a forma certa de se defender."

Antenas – Mas ligar o alarme requer um pouco de treino. Alice confessa que algumas vezes ainda se deixa levar por ‘vampiros’ de vários tipos. "Em uma situação ou outra, acabamos cedendo. Filhos, maridos, parentes e colegas podem se transformar em vampiros. Damos demais e não sabemos dizer chega."

Em um aspecto, pelo menos, Alice garante já estar treinada. "Como lido com o público, estou sempre me deparando com alguns tipos perigosos." Uma das vitórias ocorreu há algum tempo. Uma cliente, irada, retornou à loja reclamando de um problema em uma peça de roupa e exigindo a troca por uma nova. "Ela estava aos berros. Quando cheguei, falei calmamente, mas com firmeza", recorda. Em dois minutos de conversa, a cliente não só concordou com um reparo, como fez outras compras, gastando mais de R$ 250,00.

Adotar regras claras também foi um dos recursos usados por Gisela para se defender dos vampiros. "Hoje, também tenho arrepios quando percebo que uma pessoa faz questão de mostrar que tudo o que ela sugere é melhor ou até mesmo que seus problemas são mais graves. Levanto a guarda na hora. Somente quem já foi vítima sabe dos estragos que esses vampiros podem provocar."

 

 

No trabalho, eles se multiplicam

Além de despertar a atenção dos psicólogos, o papel dos vampiros começa a chamar a atenção de especialistas em recursos humanos. Não é para menos, segundo o professor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Mozart Amaesing Langbeck. "O ambiente de trabalho é um terreno fértil para pessoas com essas características atuarem ", garante.

No ambiente profissional, há sempre pessoas que usam artifícios para esconder inseguranças, trabalhar menos e obter vantagens. Entre as armas usadas, uma das mais comuns é a sedução. "Os vampiros cativam pessoas que possam mais tarde lhes ser úteis." Outro recurso bastante usado é despertar o sentimento de pena. Não é raro encontrar pessoas que a todo instante se lembram dos problemas pessoais para justificar falhas profissionais.

Mozart acredita que a presença desses vampiros pode prejudicar de forma considerável o ambiente: "Quando eles agem livremente, há um grande risco de que o clima de trabalho passe a ser de insatisfação. Em um determinado momento, os privilégios de uns e a sobrecarga de trabalho de outros acabam vindo à tona."

Cabe aos chefes, diz Mozart, limitar a ação desses profissionais. Para isso, garante, nada melhor do que o profissionalismo e o espírito de equipe. "Nesse ambiente, vampiros ficam sem campo para atuar. A parte deles também é cobrada."

O chefe atento também pode perceber quando há um clima de insatisfação, tão logo o vampiro entra em ação. "Quando o coordenador não está disposto a ouvir e não presta atenção ao ambiente de trabalho, os conflitos deixam de ser externados pelos profissionais. O que é péssimo para todo mundo." (L.F.)

O Casarão, por Wanda Bernardini Caricati sábado, mar 11 2006 

Este depoimento foi feito a meu pedido. Mais tarde, tia Wanda perguntou-me se poderia utilizá-lo num concurso que a Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo estava promovendo. O texto obteve menção honrosa e foi publicado em livro.
 
Depoimento escrito original
 
À sombra do casarão
(Por Wanda Bernardini Caricati)
 
A notícia atingiu-me como uma bomba: o casarão estava morrendo.
 
Dei-me conta, nesse momento, que há mais de quarenta anos deixara aquele recanto, onde vivera os primeiros vinte e cinco anos de minha vida.
 
Como fora possível afastar-me por tanto tempo, engolfar-me em uma nova vida, apagar da minha memória, arrancar do meu coração pedaços da minha existência que, agora, estavam ali, nítidos, perfeitos, como se tudo tivesse acontecido no dia anterior?
 
Vivi, literalmente, à sombra do casarão.
 
Nas minhas primeiras lembranças, vejo-me na casa onde morava, ao lado do casarão, contemplando toda aquela grandez que me assombrava. Austero, magnífico, contemplava, desde o começo do século, um cenário maravilhoso.
 
A pouca distância, no seu leito milenar, rolava o caudaloso Tietê, de águas límpidas, que, nesse trecho, avançava tranqüilamente, mas cujas entranhas encerravam mistérios que me assustavam.
 
Ao longe, os cafezais estendiam-se a perder de vista e, para o seu cultivo, a grande colônia que rodeava o casarão tinha, sempre, uma população renovada.
 
Primeiro, vieram os escravos que habitaram as senzalas, cujas construções ainda ali estavam. No começo do século [XX], vieram as famílias italianas, depois as espanholas e, na década de trinta, os japoneses trouxeram a sua cultura e com seus hábitos, mudaram a paisagem ao redor.
 
Quanto movimento! Quanta alegria!
 
Na época da colheita do café, nas frias madrugadas, o sino badalava, acordando os trabalhadores para a lida.
 
Quando o sol começava a iluminar as encostas dos morros, as famílias partiam para o trabalho, num alegre burburinho, colorindo os caminhos que levavam ao cafezal.
 
Toda essa movimentação acordava o casarão, cujas janelas começavam, vagarosamente, a abrir-se para usufruir daquela sinfonia maravilhosa de vida e de sons.
 
Logo, as grandes carroças chegavam carregadas  de sacas de café que, rapidamente, eram derramadas nos lavadores. Os terreiros enchiam-se do café lavado, posto a secar e sempre revirado pelos trabalhadores atentos.
 
O sol, batendo sobre o café molhado, enchia o ar de um cheiro acre e adocicado.
 
A roda d’água movimentava a grande máquina que beneficiava o café e, por muitos dias, esse trabalho que começava de madrugada ia até altas horas da noite.
 
No campo, o rebanho pastava tranqüilamente.
 
Pelas grandes janelas, o sol enchia de luz e de vida o interior do casarão, que ostentava uma decoração sóbria e refinada, com seu soalho de tábuas largas e muito brancas. Uma escada sólida, revestida das mesmas tábuas, dava acesso ao primeiro andar.
 
Nesse interior harmonioso, a vida corria feliz e refletia-se no seu exterior, numa troca perfeita de energias que se derramavam ao redor, como a envolvê-la numa aura.
 
E o tempo passou… décadas e décadas se sucederam.
 
O interior do casarão foi se esvaziando, raramente as suas janelas eram abertas e a paisagem, antes contemplada, foi mudando gradativamente.
 
O velho Tietê já não era o mesmo. Suas águas escuras já não permitiam a vida em seu interior e ele fenecia.
 
Desapareceram os cafezais e a roda d’água silenciou, quedando-se imóvel, como uma carcaça inútil.
 
A alegre e heterogênea população da colônia foi, aos poucos, desaparecendo, em busca de outros lugares para sobreviver.
 
O velho sino silenciou e do seu toque alegre, nas madrugadas frias, ficou apenas uma lembrança, uma saudade.
 
E, agora, quando amanhece e o sol ilumina as grandes janelas, elas permancem fechadas, insensíveis ao carinho do velho amigo que vem saudá-las. Como guardiãs do silêncio e da penumbra, elas não permitem que ele penetre no interior do casarão e vá perturbar a agonia daquele que está definhando de saudade.
 
 
 
 

O Sobradão, por Agenor Bernardini, relacionado à atividade O CASARÃO quinta-feira, mar 9 2006 

Agenor Bernardini era meu pai. Assim como todas as pessoas da família, lado materno e paterno, mesmo que não tenham depoimento verbal ou escrito, no devido tempo, terão uma entrada especial.
O Sobradão
(depoimento por escrito, estilo conservado, de 10/03/1999)
 

A construção da sede da Fazenda Paraíso [Paraizo], situada na Estância Turística de Itu [SP], data da época bandeirista, mais provavelmente do século XVIII, quando a zona rural de nosso município atravessou períodos de grande prosperidade, com as culturas da cana, do café e do algodão, nas quais Itu se destacou como grande produtor e até exportador.

Naquele período, os fazendeiros erigiram os chamados “sobrados”, alguns dos quais ainda perduram, tanto nas fazendas como na cidade, servindo de moradia para as famílias, com cômodos reservados à criadagem (inclusive aos escravos) e, também, aos hóspedes, que sempre eram recebidos com toda cerimônia.

Os sobradões da cidade, tombados pelo CONDEPHAAT (órgão do Governo encarregado de preservar os monumentos históricos) estão em bom ou regular estado, embora alguns tenham sido destruídos por incêncios ou demolidos para atender à necessidade de reformas urbanas. Os das fazendas, igualmente, permancem bem conservados – como o da Chácara do Rosário, chamado “Casa do Bandeirante” – mas outros estão quase em ruínas e, nesta situação, se inclui o da Fazenda Paraíso [Paraizo] que, embora exteriormente apresente bom aspecto, interiomente está sendo devorado pelos cupins e a “taipa de pilão”, da qual foi construído, está comprometida pelas infiltrações de chuva e pela umidade.

Este sobradão tem para mim, que praticamente nasci na Fazenda Paraíso – fui para lá com meus pais, com menos de dois anos de idade – um significado especial. Ao tomar consciência de minha existência, já vivia lá, na época na “colônia” da Fazenda, ou seja, onde residiam os trabalhadores, numa das casas construídas em grupos de duas, enfileiradas, situadas obliquamente ao “quadrado” (outro grupo de casas unidas umas às outras, dispostas em forma de quadrado) e que, antigamente, fechavam o quintal onde os escravos eram reunidos.

Alguns anos depois, meu pai, que até então era feitor, foi promovido a administrador da Fazenda – cargo que ocupou por mais de trinta anos – e passamos a residir numa casa vizinha ao “sobradão”, em cuja frente havia o sino que, todas as manhãs, acordava os colonos para o trabalho.

Na época, o ambiente da Fazenda era alegre, pois havia trabalho para todos e os colonos, embora com padrão de vida modesto, desfrutavam fartura de alimentos, conseqüência de disporem de terras para plantar e espaço para criação de aves e animais.

Passamos, então, meus irmãos e minha irmãs, a ter um contato mais próximo do sobrado e mesmo a penetrar em seu interior, para algum  recado ou pequenos serviços e, também, para cuidar das aves no galinheiro que os proprietários da Fazenda possuíam em seu quintal – pomar – cujo acesso era pelo interior do prédio.

Minha existência no local durou até a data em que deixei a casa dos meus pais, em 1939, para ir trabalhar na Capital, mas continuei a freqüentar a Fazenda sempre que vinha a Itu rever a família, até mesmo depois de retornar a Itu, já casado, em 1949. Após o falecimento dos proprietários, e mesmo antes, quando meus pais deixaram a Fazenda, minhas visitas ao local diminuíram bastante.

Recentemente, tive ocasião de ir até lá e me entristeceu bastante o aspecto de abandono geral, inclusive do sobradão, que está se desintegrando, pois até a Capela do seu interior foi desativada e o altar, com a imagem do padroeiro, foi transferida para antiquários.

Permanecem em minha memória as recordações da época de minha infância e adolescência, quando tudo era vida e trabalho. Hoje, só resta a lembrança, guardada no fundo do coração, das coisas e das pessoas com quem convivemos na Fazenda, das quais o sobradão é um marco muito significativo.

 
 
 
 
 
 
 
 

O CASARÃO: informações iniciais (com imagens dos planos de atividades) domingo, mar 5 2006 

Informações sobre o casarão (sobrado) que serviu de estímulo para a produção de texto dos alunos de primeira série e a única segunda série da Professora Maria Lúcia Bernardini, Ensino Médio, em março/99, escola “Pinheiro Júnior”, em Itu / SP e ROTEIRO PARA A PROFESSORA (atividade iniciada em 16/03/1999, conforme instruções deixadas na escola para o professor substituto, pela Professora Maria Lúcia Bernardini, pois era falta abonada da professora por causa do aniversário dela.)

 

Fonte: O Barão de Itaim, Inaldo C. S. Lepsch, Ottoni Editora, Itu – SP , 1999

Ressalva: esta fonte foi inserida MUITO DEPOIS de a EDUCADORA Maria Lúcia Bernardini ter iniciado a atividade com os alunos; a professora não tinha a mínima idéia de que a referida fonte, livro, estava sendo impressa ou já tinha sido impressa, aguardando o momento do lançamento apoteótico, aparentemente com apoio político-partidário, o que, no modo de entender da EDUCADORA Maria Lúcia Bernardini, serve apenas para propósitos que beneficiam alguns privilegiados e não os interesses da comunidade; para que possa esclarecer um pouco mais, a referida atividade a ser desenvolvida com os alunos foi elaborada em casa, pela EDUCADORA Maria Lúcia Bernardini, por meio de uma matriz com a foto do casarão “escaneada” pelo irmão, Washington, da professora, e essa matriz foi copiada na mesmo copiadora que imprimiu o livro citado acima como “fonte” e, repito, isso aconteceu meses antes de o livro ser lançado. Coincidentemente, a rede “Globo” apresentou o tema dos imigrantes numa novela e é fácil imaginar o desespero de oportunistas que queriam ser “fontes de consulta”, mesmo que para isso precisassem atropelar e “melar” as vidas pessoais e profissionais de quem não tinha os mesmos interesses:

 

       Um casarão semelhante ao que hoje abriga o Museu Republicano “Convenção de Itu”, porém modificado, arquitetonicamente, após 1910.

       Antigo dono: Padre João Leite Ferraz, o edificador da Igreja Matriz de Itu.

       Pertenceu, depois, ao Barão de Itu: o registro histórico mostra o nome da Baronesa de Itu (viúva), D.ª Leonarda de Aguiar Paes de Barros. O nome do sítio era “Tietê”.

       Em 1868, o Capitão Bento Dias de Almeida Prado e a mulher passam a ser proprietários desse sobrado. O Capitão Bento recebe o título de Barão de Itaim em 1885. O sítio, após 1868, passa a ser denominado “Paraíso”.

       Por volta de 1870, o S.r Antônio Franklin de Toledo, casado com uma prima do Capitão Bento, supervisor do plantio de cana-de-açúcar do sítio “Paraíso”, montou a primeira moenda do engenho e se tornou o principal auxiliar e gerente dessa propriedade.

       Entre 1878 e 1889, Bento Dias se tornou o maior produtor de açúcar de Itu.

       Por um século, aproximadamente de 1750 a 1850, o plantio de cana e o comércio do açúcar se constituíram na base da economia de Itu.

       Em 1890, o Barão de Itaim vendeu a “Paraíso” para um primo (por 30 contos de réis). Já produzia café. Dez meses depois, acrescida de 1.800 pés de café, sem quaisquer outras benfeitorias (o que mostra que já não se plantava cana nem se  comercializava açúcar, como antigamente, mas tinha como plantio e comércio o café), foi revendida por noventa contos.

Informações da professora e da família dela

       Por volta de 1912, passa a pertencer à família de Joaquim da Fonseca Bicudo.

       Em 1926, o pai da professora, com três anos de idade já se recorda de estar morando na Fazenda “Paraíso”. O avô dela, Brazil Bernardini, filho de imigrantes italianos, casado  com Ignez Micai Bernardini, filha de imigrantes italianos (ambas as famílias chegaram ao Brasil em 1897), foi “capataz” ou “feitor” (os títulos da função são resquícios da época em que havia escravos negros) dos trabalhadores rurais, na maioria imigrantes. O sobrado foi “modernizado”, arquitetura neoclássica, antes do  declínio da produção cafeeira atingir, completamente, quem plantava e comercializava café.

       Hoje, o sobrado (ou o casarão) está em ruínas e, para que os alunos entendam os significados de algumas palavras como “aristocracia” ou “aristocrata”,  usadas de maneira a despertar neles uma curiosidade, pois, no Brasil, nunca houve nobreza, exceto quando a família real fugiu de Portugal para o Brasil, e, principalmente, para que os alunos REESCREVAM OS TEXTOS QUE PRODUZIRAM EM MARÇO, REVISADOS PELA PROFESSORA E PASSADOS A LIMPO por eles, ENRIQUECENDO-OS, CORRIGINDO INFORMAÇÕES QUE ESCREVERAM (E  POR NÃO CONHECEREM OUTRAS), após a visita ao Museu Republicano, o que lhes possibilitou conhecer as dependências de um casarão semelhante ao sobrado que lhes serviu de estímulo visual para a produção dos textos, a professora Maria Lúcia:

1)    Pretende ler, em voz alta, para as classes o texto de Rubem Braga, “Luto da família Silva”, Para gostar de ler, 4ª EDIÇÃO, São Paulo, Ática, 1984, volume 5, páginas 44 e 45, explicando bem que o autor não está ofendendo a família Silva, pois os Silva somos todos nós que trabalhamos honestamente e seguimos os exemplos de nossos antepassados, mas que somos sacrificados, somos.

2)    Pretende ler, em voz alta, para as classes o texto “Eu me orgulho de ser paulista”, de João Mellão Neto, Espaço aberto, Sexta-feira, 16/07/1999, “O Estado de São Paulo”, destacando os trechos que citam os imigrantes e o progresso de São Paulo e as evidências de que os barões do café, no máximo, construíram belos casarões (além de outras informações contidas no texto).

3)    Comentar com os alunos sobre o que sabem a respeito da situação financeira do município de Itu (e de outros municípios), pois muitos sugeriram que a prefeitura deveria restaurar o casarão e usá-lo para diversos fins (houve até quem sugerisse que o casarão deveria ser derrubado, discutir isso) e se continuam com essa sugestão ou acrescentam a informação de que a Prefeitura não tem dinheiro nem para pagar as desapropriações feitas em governos anteriores.

4)    Após os alunos melhorarem os textos, enriquecendo-os com as informações recebidas, a professora lerá para eles os depoimentos de Agenor Bernardini, Alzira e Wanda (irmãos que escreveram como se lembravam do casarão, quando viviam ao lado, porque o pai era o administrador da fazenda).

As imagens inseridas são apenas para comprovar a data dessa atividade.

Sempre "tomei sorvete pela testa" e, em faltas abonadas, deixava as atividades perfeitamente em ordem para que o professor substituto (geralmente um estagiário) usasse e abusasse do que eu preparara e gastara para que o substituto aplicasse. Depois, o estagiário ou o professor substituto (no masculino, por machismo da Língua Portuguesa) ficava com "as glórias" e, sempre, conseguia "uma boquinha", às minhas custas, claro.

 

AGUARDEM AS PRÓXIMAS INSERÇÕES.

Não serão inseridas as produções dos alunos, pois ficou evidente que muitas produções não eram dos alunos, mas de oportunistas e a EDUCADORA não conseguiu entender, na época, quais seriam os motivos para os alunos terem sido aliciados a cometer delitos e crimes, quando a EDUCADORA estava, como sempre, desempenhando as funções e obrigações de EDUCADORA. Com o decorrer do ano letivo, ficou evidente que os alunos aliciados a assumir a autoria de determinados textos não tinham, ainda, as habilidades que demonstraram na produção de texto sobre O Casarão. Isso foi possível de ser detectado pelas novas produções, pelas interpretações de texto e pelas atitudes em sala de aula.

 

 

Tem uma história nas cartas da Marisa (Continue a história) sexta-feira, mar 3 2006 

Um texto que utilizei em mais de um ano letivo, com alunos de quinta e sexta séries, Ensino Fundamental, como atividade de leitura para estimular a produção de texto: eu lia o texto do livro para eles e, num determinado trecho, que será apontado aqui, parava a leitura e pedia aos alunos que soltassem a imaginação e ESCREVESSEM qual seria a solução do mistério que Marisa relata por meio de cartas para a prima. Após as leituras de suas produções, em classe, em voz alta, para que os demais alunos ouvissem e eu também, terminava a leitura de Tem uma história nas cartas da Marisa. Invariavelmente, os alunos e eu amávamos os resultados das produções de texto. Há muito o que explorar, pedagógica e socialmente no texto redigitado abaixo. Basta que o educador, também, solte a imaginação.

 

Tem uma história nas cartas da Marisa

De Mônica Stahel

Editora Clube do Livro Ltda.

Editora: Sônia Junqueira

Ilustrações Miriam Okubo

Projeto Gráfico: Sibele Andreoli

Revisão: Zenaide Rosa de Jesus

São Paulo, Clube do Livro, 1986. Literatura Infanto-Juvenil

Adquirido por Maria Lúcia Bernardini, em 27/04/1987, na 1.ª Bienal do Livro / Nestlé, em Sorocaba / SP. Nesse Encontro, como educadora, aprendi a amar os livros do Ziraldo, por exemplo, por meio da leitura e discussão de vários livros de Ziraldo, entre eles, O menino mais bonito do mundo. Outro livro, de um autor de sobrenome Magalhães, Orelhinha, Orelhudo

                        Sabe Nada, Sabe Tudo,

que, a começar pelo título, interpreta-se que a personagem principal, Orelhinha, quando obediente (como o sufixo “inha”, com conotação afetuosa), não sabia nada, mas quando era chamado de “Orelhudo”, era porque sabia tudo, ou melhor, estava desafiando o status quo, questionando conceitos e atitudes.

*****

 

 

Para a Andréa e para a Renata, porque a gente se ama e vive uma história bonita. E para todos os que entram na nossa história.

(A autora Mônica Stahel)

 

Ângela,

            Depois que você foi embora para Ribeirão Preto, eu fiquei um tempão andando pela casa que nem barata tonta, achando tudo muito sem graça. Cada vez que eu pensava que ia ter que esperar até as outras férias pra brincar outra vez com você, me dava vontade de sair gritando de raiva. Mamãe me deu um picolé pra eu ficar mais contente, mas a raiva era tanta que eu mastiguei a ponta do pauzinho, até fazer uma franjinha. Mais tarde a Maria e a Cláudia vieram me chamar pra brincar. Nós ficamos pulando corda na calçada, e depois sentamos no muro e ficamos brincando de botar apelido nos meninos. O Carlinhos ficou sendo o Carlão-sem-sabão. Toda vez que a mãe dele chama pra tomar banho, ele volta logo depois com outra roupa, mas com a mesma cara. A Cláudia disse que o Carlinhos abre o chuveiro só pra mãe dele ouvir o barulho, mas vai ver ele fica sentado na privada vendo a água correr. Aí troca de roupa, e pronto.

            A mania do Chico é dizer que um jogo não valeu sempre que ele está perdendo. Então, o apelido dele ficou sendo Chico-não-valeu. Não deu pra inventar mais apelido porque os meninos ficaram loucos da vida, quiseram tomar a corda da gente e começaram a puxar nosso cabelo. No fim cansou, a gente acabou indo todo mundo jogar queimada na casa do Fernando.

            Eu voltei pra casa contente da vida, mas quando o Fábio me viu foi dizendo: “Ta tristinha porque a priminha foi embora? Vai ser ruim mexericar sozinha por aí, né?”. Ah, Ângela, que raiva! Às vezes dá vontade de trocar esse irmão marmanjo por uma irmã do meu tamanho, como você!

Um beijo da

Marisa.

Ângela,

            Hoje começou a escola outra vez. No começo, fiquei com um pouco de preguiça de ir, mas depois até que eu achei legal. Acho uma delícia escrever em caderno novo. Só que a gente demora um pouco para acostumar com os colegas, porque todo mundo cresce e às vezes até fica com uma cara meio diferente. Foi por isso que a gente estranhou quando o Duda entrou na classe. Foi o único de nós que, em vez de crescer, diminuiu. Estava com a mesma cara de sempre, gorducho, mas muito menor. Ninguém quis dizer nada pra ele não ficar chateado. Mas susto mesmo a gente levou quando, depois de uns minutos, o Duda chegou de novo, dessa vez bem crescidinho como todos os outros. Acontece que o primeiro Duda não era ele, era o irmão caçula dele, que entrou este ano no pré. A professora encontrou com ele no bebedouro e levou pra nossa classe. Só depois é que ela reparou que ele tinha encolhido.

            Quando eu voltei da escola, ainda deu tempo de brincar um pouco de esconde-esconde com o pessoal aqui da rua. Só que hoje não teve muita graça. Você se lembra daquela casa verde da esquina, que estava desocupada? Pois, quando eu fui entrar lá com o Fernando pra gente se esconder no quintal, o portão estava trancado. Aí que a gente reparou que tinha cortina na janela. Mudou gente pra lá, e está todo mundo curioso para saber quem é, porque ninguém viu a mudança. De todo jeito, não dá mais pra brincar lá.

Vê se me escreve também, viu? Um beijo da

Marisa.

 

Ângela,

            Hoje eu sonhei que o Fábio estava me ajudando a catar tatuzinho no quintal e, de repente, ele virou uma garrafa de coca-cola vazia. Na hora do café eu contei o sonho e ele ficou louco da vida. Disse que nunca mais vai me ajudar a catar tatuzinho, que isso é besteira de criança pequena, e começou a me chamar de Marisa-cara-de-tatu.

            Sabe, hoje de tarde eu passei com a turma um monte de vezes na frente da casa verde pra ver se a gente descobria quem é que está morando lá. Não deu pra ver nada, mas deu pra ouvir barulho de gente varrendo o chão. Então nós combinamos de um de nós ir lá, tocar a campainha, e sair correndo. Enquanto isso, os outros ficavam escondidos atrás do muro da casa do Chico, que moram em frente, pra espiar quem vinha abrir a porta. Quando a gente estava escolhendo quem ia tocar a campainha, o pai do Chico chegou e descobriu nosso plano. Aí ele falou que era pra deixar os vizinhos sossegados e ir brincar longe dali. Mas eu acho que é tudo fingimento do seu Francisco, porque ele também deve estar louco pra ver a cara do pessoal que está morando lá em frente.

            Com a bronca do seu Francisco mixou a brincadeira e a gente veio sentar no muro aqui de casa. O irmãozinho da Maria Luísa foi buscar os tatuzinhos dele pra eu ver. Aí o Fernando teve a idéia de fazer uma corrida de tatu: os do Tonhão contra os meus. Mas nem teve graça: o Tonhão tem um tatu de corrida que ganhou todas. Eu fiquei morrendo de vontade de ter um tatu daqueles, mas o Tonhão não quis trocar nem pelos meus cinco. Ele disse que só vende por dez cruzados. E a mamãe falou que dinheiro pra comprar tatu ela não dá, porque no quintal tá cheio. Acontece que tatu de corrida só tem no quintal da casa verde, e lá não dá mais pra entrar.

            Olha, Ângela, vê me escreve. A turma sempre pergunta de você, e eu fico até com vontade de inventar umas novidades pra não ficar sem graça.

Um beijo da

Marisa.

 

Marisa,

            Gostei muito das suas cartas. Você vai bem? Por aqui está tudo bem. Mamãe manda lembranças. Um beijo da

Ângela.

 

Ângela,

            Foi legal saber que por aí vai tudo bem. Só que achei a sua carta meio sem graça. Aposto que você não sabia o que escrever e foi pedir pra sua mãe ditar.

            Minha mãe está na sala trabalhando, e eu estava espichada na cama, resolvendo se ia ler um livro ou escrever para você. Aí comecei a imaginar como é que ia ser se a cama saísse voando por aí comigo em cima. Fui correndo buscar um pacote de bolacha, uma garrafa de guaraná e o penico, e deixei tudo aqui perto de mim. Agora posso escrever sossegada, porque se a cama voar eu não passo fome nem sede, e nem preciso ficar segurando xixi.

            Depois que eu pedi dinheiro pra comprar tatu, a mamãe e o papai resolveram me dar uma mesada para eu gastar no que quiser. Na mesma hora eu saí correndo pra comprar o tatuzinho de corrida. Mas quando o Tonhão foi buscar o tatu, ele estava morto dentro do vidrinho. Também, acho que o Tonhão se esqueceu dele: nem pra dar comida e abrir um pouquinho a tampa do vidro pro coitadinho poder respirar! Só quero ver se ele consegue arrumar outro.

            Sabe, o Chico contou que outro dia ele acordou de noite pra ir no banheiro e quando chegou na sala o pai dele estava no escuro espiando a rua por um buraquinho da janela. Aí o seu Francisco disse que não estava conseguindo dormir e foi tomar um pouco de ar. Mas a gente achou muito gozado alguém tomar ar com a janela fechada e o olho pregado num buraquinho.

            A mamãe disse que o açougueiro contou pra ela que todo dia, quase na hora de fechar o açougue, vai lá um homem meio esquisito, com uma capa marrom. Ele chega, pede quatro bifes, paga, e vai embora sem falar nada.

            Acho que ele mora na casa verde.

            Eu contei isso pra turma, e a gente anda achando que esse homem esconde alguma coisa lá na casa.

            Ontem a gente ficou até tarde fingindo que estava brincando lá na calçada do açougue, mas o homem não apareceu. Aí a Cláudia falou com o açougueiro e ele disse que ontem o homem levou doze bifes. A Maria Luísa fez as contas e disse que dá para três dias. Então hoje também não adianta a gente esperar.

Um beijo da

Marisa.

 

Ângela,

            Hoje amanheceu chovendo. Que raiva que me deu! Justo num fim de semana, e eu sem nada pra fazer. Resolvi arrumar minha caixa de lembrancinhas. O Fábio entrou no quarto e ficou vendo as coisas comigo. Tem um garfinho de plástico da festa do Duda, um broche sem alfinete que eu achei na escola, uma fita estragada de gravador que o papai me deu, um cinto velho de um vestido da vovó, tampinha de garrafa, um monte de vidrinhos de remédio vazios (alguns até ainda estão na caixinha), uma pena de galinha, uma pedras redondinhas que eu achei na rua, aquele palito de sorvete mastigado, e um monte de outras coisas. O Fábio só reclamou quando ele achou uma bexiga velha, foi encher e percebeu que ela estava furada. Aí ele disse que tudo aquilo não serve pra nada, mas mesmo assim ficou olhando até eu acabar a arrumação.

            De tarde, a Cláudia veio aqui. Nós brincamos um pouco de boneca e depois fomos pra casa do Chico jogar dominó com todo mundo. De repente começou uma briga porque o Fernando grudou chiclete no cabelo da Maria Luísa. Os meninos começaram a defender o Fernando. Eu acho que a Maria Luísa é meio chata mesmo. Só porque ela é a mais velha, vive se exibindo e querendo mandar nas brincadeiras da gente.

            Eu não estava com vontade de brigar e fui pra janela olhar a chuva. Aí, menina, eu via as duas mãos de alguém fechando a veneziana da casa verde. Chamei o pessoal, e foi aquela correria. Mas, quando eles chegaram na janela, as mãos tinham entrando e ninguém viu nada.

                        O Chico acha que o homem da capa marrom é dono de um bicho-papão que ele não quer que ninguém veja. Eu lembrei da história dos quatro bifes. Mas o Chico disse que bicho-papão come muito e que deve ser três bifes pra ele e um pro dono. Só se for isso.

            O Tonhão acha que o homem é um bruxo disfarçado de gente. Como a bruxa é mais difícil de disfarçar por causa da verruga na ponta do nariz, ela manda o marido comprar carne pra ela e pros dois filhos. Mas aí eu já acho que é invenção do Tonhão, porque ele é muito pequeno.

Um beijo da

Marisa.

 

Marisa,

            Minha mãe disse que bicho-papão não existe. Por aqui vai tudo bem. Um beijo da

Ângela.

 

Ângela,

            Você parece boba! Todo mundo diz mesmo que bicho-papão não existe. Mas ninguém consegue descobrir quem é que mora na casa verde. Nem você e nem sua mãe.

            Ontem, eu ganhei duas tartaruguinhas daquelas que ficam na água. Arranjei uma bacia com água e algumas pedras pra elas subirem pra tomar sol. De tarde o Tonhão veio aqui e a gente achou que as tartarugas estão muito fracas, porque elas estão nadando meio devagar. Elas estavam precisando de um pouco de ginástica. Na mesma hora nós começamos a fazer exercícios de abrir e fechar as patinhas da frente, depois as de trás, plantar bananeira, como a gente aprende na aula de Educação Física da escola. Elas ficaram tão cansadas, que depois encolheram as patinhas e a cabeça dentro da casca e ficaram dormindo em cima das pedras. O Fábio disse que desse jeito nós vamos matar as tartarugas, mas eu nem liguei. Cobri as duas com uns paninhos pra elas dormirem melhor.

            De repente a Maria Luísa apareceu gritando que nem doida. Quando ela estava voltando da escola, passou na frente da casa verde e ouviu uns gritos horríveis lá dentro. Saímos correndo pra chamar o resto da turma e fomos pra lá, mas estava tudo quieto. Eu achei bom, porque estava com um pouco de medo, mas ia ser a primeira vez na minha vida que eu ia ouvir voz de bicho-papão. A Maria Luísa imitou pra gente ver, mas não saiu direito.

            A gente ficou um tempinho atrás do muro do Chico, todo mundo meio escondido. Quando o medo foi passando a gente começou a chamar o bicho-papão pra ver se ele respondia. Mas nada. A gente chamava cada vez mais alto e cada um ia dizendo uma coisa:

            “Homem da capa marrão, traz aqui o bicho-papão.”

            “Bicho-papão bobão, come bife com feijão.”

            “Fugiu, seu fujão, trepado no vassourão.”

            Essa quem inventou foi o Tonhão, porque ele continua querendo pôr uma bruxa de vassoura no meio da história. Mas ninguém ligou pra nossa gritaria, só as mães que começaram a chamar pra tomar banho. Aí a gente reparou que todas as casas já estavam de luz acesa, menos a casa verde.

Um beijo da

Marisa.

 

Marisa,

            A mamãe disse que o homem da capa marrom deve ser muito bonzinho e que ele compra bife pra dar pras crianças pobres que moram perto da casa dele.

            Por aqui vai tudo bem.

Um beijo da

Ângela.

 

Ângela,

            Essa história que a sua mãe inventou é história mais maluca e mais sem graça que eu já ouvi na vida. Sua mãe não deve entender muito mesmo dessas coisas, porque só aqui perto tem muito mais de quatro crianças pobres.

            E, depois, o açougueiro contou pra gente que faz um tempão que o homem da capa marrom não aparece mais pra comprar carne. Será que ele está doente? Será que o bicho-papão aquele dia estava berrando de fome? Será que o bicho-papão comeu o homem porque ele não quis mais comprar bife? Será que o homem comeu o bicho-papão porque ele comia bife demais?

            Não sei, não… Naquele dia que a gente aprontou aquela gritaria, o Chico disse que de noite apareceu uma luz misteriosa dentro da casa verde, fraquinha, que piscava muito.

            Hoje de manhã eu fiz um leãozinho de papelão e caixa de fósforo, pra aproveitar o palito mastigado de sorvete pra fazer o rabo. Também aproveitei um papelzinho de bala de coco pra fazer a juba. Achei o leãozinho tão legal, que me deu vontade de dar ele pro bicho-papão. O Tonhão veio aqui pra me perguntar uma coisa e achou a idéia ótima, pra dar um susto no bicho-papão. Isso eu não sei, vai depender do tamanho dele. Se for do tamanho da gente, acho que não assusta não. Mas, se for assim, do tamanho de um ratinho, aí acho que ele vai mesmo morrer de medo. Amanhã depois da escola eu vou lá na casa verde. Vou pular o portão, pôr o leãozinho bem na porta e sair correndo. Mas isso é segredo só meu e do Tonhão. Só que eu não queria que o bicho-papão ficasse com muito medo. Até amarrei no pescoço do leãozinho um bilhetinho assim: “Bicho-papão, fiz esse leãozinho pra você brincar.”

Marisa

Será que ele vai ficar bravo? Um beijo da

Marisa.

 

Marisa,

            Você não disse o que é que o Tonhão foi perguntar pra você. Aqui vai tudo bem. Um beijo da

Ângela.

 

Ângela,

            Eu esqueci mesmo de dizer o que o Tonhão veio me perguntar. É que o pai dele foi levar o cachorro no médico pra vacinar, e ele queria saber se o médico de cachorro é cachorro. Eu disse que devia ser, mas não é.

            Hoje não tenho nenhuma novidade da casa verde pra contar. Depois que eu deixei o leãozinho lá, não aconteceu mais nada. Mas ontem eu fui lá bem pertinho e vi que o meu presente não está mais lá. Alguém tirou, ou pisou em cima, ou comeu.

            A turma toda não tá mais agüentando esperar. Ontem a gente já começou a pensar em fazer a invasão da casa verde. O Fernando deu a idéia de entrar lá gritando e jogando pedra, até aparecer alguém. Só que a gente fica com medo das mães e dos pais. Acho que eles iam dar a maior bronca. A mãe do Carlão até falou pra gente ir lá, tocar a campainha e perguntar quem é que mora lá. Você já viu idéia mais boba?

            Hoje o Tonhão e eu fizemos uma armadilha de formiga. A gente pôs açúcar num vidrinho e deixou lá no chão do terraço. Amanhã, quando estiver tudo cheio de formiga, é só tampar o vidrinho e pronto. Já tem uma coleção. É mais fácil do que catar tatu. O Fábio quis jogar a armadilha fora porque ele disse que a gente só vai conseguir caçar barata. Mas eu já falei que se ele fizer isso eu jogo todos os carrinhos dele na casa do bicho-papão.

Um beijo da

Marisa.

 

Ângela,

            Você nem imagina o que aconteceu hoje. Pulei da cama logo cedinho e fui abrir a janela da sala pra ver se tinha muita formiga na armadilha. Mas não deu nem pra olhar pras formigas. Bem ali, pertinho da janela, tinha um embrulhinho todo ajeitadinho, amarrado com uma fitinha. Eu abri o embrulho e, dentro, achei um bonequinho feito de argila, lindo de morrer. O boneco tem uma verruguinha bem na ponta do nariz. Procurei ver se tinha algum bilhete, mas não achei nada, nem uma palavra. Puxa, bem que o bicho-papão podia ter mandado algum recado. Eu estava louca pra saber se ele gostou do leãozinho. Ainda não contei pra ninguém desse presente que eu ganhei. É capaz do pessoal achar que eu estou ficando lelé, e a Maria Luísa pode até ficar dizendo que bicho-papão não sabe fazer boneco de argila. Mas esse sabe.

Um beijo da

Marisa.

 

Ângela,

            Eu ia escrever agora pra você, mas tocou a campainha e eu estou vendo pela janela que é um homem de capa marrom. Eu vou lá com a mamãe pra ver o que é que ele quer. Tchau.

Marisa.

 

[Neste trecho, costumava parar a leitura para os alunos e esperar que escrevessem, naquela mesma aula ou na aula seguinte, uma continuação em que usassem a imaginação deles. Como os alunos escreviam em seus próprios cadernos e liam, em voz alta, para a classe toda e para mim, não estavam sendo corrigidos com relação à semântica ou à sintaxe, mas sendo OUVIDOS, isto é, o que importava era o conteúdo. Não tenho nenhum documento que possa redigitar aqui como produção literária desses alunos, pois ficavam nos cadernos deles. Acredito, sinceramente, que foi por atividades como essas, em que os alunos liam suas produções, do caderno, e não recebiam correções, que se criou um conceito errado sobre mim (que partiu, claro, do crime organizado, pois eu nunca fiz parte de quadrilha nenhuma e era "perigoooooooosa") de que eu jamais "corrigia" o que os alunos produziam. "Tadinhos", rezem pelos lacaios do crime organizado, lacaios que queriam (em obediência aos "patrões" do tráfico de influência) que eu saísse do Magistério Público, para que, de posse de todas as minhas produções pedagógicas, [os lacaios] ocupassem meu lugar. Ou será que alguma escola particular, de primeiro, de segundo ou de terceiro grau (como denominávamos naquela época de primeira a oitava séries, colegial e ensino superior) queria me ver "rastejando" para pedir vaga e não pagar o que eu merecia, porque EU os procurara? Certamente, a maioria absoluta das produções dos alunos  era muito boa, pois eu ouvia os alunos e prestava atenção ao conteúdo (enquanto exercitavam a habilidade de escrita para, no devido momento, receberem as correções necessárias) e não os interrompia, a não ser que o erro fosse muito evidente, na leitura, e precisasse de correção; mesmo assim, deixava a correção para o final da leitura do próprio produtor do texto. Sem o receio de que seriam inteiramente corrigidos, soltavam-se. Essa atividade deve ter sido feita entre os anos de 1991 e 1993.]

Final do livro:

 

Ângela,

 

          Faz tempo que eu não te escrevo, né? Nesse tempo todo eu ganhei um amigo. E depois andei muito triste proque fiquei sem ele. Ele tem uma verruga na ponta do nariz, usa sempre uma capa marrom e morava na casa verde do bicho-papão. Você tem que ver que jóia ele é.

          Na casa dele tinha um monte de tinta de tudo que é cor, papel colorido, três gatos numa cestinha, um trombone, um monte de pincel. Sabe, ele é pintor e chama seu Genésio.

          O seu Genésio sabe contar um monte de histórias lindas. Um dia eu fiquei lá a tarde toda fazendo desenho e ouvindo as histórias dele. Cada vez que o seu Genésio ia para a cozinha, ele tropeçava na cesta dos gatos, e eles aprontavam o maior berreiro. Até que eu resolvi tirar a cesta do meio do caminho e ficou melhor. O seu Genésio é muito distraído mesmo. Ele esqueceu de pagar a conta de luz e cortaram a luz da casa. Então, quando começou a ficar escuro, a gente parou de desenhar e acendeu uma vela. Acho que aquela luz misteriosa que a gente enxergava do lado de fora era luz de vela.

          O seu Genésio me contou que ele nunca fica morando muito tempo num lugar só. Ele gosta de conhecer sempre outros lugares e outras pessoas pra sempre ter idéias novas para pintar.

          A gente fez pipoca, mas o sal tinha acabado. Então a gente pôs açúcar mesmo, e ficou meio esquisito. eu fiquei um tempão comendo pipoca e ouvindo o seu Genésio tocar trombone.

          Quando a mamãe chamou pra ir pra casa, deu dei um beijo no seu Genésio. Aí ele me disse que ia mudar no dia seguinte para um país bem longe. Acho que um dia ele vai pintar um quadro da tarde que a gente passou junto.

Um beijo da

Marisa.

 

Marisa,

          Minha mãe não disse que bicho-papão não existia? Por aqui vai tudo bem.

Um beijo da

Ângela.

 

Ângela,

          Foi muito divertido brincar de bicho-papão. Só que agora perdeu a graça. Hoje eu não vou escrever muito. Hoje de manhã eu vi um caminhão de mudança parado na frente da casa verde. Eu vou correndo ver que é que mudou para lá. Vou bater na porta, pedir licença e entrar na casa, porque eu não quero perder mais um amigo.

Um beijo da

Marisa.

FIM

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Comentário de Maria Lúcia: é impressionante o potencial de qualquer livro que se transforme em atividade pedagógica. Neste, em especial, embora o tempo não esteja determinado – por meio de datas nas cartas, por ser atemporal – é possível acompanhar o passar dos dias ensoladorados, chuvosos, se é manhã, se é tarde, se é anoitecer… O estado de espírito de Marisa (características psicológicas, inclusive) se mostra pelo conteúdo de suas cartas à prima Ângela. A prima Ângela, por sua vez, que me perdoe quem estiver lendo e não goste de termos assim, é a própria "antitesão", porque joga um balde de água fria no entusiasmo de qualquer um. Todavia, como "antagonista", serve para orientar sobre algumas noções de educação, polidez e, quem sabe, determinar que a formação e informação dela são inferiores às de Marisa. Sem um "tico" de imaginação, Ângela desmonta todas as hipóteses de Marisa, dando-lhes soluções típicas de adultos, o que prova que a mãe de Ângela é que ditava as respostas para ela, enquanto Marisa, independente, extrovertida e imaginativa insistia em enviar notícias à prima.

**********

As imagens inseridas são do livro, muito manuseado por alunos, a quem eu o emprestava, e, mais recentemente, pela minha sobrinha Marina, que ri, todas as vezes, exatamente nos mesmos trechos e expressões. Marina já reparou, muito bem, que a Ângela não responde às cartas de Marisa e não gosta da Maria Luísa, porque é mandona, embora não reconheça essa "falha" nela mesma. O livro precisou ser reencadernado, com espiral, por causa do perigo de desfazer-se e a capa plástica era, sempre, uma providência, de minha parte, para que o livro durasse mais tempo (filho único de mãe solteira!) em virtude do manuseio por parte dos alunos. Nunca me incomodou o fato de o livro estar marcado pelas mãos que os liam, mas o fato de serem furtados me deixava p*** da vida!

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Sou a favor da pena de morte quinta-feira, mar 2 2006 

Taqueospa: este é um texto que PRIMA pela ironia.

Se você não é um lesado pela corrupção que grassa no país desde o descobrimento, entenderá a lógica dele.

Sou a favor da pena de morte

“O fato de viver não me envilece” – Lêdo Ivo

 

De José Roberto Whitaker Penteado

Em O ESTADO DE SÃO PAULO, de 30/07/1991, Espaço Aberto, página 02.

 

            No debate que se está estabelecendo [1991] em torno da aplicação da pena de morte no Brasil, acho que todos os setores da sociedade devem opinar. Aqui vai a minha colaboração.

            Sou a favor da pena de morte.

            Sou a favor da pena de morte, por exemplo, para os revisores de imprensa, como já preconizava aquele outro ferrenho defensor da pena de morte seletiva, Paulo Francis.

            Mas, sério mesmo, eu sou a favor da pena de morte.

            Sou a favor da pena de morte para aquelas pessoas que, do silêncio e do conforto dos seus gabinetes em Brasília, mandaram confiscar o dinheiro da poupança e da esperança de milhões de brasileiros. Ainda há tempo.

            Sou a favor da pena de morte para vereadores, deputados e senadores que aumentam seguidamente os próprios proventos, enquanto trabalhadores passam fome. Para servidores públicos que, em vez de servirem à sociedade, dela se servem e se tornam marajás. E para os marajás – lembram-se deles? – aqueles mesmos que o homem com aquilo roxo prometeu caçar, mas que continuam aí, escancarados. Pena de morte neles!

            Para os que aprovam, sem nenhum remorso, a cobrança de novos impostos inconstitucionais e iníquos, para sangrar mais fundo aqueles que tentam viver do produto do seu trabalho. Para os tecnoburocratas que, permanentemente, se ocupam em criar novos impostos, taxas e confiscos para asfixiar as pequenas empresas e os pequenos empresários que tentam empreender alguma coisa no País, e – em especial – para os muitos que recebem e aplicam o dinheiro, resultado desses impostos, na manutenção regalada da obesidade cada vez mais obscena do Estado – e isso 200 anos depois de Hobbes!

            Pena de morte para políticos, empresários, os funcionários que tornam imortal nossa dívida externa, pois abocanham gordas comissões e propinas para que ela se torne cada vez maior.

            Para os donos de imensas terras do nosso interior, que mandam assassinar pessoas indefesas, com a cumplicidade dos governates. Para os governantes, cúmplices, que deixam matar inocentes. Para os policiais e os militares que torturaram e mataram, tão recentemente, pessoas desarmadas e indefesas. Para as “instâncias superiores” que lhes garantiram impunidade e recompensas. Para os policiais que, em vez de proteger a sociedade dos bandidos, fazem sociedade com eles e se tornam bandidos piores.

            Pena de morte para os bacharéis, advogados e juízes que deixam se avolumar e apodrecer milhares de processos, que deveriam estar produzindo justiça. Pena de morte para os responsáveis, no MEC, pela proteção às panelinhas dos donos do ensino, enquanto, sem educação ou com ensino inadequado, a Nação vai perdendo a corrida contra o futuro.

            Pena de morte para os médicos e todos os outros profissionais indignos, que roubaram e roubam o dinheiro da Previdência Social que foi pago pelos cidadãos. Para todas as pessoas, dentro e fora do governo, que continuam lucrando com o indecente comércio de sangue humano e causaram Aids em pessoas bonitas e insubstituíveis como o Henfil. Para os médicos, enfermeiros e enfermeiras que deliberadamente matam pessoas legalmente nos hospitais.

            Para os governantes que deixam queimar as florestas, para os falsos empresários que lucram com a queima das florestas e para os maus profissionais e empresários que permitem que se criem e vendam produtos e serviços que matam pessoas.

            Para os maus jornalistas, que deliberadamente deformam ou escamoteiam as notícias, para levar vantagem. Para os falsos “líderes” religiosos que enriquecem à custa da ignorância e da doença mental.

            Muito especialmente, sou a favor da pena de morte para as pessoas que propõem a pena de morte no Brasil, porque os que dirigem a Nação são covardes ou incompetentes para resolver os problemas sociais que nos afligem, por meio de soluções sociais. [Destaque de Maria Lúcia]

            Se for para essas finalidades, a pena de morte, no Brasil, será verdadeiramente um achado.

            Se não, se for para ela ser criada para ser aplicada por juízes ímprobos e policiais corruptos para matar os mesmos pobres coitados de sempre – então continuo sendo contra. [Destaque de Maria Lúcia]

(José Roberto Whitaker Penteado, jornalista e publicitário, no ano de 1991, era diretor vice-presidente da Escola Superior de Propaganda e Marketing)

 

Os piolhentos e nós quinta-feira, mar 2 2006 

Este texto costuma provocar a ira de quem o lê pela primeira vez.

No entanto, se você não é um "piolhento" (um lesado pela corrupção que grassa no Brasil desde o "descobrimento" em 1500) perceberá que o autor dele SE INCLUI (pelo uso de "nós") e não nos está apontando com o dedo sujo.  

Os piolhentos e nós

De Fernando Pacheco Jordão, jornalista, publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, 22/03/1991, página 2.

“Já vi criança queimada… queimada de cigarro… machucada com tiro no pé, que o pai deu… criança com piolho, aqui tem muito piolho…”

(Depoimento de uma mulher para trabalho da Secretaria do Menor no Jardim São Luís, em São Paulo)

 

                

           Logo nas primeiras páginas de seu livro De Beirute a Jerusalém, recém [1991] lançado no Brasil, o jornalista americano Thomas Friedman descreve seu espanto ante a violência do seqüestro de um homem por um bando armado, em Beirute, à luz do dia, sem que ninguém esboçasse a menor reação. E registra o comportamento do motorista do táxi em que viajava. Mudo, retido num engarrafamento, limitou-se a acompanhar a cena pelo canto do olho. Não fez comentário algum. Friedman comenta que na convivência cotidiana com episódios como aquele, banais na guerra civil de Beirute, a pessoa aos poucos tece para si um colete emocional que lhe permite atravessar imune essa rotina de violência.

            Aqui, fazemos mais ou menos o mesmo. Tecemos nosso colete de indiferença, erguemos nossas cidadelas para morar e nos julgamos a salvo de uma guerra que imaginamos confinada ao terreno dos que queimam suas crianças com cigarros e chegam a lhes dar tiros nos pés.

            Até o dia em que invadem nossos muros, estupram nossa filha e outros caem de pancada sobre nossa mulher, como costumam fazer com quem lhes pareça delinqüente. Só aí reagimos, com a mais justa das indignações. E perguntamos: será preciso erguer ainda mais os muros da cidadela? Ou, quem sabe, mudá-la para mais longe? Na verdade, nunca fazemos a pergunta crucial: o que temos a ver com esta guerra?

            Os dois recentes [1991] casos de violência que vitimaram em São Paulo pessoas de classe média – o assassinato da jovem estudante de Alphaville e a agressão de um policial à mãe de uma criança que buscava o filho na escola, na Avenida Higienópolis – convidam à reflexão sobre os perigos do individualismo suicida que cada vez mais nos contamina o tecido social.[Destaque de Maria Lúcia]

            Não se trata de intenção piegas de invocar injustiças sociais para justificar violências e pedir clemência para seus autores. Nada disso. Trata-se simplesmente de lembrar que, por mais que nos isolemos, por mais que nos escondamos atrás de muros, não dá para fazer de conta que nosso universo tem a dimensão de nossos domínios particulares. Não dá para ficar espiando pelo canto do olho, como o motorista de Beirute, indiferente ao que se passa além-fronteiras da nossa cidadela. Não por caridade ou amor ao próximo, mas porque, em nosso cotidiano, dependemos a todo momento dos piolhentos que catalogamos como uma sociedade à parte.[Destaque de Maria Lúcia]

            Podemos [destaque de Maria Lúcia] pagar escolas particulares. Por isso, que se dane o resto.

            Mas, amanhã, um piolhento lesado por um ensino público falido vai ser nosso funcionário ineficiente. Sua irmã piolhenta e semi-alfabetizada vai ser babá de nossos filhos. Podemos [destaque de Maria Lúcia] pagar seguro-saúde privado. Que se dane o resto. Mas, amanhã, um piolhento desses será o enfermeiro de cuja formação precária vamos precisar num hospital. Assim como um piolhento se torna assassino e outro, fardado, esbanja truculência. Nosso individualismo burro condena os piolhentos a uma marginalidade social que, cada dia mais, se volta contra nós mesmos, em prejuízo de nosso próprio conforto material e de nossa qualidade de vida [Destaque de Maria Lúcia]. É algo já introjetado no caráter da classe média brasileira: não nos importamos com o social – o público – porque nos iludimos achando que garantimos nossa sociedade com o pagamento da fatura do privado. Ao contrário do que Thomas Friedman descobriu na guerra de Beirute, na nossa guerra não há colete emocional nem físico que resista.

 

Sou índio mais feliz (com imagens jpg) quinta-feira, mar 2 2006 

Este texto serviu, em sala de aula, para entendimento do conteúdo, após a leitura dos alunos comigo, porque tinham cópia mimeografada em mãos, e, posteriormente, para que os alunos percebessem, respeitassem e assimilassem que o português coloquial, falado por alguém que tem o português como 2.ª língua ou de quem não pôde freqüentar escolas, além de ser perfeitamente inteligível, poderia ser transformado em português padrão, num exercício daquilo que os alunos já conheciam após estarem na escola por cinco ou seis anos. Repito: sem desrespeitar aqueles que, por um motivo ou outro, não puderam ter o mesmo conhecimento do português padrão que, supostamente, é aprendido nas escolas.

Sou índio mais feliz

Davi Kopenawa Yanomami

Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, 14/02/1989, Espaço Aberto

[1]

            Com esse prêmio da ONU fiquei mais forte. Os brancos ajudando a mim, me dão coragem para qualquer briga. Sou um índio mais feliz que outros. Meus parentes  são muitos, mas são poucos que falam português. Na minha tribo yanomami somos atrasados, somos primitivos, lá todo mundo anda nu. Tem só uns dez ou vinte que falam português. Muitos têm medo de lutar contra os garimpeiros, os fazendeiros, os brancos. Eu não, eu não tenho medo. Porque nasci para defender meu povo. Não nasci pra ficar na cidade. Me criei no mato, nunca saí do meu lugar, onde meus pais nasceram, se criaram.

            Não faço como os brancos, que saem daqui pra lá, vão a Roraima, fazendo barulho, criando problema. Os yanomami não fazem isso, os yanomami têm respeito. Não têm estudo, mas andam na linha. A Funai pra mim já morreu. Só ficou o nome da Funai. Primeiro Funai tinha força pra ajudar índio, agora tá do lado dos garimpeiros. A Funai esqueceu dos índios, por causa do ouro. Muitos meus parentes não sabem que ganhei prêmio. Nós somos tão espalhados… não tem comunicação. Só vão saber quando eu chegar. Mas tem outros parentes muito preocupados de mim. Os pajés que trabalham pra proteger mim estão muito preocupados. Porque sou filho único pra defender povo yanomami.

            Então pajés tão fazendo trabalho pra não acontecer pra mm o que aconteceu Chico Mendes. Tem os guerreiros também que estão do lado de mim, cuidando. Se garimpeiros quiser fazer matança de mim no mato, na aldeia, eles também não escapam não. Eles podem escapar na cidade, porque índios não vão lá. Mas na aldeia, não escapam. É bom que fiquem sabendo.

            Agora nós tamos quietos. Mas se garimpeiros, se branco forem mexer com nós vai ser pra matar e morrer. Daí morre índio, morre branco, morrem todos. Tem que respeitar os índios. Nós estamos respeitando brancos. Conheço vocês, falo língua de vocês, não sou contra os garimpeiros. Sou contra a garimpagem porque deixa buraco, estraga rio e igarapé. Os yanomami não fazem isso, cortar terra, cortar árvore, queimar floresta. Nós não ser inimigo da natureza. Somos amigos da natureza porque vivemos lá na selva. Ela é que cuida da nossa saúde. Lá não faz calor porque tem árvore alta. Aqui não tem pau alto, por isso vocês têm que ficar comprando ventilador. Omani (Deus) deu a terra pra gente viver nela, não pra vender. Branco vende, vai pra outro lugar. Índio nas faz isso.

            Não estou satisfeito porque brancos deram esse prêmio. Estou e não estou. Porque os meus parentes estão morrendo. Antes não acontecia isso, os yanomami não sabiam que os brancos iam fazer mal pra gente. Agora os peixes estão sofrendo, os rios tão acabando. Os brancos também tão sofrendo lá. Índio e branco, branco pobre e branco rico. Porque a doença não tem medo, ela mata qualquer um, pode ser rico, pode ser brabo, pode ser grande.

            O governo brasileiro vai ter que ajudar para parar isso aí. Se ele deixar invadir esse pedacinho do Brasil, não vai ter outro igual a essa área yanomami. A minha é a última terra pra invadir, é a última invasão. Depois do índio sofrer, o branco vai sofrer trambém. Aí vai chegar a guerra entre vocês: venezuelanos e brasileiros vão brigar, vocês vão ver. O meu trabalho é pra frente, eu não penso só no hoje não.

            Eu sabia que os garimpeiros iam chegar na minha área, eu sabia tudo. Eu sabia que a Funai ia abrir mão pros garimpeiros invadirem. Os índios pediam pra retirar os garimpeiros e a Funai não tomava providência. O branco diz que o Brasil vai melhorar, mas tá piorando. Os brancos tão sofrendo também, os pobres. Não tão sofrendo? Não têm terra pra plantar, não têm terra pra viver. O governo quer tudo só pra ele. Não devia estar fazendo isso não. Devia dar pros  pobres também. Eles acham que quando morrerem vão poder levar tudo junto com eles? Não. Vão ter de deixar. Esse é o meu pensamento, esse é meu trabalho. Era só isso que queria dizer.


[1] Davi Kopenawa Yanomami é líder indígena e ganhou o prêmio ecológico GLOBAL 500 das Nações Unidas. Este depoimento foi prestado verbalmente à repórter Rosana Bond, da Agência Estado de Brasília.

 

Escutai a minha prece quinta-feira, mar 2 2006 

De Ariovaldo Bonas, Caderno 2, O ESTADO DE SÃO PAULO, 02/06/1987.

 

ESCUTAI A MINHA PRECE

Só ofereço ervas daninhas, a parte boa de uma colheita de vermes, ratos e cobras

 

Senhor,

            Abençoai de novo os pobres de espírito

            – são tudo que nos resta;

            perdoai as velhas cascavéis delirantes

            – imaginam que deixaram de ser répteis;

            ouvi o lamento dos viciados pelo poder

            – é o coro minimalista[1] dos medíocres;

Cristo, tende piedade de nós.

 

Senhor,

            Amai os que se deixam enganar por seduções baratas

            – eles se têm em alto preço;

            iluminai os calculistas renitentes

            – especulam se um resto de dignidade é um bom investimento;

            protegei os que caiam[2] os sepulcros

            alguém tem que limpar a latrina do limpador de latrinas;

Cristo, tende piedade de nós.

 

Senhor,

            Sorri aos que evocam o mal e o bem e se cobrem de amuletos

            – são crianças brincando de deuses;

            ajudai os que se anunciam concessionários exclusivos da divindade

            – acham que o marketing foi criado no sexto dia;

            rezai pelos que ensinam crianças a rezar

            – não crêem na bondade humana;

Cristo, tende piedade de nós.

 

Senhor,

            Aceitai o sacrifício dos que pagam prestações

            – perdem a vida com o suor do rosto;

            dignificai o sexo dos que se desencontram pelas esquinas

            – é todo o amor que podem dar;

            acolhei os tristes travestis

            – não como cadáveres ambulantes;

Cristo, tende piedade de nós.

 

Senhor,

            Fazei do último suicida o mais formidável anjo

            – e ele sentirá que alguém se importa;

            caminhai com os transplantados

            – ressuscitaram como ordenastes;

            inspirai os sociólogos e os economistas

            – não têm filhos na Praça da Sé;

Cristo, tende piedade de nós.

 

Senhor,

            Velai o sono dos que metem a mão no dinheiro público

            – sabem o que fazem, mas não o que poderiam fazer;

            permiti a fúria dos demagogos

            – são os profetas que merecemos;

            chorai pelos jornalistas

            – entupidos de meias verdades;

Cristo, tende piedade de nós.

Cristo, tende piedade de mim.

Cristo, escutai a minha prece e desculpai qualquer coisa aí.

 


[1]MINIMALISTA adj. e s.m. e s.f. Relativo ao minimalismo ou indivíduo que defende ou que age segundo o minimalismo.  MINIMALISMO s.m. Procura de soluções que requeiram um mínimo de meios ou de esforços. Fonte: Enciclopédia Digital Koogan / Houaiss, vol. 3.

[2] Do verbo CAIAR  v.t. Cobrir com cal; pintar com cal. Fonte: idem a “minimalista”.