Um texto que utilizei em mais de um ano letivo, com alunos de quinta e sexta séries, Ensino Fundamental, como atividade de leitura para estimular a produção de texto: eu lia o texto do livro para eles e, num determinado trecho, que será apontado aqui, parava a leitura e pedia aos alunos que soltassem a imaginação e ESCREVESSEM qual seria a solução do mistério que Marisa relata por meio de cartas para a prima. Após as leituras de suas produções, em classe, em voz alta, para que os demais alunos ouvissem e eu também, terminava a leitura de Tem uma história nas cartas da Marisa. Invariavelmente, os alunos e eu amávamos os resultados das produções de texto. Há muito o que explorar, pedagógica e socialmente no texto redigitado abaixo. Basta que o educador, também, solte a imaginação.

 

Tem uma história nas cartas da Marisa

De Mônica Stahel

Editora Clube do Livro Ltda.

Editora: Sônia Junqueira

Ilustrações Miriam Okubo

Projeto Gráfico: Sibele Andreoli

Revisão: Zenaide Rosa de Jesus

São Paulo, Clube do Livro, 1986. Literatura Infanto-Juvenil

Adquirido por Maria Lúcia Bernardini, em 27/04/1987, na 1.ª Bienal do Livro / Nestlé, em Sorocaba / SP. Nesse Encontro, como educadora, aprendi a amar os livros do Ziraldo, por exemplo, por meio da leitura e discussão de vários livros de Ziraldo, entre eles, O menino mais bonito do mundo. Outro livro, de um autor de sobrenome Magalhães, Orelhinha, Orelhudo

                        Sabe Nada, Sabe Tudo,

que, a começar pelo título, interpreta-se que a personagem principal, Orelhinha, quando obediente (como o sufixo “inha”, com conotação afetuosa), não sabia nada, mas quando era chamado de “Orelhudo”, era porque sabia tudo, ou melhor, estava desafiando o status quo, questionando conceitos e atitudes.

*****

 

 

Para a Andréa e para a Renata, porque a gente se ama e vive uma história bonita. E para todos os que entram na nossa história.

(A autora Mônica Stahel)

 

Ângela,

            Depois que você foi embora para Ribeirão Preto, eu fiquei um tempão andando pela casa que nem barata tonta, achando tudo muito sem graça. Cada vez que eu pensava que ia ter que esperar até as outras férias pra brincar outra vez com você, me dava vontade de sair gritando de raiva. Mamãe me deu um picolé pra eu ficar mais contente, mas a raiva era tanta que eu mastiguei a ponta do pauzinho, até fazer uma franjinha. Mais tarde a Maria e a Cláudia vieram me chamar pra brincar. Nós ficamos pulando corda na calçada, e depois sentamos no muro e ficamos brincando de botar apelido nos meninos. O Carlinhos ficou sendo o Carlão-sem-sabão. Toda vez que a mãe dele chama pra tomar banho, ele volta logo depois com outra roupa, mas com a mesma cara. A Cláudia disse que o Carlinhos abre o chuveiro só pra mãe dele ouvir o barulho, mas vai ver ele fica sentado na privada vendo a água correr. Aí troca de roupa, e pronto.

            A mania do Chico é dizer que um jogo não valeu sempre que ele está perdendo. Então, o apelido dele ficou sendo Chico-não-valeu. Não deu pra inventar mais apelido porque os meninos ficaram loucos da vida, quiseram tomar a corda da gente e começaram a puxar nosso cabelo. No fim cansou, a gente acabou indo todo mundo jogar queimada na casa do Fernando.

            Eu voltei pra casa contente da vida, mas quando o Fábio me viu foi dizendo: “Ta tristinha porque a priminha foi embora? Vai ser ruim mexericar sozinha por aí, né?”. Ah, Ângela, que raiva! Às vezes dá vontade de trocar esse irmão marmanjo por uma irmã do meu tamanho, como você!

Um beijo da

Marisa.

Ângela,

            Hoje começou a escola outra vez. No começo, fiquei com um pouco de preguiça de ir, mas depois até que eu achei legal. Acho uma delícia escrever em caderno novo. Só que a gente demora um pouco para acostumar com os colegas, porque todo mundo cresce e às vezes até fica com uma cara meio diferente. Foi por isso que a gente estranhou quando o Duda entrou na classe. Foi o único de nós que, em vez de crescer, diminuiu. Estava com a mesma cara de sempre, gorducho, mas muito menor. Ninguém quis dizer nada pra ele não ficar chateado. Mas susto mesmo a gente levou quando, depois de uns minutos, o Duda chegou de novo, dessa vez bem crescidinho como todos os outros. Acontece que o primeiro Duda não era ele, era o irmão caçula dele, que entrou este ano no pré. A professora encontrou com ele no bebedouro e levou pra nossa classe. Só depois é que ela reparou que ele tinha encolhido.

            Quando eu voltei da escola, ainda deu tempo de brincar um pouco de esconde-esconde com o pessoal aqui da rua. Só que hoje não teve muita graça. Você se lembra daquela casa verde da esquina, que estava desocupada? Pois, quando eu fui entrar lá com o Fernando pra gente se esconder no quintal, o portão estava trancado. Aí que a gente reparou que tinha cortina na janela. Mudou gente pra lá, e está todo mundo curioso para saber quem é, porque ninguém viu a mudança. De todo jeito, não dá mais pra brincar lá.

Vê se me escreve também, viu? Um beijo da

Marisa.

 

Ângela,

            Hoje eu sonhei que o Fábio estava me ajudando a catar tatuzinho no quintal e, de repente, ele virou uma garrafa de coca-cola vazia. Na hora do café eu contei o sonho e ele ficou louco da vida. Disse que nunca mais vai me ajudar a catar tatuzinho, que isso é besteira de criança pequena, e começou a me chamar de Marisa-cara-de-tatu.

            Sabe, hoje de tarde eu passei com a turma um monte de vezes na frente da casa verde pra ver se a gente descobria quem é que está morando lá. Não deu pra ver nada, mas deu pra ouvir barulho de gente varrendo o chão. Então nós combinamos de um de nós ir lá, tocar a campainha, e sair correndo. Enquanto isso, os outros ficavam escondidos atrás do muro da casa do Chico, que moram em frente, pra espiar quem vinha abrir a porta. Quando a gente estava escolhendo quem ia tocar a campainha, o pai do Chico chegou e descobriu nosso plano. Aí ele falou que era pra deixar os vizinhos sossegados e ir brincar longe dali. Mas eu acho que é tudo fingimento do seu Francisco, porque ele também deve estar louco pra ver a cara do pessoal que está morando lá em frente.

            Com a bronca do seu Francisco mixou a brincadeira e a gente veio sentar no muro aqui de casa. O irmãozinho da Maria Luísa foi buscar os tatuzinhos dele pra eu ver. Aí o Fernando teve a idéia de fazer uma corrida de tatu: os do Tonhão contra os meus. Mas nem teve graça: o Tonhão tem um tatu de corrida que ganhou todas. Eu fiquei morrendo de vontade de ter um tatu daqueles, mas o Tonhão não quis trocar nem pelos meus cinco. Ele disse que só vende por dez cruzados. E a mamãe falou que dinheiro pra comprar tatu ela não dá, porque no quintal tá cheio. Acontece que tatu de corrida só tem no quintal da casa verde, e lá não dá mais pra entrar.

            Olha, Ângela, vê me escreve. A turma sempre pergunta de você, e eu fico até com vontade de inventar umas novidades pra não ficar sem graça.

Um beijo da

Marisa.

 

Marisa,

            Gostei muito das suas cartas. Você vai bem? Por aqui está tudo bem. Mamãe manda lembranças. Um beijo da

Ângela.

 

Ângela,

            Foi legal saber que por aí vai tudo bem. Só que achei a sua carta meio sem graça. Aposto que você não sabia o que escrever e foi pedir pra sua mãe ditar.

            Minha mãe está na sala trabalhando, e eu estava espichada na cama, resolvendo se ia ler um livro ou escrever para você. Aí comecei a imaginar como é que ia ser se a cama saísse voando por aí comigo em cima. Fui correndo buscar um pacote de bolacha, uma garrafa de guaraná e o penico, e deixei tudo aqui perto de mim. Agora posso escrever sossegada, porque se a cama voar eu não passo fome nem sede, e nem preciso ficar segurando xixi.

            Depois que eu pedi dinheiro pra comprar tatu, a mamãe e o papai resolveram me dar uma mesada para eu gastar no que quiser. Na mesma hora eu saí correndo pra comprar o tatuzinho de corrida. Mas quando o Tonhão foi buscar o tatu, ele estava morto dentro do vidrinho. Também, acho que o Tonhão se esqueceu dele: nem pra dar comida e abrir um pouquinho a tampa do vidro pro coitadinho poder respirar! Só quero ver se ele consegue arrumar outro.

            Sabe, o Chico contou que outro dia ele acordou de noite pra ir no banheiro e quando chegou na sala o pai dele estava no escuro espiando a rua por um buraquinho da janela. Aí o seu Francisco disse que não estava conseguindo dormir e foi tomar um pouco de ar. Mas a gente achou muito gozado alguém tomar ar com a janela fechada e o olho pregado num buraquinho.

            A mamãe disse que o açougueiro contou pra ela que todo dia, quase na hora de fechar o açougue, vai lá um homem meio esquisito, com uma capa marrom. Ele chega, pede quatro bifes, paga, e vai embora sem falar nada.

            Acho que ele mora na casa verde.

            Eu contei isso pra turma, e a gente anda achando que esse homem esconde alguma coisa lá na casa.

            Ontem a gente ficou até tarde fingindo que estava brincando lá na calçada do açougue, mas o homem não apareceu. Aí a Cláudia falou com o açougueiro e ele disse que ontem o homem levou doze bifes. A Maria Luísa fez as contas e disse que dá para três dias. Então hoje também não adianta a gente esperar.

Um beijo da

Marisa.

 

Ângela,

            Hoje amanheceu chovendo. Que raiva que me deu! Justo num fim de semana, e eu sem nada pra fazer. Resolvi arrumar minha caixa de lembrancinhas. O Fábio entrou no quarto e ficou vendo as coisas comigo. Tem um garfinho de plástico da festa do Duda, um broche sem alfinete que eu achei na escola, uma fita estragada de gravador que o papai me deu, um cinto velho de um vestido da vovó, tampinha de garrafa, um monte de vidrinhos de remédio vazios (alguns até ainda estão na caixinha), uma pena de galinha, uma pedras redondinhas que eu achei na rua, aquele palito de sorvete mastigado, e um monte de outras coisas. O Fábio só reclamou quando ele achou uma bexiga velha, foi encher e percebeu que ela estava furada. Aí ele disse que tudo aquilo não serve pra nada, mas mesmo assim ficou olhando até eu acabar a arrumação.

            De tarde, a Cláudia veio aqui. Nós brincamos um pouco de boneca e depois fomos pra casa do Chico jogar dominó com todo mundo. De repente começou uma briga porque o Fernando grudou chiclete no cabelo da Maria Luísa. Os meninos começaram a defender o Fernando. Eu acho que a Maria Luísa é meio chata mesmo. Só porque ela é a mais velha, vive se exibindo e querendo mandar nas brincadeiras da gente.

            Eu não estava com vontade de brigar e fui pra janela olhar a chuva. Aí, menina, eu via as duas mãos de alguém fechando a veneziana da casa verde. Chamei o pessoal, e foi aquela correria. Mas, quando eles chegaram na janela, as mãos tinham entrando e ninguém viu nada.

                        O Chico acha que o homem da capa marrom é dono de um bicho-papão que ele não quer que ninguém veja. Eu lembrei da história dos quatro bifes. Mas o Chico disse que bicho-papão come muito e que deve ser três bifes pra ele e um pro dono. Só se for isso.

            O Tonhão acha que o homem é um bruxo disfarçado de gente. Como a bruxa é mais difícil de disfarçar por causa da verruga na ponta do nariz, ela manda o marido comprar carne pra ela e pros dois filhos. Mas aí eu já acho que é invenção do Tonhão, porque ele é muito pequeno.

Um beijo da

Marisa.

 

Marisa,

            Minha mãe disse que bicho-papão não existe. Por aqui vai tudo bem. Um beijo da

Ângela.

 

Ângela,

            Você parece boba! Todo mundo diz mesmo que bicho-papão não existe. Mas ninguém consegue descobrir quem é que mora na casa verde. Nem você e nem sua mãe.

            Ontem, eu ganhei duas tartaruguinhas daquelas que ficam na água. Arranjei uma bacia com água e algumas pedras pra elas subirem pra tomar sol. De tarde o Tonhão veio aqui e a gente achou que as tartarugas estão muito fracas, porque elas estão nadando meio devagar. Elas estavam precisando de um pouco de ginástica. Na mesma hora nós começamos a fazer exercícios de abrir e fechar as patinhas da frente, depois as de trás, plantar bananeira, como a gente aprende na aula de Educação Física da escola. Elas ficaram tão cansadas, que depois encolheram as patinhas e a cabeça dentro da casca e ficaram dormindo em cima das pedras. O Fábio disse que desse jeito nós vamos matar as tartarugas, mas eu nem liguei. Cobri as duas com uns paninhos pra elas dormirem melhor.

            De repente a Maria Luísa apareceu gritando que nem doida. Quando ela estava voltando da escola, passou na frente da casa verde e ouviu uns gritos horríveis lá dentro. Saímos correndo pra chamar o resto da turma e fomos pra lá, mas estava tudo quieto. Eu achei bom, porque estava com um pouco de medo, mas ia ser a primeira vez na minha vida que eu ia ouvir voz de bicho-papão. A Maria Luísa imitou pra gente ver, mas não saiu direito.

            A gente ficou um tempinho atrás do muro do Chico, todo mundo meio escondido. Quando o medo foi passando a gente começou a chamar o bicho-papão pra ver se ele respondia. Mas nada. A gente chamava cada vez mais alto e cada um ia dizendo uma coisa:

            “Homem da capa marrão, traz aqui o bicho-papão.”

            “Bicho-papão bobão, come bife com feijão.”

            “Fugiu, seu fujão, trepado no vassourão.”

            Essa quem inventou foi o Tonhão, porque ele continua querendo pôr uma bruxa de vassoura no meio da história. Mas ninguém ligou pra nossa gritaria, só as mães que começaram a chamar pra tomar banho. Aí a gente reparou que todas as casas já estavam de luz acesa, menos a casa verde.

Um beijo da

Marisa.

 

Marisa,

            A mamãe disse que o homem da capa marrom deve ser muito bonzinho e que ele compra bife pra dar pras crianças pobres que moram perto da casa dele.

            Por aqui vai tudo bem.

Um beijo da

Ângela.

 

Ângela,

            Essa história que a sua mãe inventou é história mais maluca e mais sem graça que eu já ouvi na vida. Sua mãe não deve entender muito mesmo dessas coisas, porque só aqui perto tem muito mais de quatro crianças pobres.

            E, depois, o açougueiro contou pra gente que faz um tempão que o homem da capa marrom não aparece mais pra comprar carne. Será que ele está doente? Será que o bicho-papão aquele dia estava berrando de fome? Será que o bicho-papão comeu o homem porque ele não quis mais comprar bife? Será que o homem comeu o bicho-papão porque ele comia bife demais?

            Não sei, não… Naquele dia que a gente aprontou aquela gritaria, o Chico disse que de noite apareceu uma luz misteriosa dentro da casa verde, fraquinha, que piscava muito.

            Hoje de manhã eu fiz um leãozinho de papelão e caixa de fósforo, pra aproveitar o palito mastigado de sorvete pra fazer o rabo. Também aproveitei um papelzinho de bala de coco pra fazer a juba. Achei o leãozinho tão legal, que me deu vontade de dar ele pro bicho-papão. O Tonhão veio aqui pra me perguntar uma coisa e achou a idéia ótima, pra dar um susto no bicho-papão. Isso eu não sei, vai depender do tamanho dele. Se for do tamanho da gente, acho que não assusta não. Mas, se for assim, do tamanho de um ratinho, aí acho que ele vai mesmo morrer de medo. Amanhã depois da escola eu vou lá na casa verde. Vou pular o portão, pôr o leãozinho bem na porta e sair correndo. Mas isso é segredo só meu e do Tonhão. Só que eu não queria que o bicho-papão ficasse com muito medo. Até amarrei no pescoço do leãozinho um bilhetinho assim: “Bicho-papão, fiz esse leãozinho pra você brincar.”

Marisa

Será que ele vai ficar bravo? Um beijo da

Marisa.

 

Marisa,

            Você não disse o que é que o Tonhão foi perguntar pra você. Aqui vai tudo bem. Um beijo da

Ângela.

 

Ângela,

            Eu esqueci mesmo de dizer o que o Tonhão veio me perguntar. É que o pai dele foi levar o cachorro no médico pra vacinar, e ele queria saber se o médico de cachorro é cachorro. Eu disse que devia ser, mas não é.

            Hoje não tenho nenhuma novidade da casa verde pra contar. Depois que eu deixei o leãozinho lá, não aconteceu mais nada. Mas ontem eu fui lá bem pertinho e vi que o meu presente não está mais lá. Alguém tirou, ou pisou em cima, ou comeu.

            A turma toda não tá mais agüentando esperar. Ontem a gente já começou a pensar em fazer a invasão da casa verde. O Fernando deu a idéia de entrar lá gritando e jogando pedra, até aparecer alguém. Só que a gente fica com medo das mães e dos pais. Acho que eles iam dar a maior bronca. A mãe do Carlão até falou pra gente ir lá, tocar a campainha e perguntar quem é que mora lá. Você já viu idéia mais boba?

            Hoje o Tonhão e eu fizemos uma armadilha de formiga. A gente pôs açúcar num vidrinho e deixou lá no chão do terraço. Amanhã, quando estiver tudo cheio de formiga, é só tampar o vidrinho e pronto. Já tem uma coleção. É mais fácil do que catar tatu. O Fábio quis jogar a armadilha fora porque ele disse que a gente só vai conseguir caçar barata. Mas eu já falei que se ele fizer isso eu jogo todos os carrinhos dele na casa do bicho-papão.

Um beijo da

Marisa.

 

Ângela,

            Você nem imagina o que aconteceu hoje. Pulei da cama logo cedinho e fui abrir a janela da sala pra ver se tinha muita formiga na armadilha. Mas não deu nem pra olhar pras formigas. Bem ali, pertinho da janela, tinha um embrulhinho todo ajeitadinho, amarrado com uma fitinha. Eu abri o embrulho e, dentro, achei um bonequinho feito de argila, lindo de morrer. O boneco tem uma verruguinha bem na ponta do nariz. Procurei ver se tinha algum bilhete, mas não achei nada, nem uma palavra. Puxa, bem que o bicho-papão podia ter mandado algum recado. Eu estava louca pra saber se ele gostou do leãozinho. Ainda não contei pra ninguém desse presente que eu ganhei. É capaz do pessoal achar que eu estou ficando lelé, e a Maria Luísa pode até ficar dizendo que bicho-papão não sabe fazer boneco de argila. Mas esse sabe.

Um beijo da

Marisa.

 

Ângela,

            Eu ia escrever agora pra você, mas tocou a campainha e eu estou vendo pela janela que é um homem de capa marrom. Eu vou lá com a mamãe pra ver o que é que ele quer. Tchau.

Marisa.

 

[Neste trecho, costumava parar a leitura para os alunos e esperar que escrevessem, naquela mesma aula ou na aula seguinte, uma continuação em que usassem a imaginação deles. Como os alunos escreviam em seus próprios cadernos e liam, em voz alta, para a classe toda e para mim, não estavam sendo corrigidos com relação à semântica ou à sintaxe, mas sendo OUVIDOS, isto é, o que importava era o conteúdo. Não tenho nenhum documento que possa redigitar aqui como produção literária desses alunos, pois ficavam nos cadernos deles. Acredito, sinceramente, que foi por atividades como essas, em que os alunos liam suas produções, do caderno, e não recebiam correções, que se criou um conceito errado sobre mim (que partiu, claro, do crime organizado, pois eu nunca fiz parte de quadrilha nenhuma e era "perigoooooooosa") de que eu jamais "corrigia" o que os alunos produziam. "Tadinhos", rezem pelos lacaios do crime organizado, lacaios que queriam (em obediência aos "patrões" do tráfico de influência) que eu saísse do Magistério Público, para que, de posse de todas as minhas produções pedagógicas, [os lacaios] ocupassem meu lugar. Ou será que alguma escola particular, de primeiro, de segundo ou de terceiro grau (como denominávamos naquela época de primeira a oitava séries, colegial e ensino superior) queria me ver "rastejando" para pedir vaga e não pagar o que eu merecia, porque EU os procurara? Certamente, a maioria absoluta das produções dos alunos  era muito boa, pois eu ouvia os alunos e prestava atenção ao conteúdo (enquanto exercitavam a habilidade de escrita para, no devido momento, receberem as correções necessárias) e não os interrompia, a não ser que o erro fosse muito evidente, na leitura, e precisasse de correção; mesmo assim, deixava a correção para o final da leitura do próprio produtor do texto. Sem o receio de que seriam inteiramente corrigidos, soltavam-se. Essa atividade deve ter sido feita entre os anos de 1991 e 1993.]

Final do livro:

 

Ângela,

 

          Faz tempo que eu não te escrevo, né? Nesse tempo todo eu ganhei um amigo. E depois andei muito triste proque fiquei sem ele. Ele tem uma verruga na ponta do nariz, usa sempre uma capa marrom e morava na casa verde do bicho-papão. Você tem que ver que jóia ele é.

          Na casa dele tinha um monte de tinta de tudo que é cor, papel colorido, três gatos numa cestinha, um trombone, um monte de pincel. Sabe, ele é pintor e chama seu Genésio.

          O seu Genésio sabe contar um monte de histórias lindas. Um dia eu fiquei lá a tarde toda fazendo desenho e ouvindo as histórias dele. Cada vez que o seu Genésio ia para a cozinha, ele tropeçava na cesta dos gatos, e eles aprontavam o maior berreiro. Até que eu resolvi tirar a cesta do meio do caminho e ficou melhor. O seu Genésio é muito distraído mesmo. Ele esqueceu de pagar a conta de luz e cortaram a luz da casa. Então, quando começou a ficar escuro, a gente parou de desenhar e acendeu uma vela. Acho que aquela luz misteriosa que a gente enxergava do lado de fora era luz de vela.

          O seu Genésio me contou que ele nunca fica morando muito tempo num lugar só. Ele gosta de conhecer sempre outros lugares e outras pessoas pra sempre ter idéias novas para pintar.

          A gente fez pipoca, mas o sal tinha acabado. Então a gente pôs açúcar mesmo, e ficou meio esquisito. eu fiquei um tempão comendo pipoca e ouvindo o seu Genésio tocar trombone.

          Quando a mamãe chamou pra ir pra casa, deu dei um beijo no seu Genésio. Aí ele me disse que ia mudar no dia seguinte para um país bem longe. Acho que um dia ele vai pintar um quadro da tarde que a gente passou junto.

Um beijo da

Marisa.

 

Marisa,

          Minha mãe não disse que bicho-papão não existia? Por aqui vai tudo bem.

Um beijo da

Ângela.

 

Ângela,

          Foi muito divertido brincar de bicho-papão. Só que agora perdeu a graça. Hoje eu não vou escrever muito. Hoje de manhã eu vi um caminhão de mudança parado na frente da casa verde. Eu vou correndo ver que é que mudou para lá. Vou bater na porta, pedir licença e entrar na casa, porque eu não quero perder mais um amigo.

Um beijo da

Marisa.

FIM

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Comentário de Maria Lúcia: é impressionante o potencial de qualquer livro que se transforme em atividade pedagógica. Neste, em especial, embora o tempo não esteja determinado – por meio de datas nas cartas, por ser atemporal – é possível acompanhar o passar dos dias ensoladorados, chuvosos, se é manhã, se é tarde, se é anoitecer… O estado de espírito de Marisa (características psicológicas, inclusive) se mostra pelo conteúdo de suas cartas à prima Ângela. A prima Ângela, por sua vez, que me perdoe quem estiver lendo e não goste de termos assim, é a própria "antitesão", porque joga um balde de água fria no entusiasmo de qualquer um. Todavia, como "antagonista", serve para orientar sobre algumas noções de educação, polidez e, quem sabe, determinar que a formação e informação dela são inferiores às de Marisa. Sem um "tico" de imaginação, Ângela desmonta todas as hipóteses de Marisa, dando-lhes soluções típicas de adultos, o que prova que a mãe de Ângela é que ditava as respostas para ela, enquanto Marisa, independente, extrovertida e imaginativa insistia em enviar notícias à prima.

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As imagens inseridas são do livro, muito manuseado por alunos, a quem eu o emprestava, e, mais recentemente, pela minha sobrinha Marina, que ri, todas as vezes, exatamente nos mesmos trechos e expressões. Marina já reparou, muito bem, que a Ângela não responde às cartas de Marisa e não gosta da Maria Luísa, porque é mandona, embora não reconheça essa "falha" nela mesma. O livro precisou ser reencadernado, com espiral, por causa do perigo de desfazer-se e a capa plástica era, sempre, uma providência, de minha parte, para que o livro durasse mais tempo (filho único de mãe solteira!) em virtude do manuseio por parte dos alunos. Nunca me incomodou o fato de o livro estar marcado pelas mãos que os liam, mas o fato de serem furtados me deixava p*** da vida!

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